1. Introdução.

O igualitarismo defende que todos os seres humanos deveriam ser perfeitamente iguais; qualquer diferença entre nós seria necessariamente injusta, e por isso inaceitável. Muitos regimes políticos totalitários mataram milhões de pessoas sob este fundamento. Mas também alguns regimes democráticos foram contaminados de outro tipo de igualitarismo: aquele que não admite diferenças naturais de sexo, de capacidades pessoais, de estruturas familiares. Somente seriam admissíveis as diferenças que são construídas, não aquelas que são dadas. No limite, o fato de que somos diferentes em capacidades, em estrutura corporal, em sexo, em corporeidade, seria uma grande injustiça em si mesmo, porque deveríamos todos nascer rigorosamente iguais, com a mesma compleição, com os mesmos talentos, com as mesmas aptidões. Neste sentido, toda diferença seria resultado de injustiça, de desordem, e portanto fruto do pecado, e não existiria num mundo livre do pecado, em que se vivesse a justiça absoluta.

Mas as coisas não são assim, é o que nos mostra este debate. As diferenças existem não para que sejamos adversários, mas para que sejamos complementares. Para que não sejamos autossuficientes, arrogantes, individualistas. E existiriam, mesmo no paraíso. Que sejamos diferentes naquilo que não é essencial, mas dotados da mesma dignidade de imagens de Deus, eis o plano.

Mas estamos nos adiantando. Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese inicial, para provocar o debate, é a de que, no paraíso, antes do pecado – isto é, nos planos originais de Deus, não deformados pela maldade das criaturas – seríamos todos rigorosamente iguais, mesmas aptidões, mesma compleição, mesmas capacidades, mesma constituição corpórea, mesma constituição sexual. A justiça perfeita seria, para esta hipótese, que fôssemos todos de uma só medida, de uma só aparência, de um só tamanho, sem diferenciação sexual e rigorosamente com a mesma capacidade intelectual. O resto, qualquer diferença, seria resultado de injustiça, desordem, pecado, e não dos planos originais de Deus. Há três argumentos iniciais que tentam dar sustento a esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento traz uma citação de São Gregório, que afirmou: “naquilo que não pecamos, somos rigorosamente iguais em tudo”. Ora, no paraíso inicial não havia pecado; então, se não houvesse o pecado e seus efeitos, seríamos todos rigorosamente iguais, sem nenhuma diversidade, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

A semelhança é causa de amor. Quanto mais reconhecemos no outro um semelhante, mais o amamos. Isto está registrado na própria Bíblia, já que o Livro do Eclesiástico (13, 19) afirma: “Todo ser vivo ama o seu semelhante, assim todo homem ama o seu próximo”. Ora, se não houvesse o pecado, haveria o máximo amor entre os seres humanos, porque todo desamor é fruto do pecado. Então, para que houvesse o máximo amor e a máxima paz entre todos os seres humanos, seria preciso que houvesse a máxima semelhança entre nós, excluídas quaisquer diferenças, mesmo naturais, que seriam fonte de desamor, de ciúmes, de inveja, de cobiça, de injustiças. Portanto, se não houvesse o pecado e a desordem dele resultante, não haveria nenhuma diversidade entre seres humanos, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Somente havendo uma causa é que pode haver um efeito. Portanto, para que haja diferença entre os seres humanos é preciso que haja algo que cause a diferença. Se essa causa cessar, também cessam as diferenças, e seríamos todos iguais.

Ora, há duas possíveis fontes de diferenças entre os seres humanos: Deus, que reconhece o valor das ações humanas em proporção com a bondade das escolhas realizadas na graça, e a natureza, que, em razão de desequilíbrios, faz com que uns nasçam fortes e vigorosos, outros fracos e debilitados, outros inteligentes e espertos, outros tolos e intelectualmente limitados.

Mas numa situação paradisíaca todos nós teríamos o mesmo valor perante Deus, porque sempre escolheríamos, com a sua graça, o maior bem possível. Além disso, na ausência do pecado, a natureza não produziria resultados defeituosos, e teríamos todos as mesmas aptidões, capacidades e talentos. Logo, se não fosse o desequilíbrio do pecado, seríamos todos rigorosamente iguais, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Agora, examinemos o argumento que nos impede de simplesmente aceitar a hipótese inicial. Neste caso, trata-se de uma citação bíblica, retirada da Carta aos Romanos 13, 1-2: “as autoridades que existem foram instituídas por Deus”, e resistir a elas é opor-se à própria “ordem estabelecida por Deus”. Ora, Deus não poderia ter instituído nenhuma “ordem” se não houvesse algo a ser “ordenado”, e só é possível existir algo para ser “ordenado” quando há diversidade e não uniformidade, já que na uniformidade a ordenação não é necessária. Ora, o que o pecado introduz não é a diferença, mas a desordem; e a desordem só pode existir ali onde havia ordem e, portanto, diversidade no próprio início.

Logo, se a ordem foi instituída pelo próprio Deus, então a diversidade faz parte dos seus planos mesmo, e não é simplesmente resultado do pecado humano, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Tema maravilhoso. Desde o início, por desígnio divino mesmo, havia a diversidade, que melhor revela, na criatura, a infinita riqueza de Deus, inesgotável. Cada criatura é finita, e por isso não poderia esgotar a infinita riqueza do criador. Mas se formos diversos, podemos expressar melhor, no conjunto, essa riqueza.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.