1. Retomando.

Talvez um dos mandatos mais mal compreendidos da Bíblia seja justamente o mandato de Deus para que o ser humano “domine” toda a criação. De fato, esse mandato foi concedido na situação original de integridade das relações entre Deus e o ser humano, entre o ser humano consigo mesmo e entre o ser humano e a criação. Era, pois, um domínio de gestão e integração, não um domínio de consumo e apropriação privada, de usufruto egoísta e destrutivo.

Então, por um lado, há os que se aproveitam da má interpretação do mandato bíblico para abusar do domínio em proveito próprio. Mas há também os que denunciam a fé como se fosse mero instrumento de dominação, legitimadora de poluição, ideologia econômica de apropriação disfarçada de palavra de Deus. Nada mais equivocado também. Não há mandato divino para a cobiça e a destruição. Estes são efeitos do pecado, que foi livremente cometido pelo ser humano, em abuso da liberdade.

Então em que consiste este domínio, quando adequadamente entendido? É isto que Tomás passa a responder agora.

2. A resposta de Tomás.

O ser humano, microcosmo e síntese da criação.

O ser humano é a joia preciosa da criação, e de certa maneira sintetiza todo o trabalho de Deus em si. De fato, somos inteligentes como os anjos, mas os anjos não trazem em si a matéria, e portanto não tomam parte do mundo material. Como os animais, somos dotados de percepção sensorial, inclinações sensíveis e instintos; na verdade, somos animais também. Como as plantas, somos seres vivos que se reproduzem, nutrem-se, crescem, respiram. E, como o restante do universo inanimado, temos massa, elementos químicos, peso e sofremos as forças físicas de atração e repulsão. Portanto, podemos dizer que somos a síntese de tudo o que Deus criou.

Ora, então para saber como o ser humano deve lidar com o restante das criaturas, é bom começar perguntando de que modo o ser humano se relaciona com cada dimensão destas em seu próprio ser:

As dimensões do ser humano e suas relações com as outras criaturas.

Assim, são quatro as dimensões do ser humano:

1. A dimensão racional, que é a nossa inteligência. Pela inteligência, partilhamos a semelhança com os anjos. Mas não dominamos a inteligência. Ela não é algo que controlamos, no sentido de que não a manipulamos livremente. Ora, é a inteligência que tem o comando, em nós. Ela comanda, ela não é comandada.

Assim, de modo análogo, não podemos comandar os anjos, que são inteligentes e livres. A nossa relação com eles, portanto, não é de domínio – eles também foram criados à imagem de Deus, como nós, e portanto não estão submetidos a nós.

2. A dimensão sensorial. Por esta, compartilhamos a mesma realidade que os animais irracionais também possuem. Em nós, estas faculdades estão agrupadas na nossa dimensão concupisciva, que nos atrai ao bem que é alcançável diretamente, como os alimentos ou o abrigo, ou na nossa dimensão irascível ou vigorosa, que nos impulsiona a alcançar aqueles bens que demandam esforço, demandam vencer obstáculos ou fugir do perigo, como um adversário ou mesmo uma ameaça natural. Proteger a prole, vencer predadores, enfrentar condições meteorológicas adversas, tudo isso é feito por meio dessas capacidades que estão sob esta dimensão.

Mas precisamos ordenar as capacidades sensoriais: se damos livre curso, por exemplo, às inclinações concupiscíveis (que, em si mesmas, são boas), podemos exagerar na comida ou na bebida, por exemplo. Se dermos livre curso às inclinações irascíveis, podemos nos tornar agressivos ou temerosos, por exemplo. É por isso que essas inclinações devem estar submetidas à razão: precisamos pensar sobre os tipos e as quantidades de alimento adequado, ou sobre a conveniência de enfrentar um adversário ou fugir.

