Este texto é daqueles que, volta e meia, escrevo, sobre assuntos de fé que me interpelam, e que não são propriamente da Suma. Mas que quero deixar registrados aqui.

O assunto hoje é o capítulo 2 da maravilhosa Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, do Papa Francisco, que fala sobre a santidade na vida de todo cristão. Especificamente, nesse capítulo 2, ele trata de dois inimigos sutis da santidade, que são o gnosticismo e o pelagianismo. Dois assuntos que me provocaram muita meditação.

O Papa Francisco fala do gnosticismo e do pelagianismo como grandes males, grandes falsificações do espírito. Mas é interessante ler os próprios textos do Papa, não o que terceiros dizem sobre ele. Porque um gnóstico pode até saber que o Papa falou disso, mas um gnóstico não lê nem cita diretamente o autor, mas um correligionário que tenha lido o autor sob o seu viés.

Muitos filósofos sérios, como Hans Jonas e Eric Voegelin, estudaram o gnosticismo. Seria interminável debater tudo sobre este tema… Mas vamos usar apenas o referencial do documento “Gaudete et Exsultate”, do Papa Francisco junto com o documento “Placuit Deo” da Congregação da Doutrina da Fé, aqui.

Do pelagianismo não é necessário falar muito: trata-se de acreditar que o nosso valor está no nosso fazer incessante, e não no que somos. O ativismo incessante… não dar espaço a ninguém, para manter-se e a seu grupinho, no poder. Tratar quem tem filhos, família, hobby, lazer, outras atividades, como um relapso, indigno da posição que mantém. Um pelagiano pode estar incrivelmente ocupado, considerando-se um militante ungido, sem dar a mínima para seu próprio trabalho pessoal ou ministério na Igreja, que encara como meras “formalidades” que o atrapalham naquilo que ele julga mais essencial fazer. Confunde eficiência com voluntarismo e tem o reconhecimento público como salvação. Um pelagiano acha que o céu é um clube no qual ele, e os que se esforçam como ele, têm direito de entrar.

Mas voltemos ao gnosticismo. Não se trata simplesmente de “gnose”; gnose é a palavra grega para “saber”, ou “conhecimento”. Por exemplo, no termo “gnoseologia”, que a parte da filosofia que trata da nossa capacidade de conhecer. A preocupação do Papa Francisco é com o gnosticismo, que é uma doença relacionada ao conhecimento.

O gnóstico é mestre em ensinar o que não sabe, porque aprendeu num livro. É o rei da falta de lugar de fala. É capaz de ensinar cristianismo ao Papa. Ensina teologia pastoral ao pastor, ensina física quântica ao físico, ensina política ao político, e assim por diante. Mas nunca viveu de verdade o que ensina, porque não quer o ônus de viver, com toda a sua carga de risco. Ama o saber, mas não a concretude do outro. É um cérebro num barril, uma inteligência desencarnada.

Diz o Papa:

“Com frequência, verifica-se uma perigosa confusão: julgar que, por sabermos algo ou podermos explicá-lo com uma certa lógica, já somos santos, perfeitos, melhores do que a «massa ignorante». São João Paulo II advertia, a quantos na Igreja têm a possibilidade de uma formação mais elevada, contra a tentação de cultivarem «um certo sentimento de superioridade relativamente aos outros fiéis». Na realidade, porém, aquilo que julgamos saber sempre deveria ser uma motivação para responder melhor ao amor de Deus, porque «se aprende para viver: teologia e santidade são um binômio inseparável». (Gaudete et Exsultate, 45)

O gnosticista pode não ter filhos, mas sabe tudo sobre uma família. Não frequenta igrejas, mas dá aula sobre fé. Se for do sexo masculino, é mestre no “mansplaining”, porque pode ensinar as mulheres a serem feministas de verdade, ou sobre como o feminismo está errado. Se ele é evangélico, nunca fica muito tempo numa congregação, porque sabe mais Bíblia do que qualquer pastor. Se é ateu, não o é completamente, porque no fundo acha que ele próprio é deus, ou age como se fosse, tornando-se um insuportável proselitista de si mesmo. Se é católico, não frequenta a missa, não vive os sacramentos, porque já se acha pronto para o céu. Seu raciocínio é assim: “para que serve a religião? Não é para ensinar a ser socialmente responsável e preocupado com os pobres, com um mundo melhor e mais justo? Eu já sou assim, já sei tudo o que se poderia ensinar lá, então já não preciso mais dos sacramentos”. Morre cheio de informações e vazio de responsabilidades concretas.