Mas o domínio que a razão exerce sobre as inclinações sensoriais não é um domínio despótico, ditatorial: é um domínio que Aristóteles chamava de político, isto é, é preciso dar ouvido a essas inclinações, reconhecê-las, educá-las, estabelecer modos de viver com elas, bons hábitos e verdadeiras virtudes. A relação da razão com a esfera sensorial, em nós, é, portanto, uma relação de comando, de liderança equilibrada, que reprime e limita os excessos e as insuficiências sem desconsiderar o seu valor.

De modo análogo, portanto, nossa relação com os animais deve ser assim: não despótica, não ditatorial, mas política, de liderança inteligente e firme, mas com reconhecimento e respeito.

3. As capacidades vegetativas, como respirar, crescer, dormir, alimentar-se. Aqui, compartilhamos com os vegetais estas capacidades. Esta dimensão nossa não pode obedecer comandos nem se submete a controle ou educação. Assim, com esta dimensão, nossa relação é apenas de uso, de compreender e intervir, de respeitar e usar, mas não de educar e comandar.

Assim, com os vegetais, não podemos estabelecer a mesma relação de parceria que temos com os animais. Não adestramos os vegetais, nem dirigimos comandos a eles, mas apenas os utilizamos a partir de suas propriedades percebidas e compreendidas por nós.

4. As propriedades naturais que decorrem do fato de sermos corpo material. Aqui, compartilhamos as mesmas propriedades que qualquer corpo inanimado: dimensões, massa, peso, força gravitacional, figura, cor, enfim, todas as nossas características físico-químicas que existem em nós por sermos materiais. Aqui, de modo similar àquele que caracteriza a nossa relação com os vegetais, podemos apenas compreender e usar essas características, mas não coordenar nem educar. É assim, de modo análogo àquele com que nos relacionamos com nosso próprio corpo como objeto material, também nos relacionamos com o mundo inanimado.

Em suma: relação de amizade e coordenação com os anjos; relação de liderança e direção com os animais; relação de conhecimento e uso com seres vegetais e inanimados. E é assim que o microcosmo em nós determina a nossa relação equilibrada com o macrocosmo fora de nós.

3. Conclusão: os argumentos objetores iniciais ficaram respondidos.

De fato, Tomás entende que os argumentos objetores iniciais já ficaram suficientemente respondidos pela resposta sintetizadora, e não os enfrenta mais. Mas é bom relembrá-los, agora, para entender adequadamente de que modo essa resposta se deu.

O primeiro argumento diz que nem mesmo os anjos podem impor sua vontade arbitrariamente à matéria; logo, nem mesmo nós, humanos, poderíamos impor nossa vontade sore a matéria.

De fato, diríamos, o domínio sobre a matéria traz sempre como limite a aceitação da verdade de Deus sobre as coisas. Não somos criadores arbitrários, mas gestores fiéis e criativos. Assim, nem os anjos, nem nós, têm a possibilidade de impor seus próprios desígnios arbitrários sobre a matéria. Embora Deus permita, às vezes, que os anjos decaídos ou os seres humanos pecaminosos façam mau uso das coisas materiais; mas Deus é capaz sempre de tirar um bem maior, mesmo dos males que ele permite que aconteçam. Domínio não é arbitrariedade.

O segundo argumento diz que coisas inanimadas e vegetais não poderiam se submeter aos nossos comandos, e por isso não faria sentido dizer que o domínio dado por Deus a nós chega até eles. Isso fica bem explicado na resposta sintetizadora: de fato, para com eles, a relação é de conhecimento e uso. Mas na situação do paraíso, esse uso seria fácil e natural, diferentemente da situação após o pecado, em que a natureza oferece resistência ao nosso uso, e demanda o “suor do nosso rosto” (Gn 3, 17-19).

Por fim, o terceiro argumento cita os corpos celestes, que não poderiam ser dominados por nós por serem, como se acreditava então, imutáveis e inacessíveis, ao alcance apenas do próprio Deus. O crescimento da ciência em nosso tempo surpreenderia Tomás, confirmando a sua intuição de que mesmo os corpos celestes não são imutáveis nem estão fora de nosso alcance. Sabemos disso hoje.