Escreve 20 ou 30 livros sobre qualquer assunto que nunca viveu, porque considera os livros mais importantes que a experiência da vida. Suas certezas inabaláveis levam-no a rotular os outros com qualquer título de adversário, tão logo discordem de si. O gnosticista é um apóstolo de qualquer assunto que domina, por ter estudado ou estar convencido. Nunca se responsabilizou por um pobre concreto, mas crê lutador contra a pobreza. Nunca teve um cônjuge ou filho, mas é doutor em educação. Nunca se candidatou a nada, mas é doutor em política. Nunca fez nada produtivo, mas dá aula sobre economia, altos investimentos e política industrial.

Diz o Papa:

“O gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição. Assim, talvez sem se aperceber, esta ideologia autoalimenta-se e torna-se ainda mais cega. Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada. Com efeito, o gnosticismo, «por sua natureza, quer domesticar o mistério», tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros.” (Gaudete et Exsultate, 40)

Os exemplos se multiplicariam. Encontra uma causa e segue inabalável nela, crendo que o resto do mundo é uma ameaça, uma conspiração, porque somente a conspiração pode explicar a razão pela qual todos não o veem como o mestre iluminado e o dono da verdade. O mundo só será feliz quando todos concordarem com ele.

Diz o Papa:

“Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para seu benefício, ao serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais. Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus.” (Gaudete et Exsultate, 41).

A pior marca do gnosticismo é a incapacidade de autocrítica: um gnóstico de verdade jamais se reconhece como gnóstico. Os outros é que são, talvez, ingênuos, conspiradores, ignorantes, manipulados, enfim, qualquer rótulo que menospreze quem vive sem a cultura que ele acha que tem por estudar sem parar. Ele é o dono de Deus, mesmo se for ateu, e se sente capaz, acima de tudo, de definir, principalmente, onde Deus não se encontra: na vida do adversário. O adversário, aliás, é, primeiramente, um adversário de Deus, não do próprio gnóstico.

Diz o Papa:

“Nem se pode pretender definir onde Deus não Se encontra, porque Ele está misteriosamente presente na vida de toda a pessoa, na vida de cada um como Ele quer, e não o podemos negar com as nossas supostas certezas. Mesmo quando a vida de alguém tiver sido um desastre, mesmo que o vejamos destruído pelos vícios ou dependências, Deus está presente na sua vida. Se nos deixarmos guiar mais pelo Espírito do que pelos nossos raciocínios, podemos e devemos procurar o Senhor em cada vida humana. Isto faz parte do mistério que as mentalidades gnósticas acabam por rejeitar, porque não o podem controlar.” (Gaudete et Exsultate, 42).

Em tempo: eu sempre tive uma tendência ao gnosticismo. Saberia descrever o sabor de qualquer alimento que nunca experimentei, somente porque já li muito sobre ele. Estou em processo permanente de conversão, que significa: estou sempre me esforçando para lembrar que há um Deus, e não sou eu, e não o alcançarei nem pelo que faço, nem pelo que sei. No máximo, posso esperar ser alcançado por Ele. Deixar Deus ser Deus, porque, seja quem ele for, ele não pode ter dono, nem ser controlado, nem ser alcançado, nem ser seduzido. Eu preciso de Deus, eu preciso da Igreja. Nenhum dos dois precisa de mim; mas os dois me querem, me amam. Eis a importância de refletir sobre este documento papal.