1. Introdução.
Vimos, então, como o primado dos seres humanos sobre os outros animais se daria, no paraíso. A pergunta, agora, diz respeito ao domínio não somente sobre os animais, mas sobre todo o universo material. E as implicações ambientais são ainda mais graves: um domínio exercido com despotismo, com egoísmo, leva a um mundo desordenado, leva ao caos ecológico em que vivemos. Não há dúvidas quanto a isso. A pergunta que se impõe, então, é: o fato de que o ser humano tem usado mal o seu domínio, inclusive a pretexto de tê-lo recebido de Deus, condena o próprio domínio a ser algo ruim, a ser eliminado? Vale dizer: o mal está no domínio tal como exercido após o pecado, com toda a sua carga de desordem, ou o mal é o próprio domínio, de tal modo que o ser humano tenha que renunciar a ele e passe a viver como mais uma coisa na natureza, como pregam tantos ambientalistas panteístas hoje? Será que a solução é realmente renunciar às responsabilidades sobre o mundo e deixar-se levar por um “ecocentrismo” que condenará o ser humano a reduzir as taxas de natalidade, acabar com as atividades econômicas e fazer uma auto extinção civilizacional? O mal está nas relações com o universo criado, ou será que a nossa existência é um mal, e as nossas relações humanas seriam essencialmente ruins?
Tomás crê, e defenderá, que as relações do ser humano, como responsável pela criação, como imagem de Deus, como gerente e delegado na administração do mundo, são boas em si mesmas, mas estão atualmente contaminadas pelo pecado. Deveríamos gerir o mundo em nome de deus e para ele, mas o pecado como que entortou nossa vontade, e passamos a exercer esse domínio de modo autônomo, egoísta, ambicioso, provocando a destruição que contemplamos hoje. Tomás defende, pois, um teocentrismo participado, para o ser humano, como solução para o desequilíbrio das nossas relações com as coisas.
Mas deixemos de digressões, vamos ao texto.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é que nós não tínhamos, antes do pecado original, o domínio sobre todas as coisas. O que significa isto?
Afirmar isto significa que o ser humano não era, no início, senão uma pequena peça na criação, sujeito às forças naturais, passivo e inerte, e que qualquer relação, da nossa parte, que implicasse comando, liderança, gestão, sobre o mundo, seria má em si mesma. Para esta hipótese, a simples presença do ser humano, agindo sobre as coisas, modificando o ambiente, transformando a realidade, criando cultura e civilização, é maléfica e destrutiva em si mesma, ou seja, é pecaminosa. Traduzindo em termos clássicos, diríamos que a própria relação do ser humano com a natureza, a partir da liberdade humana, seria má, e não existiria no paraíso inicial. A simples presença humana, em qualquer dimensão que ultrapasse a presença patética de um grande animal irracional, ou seja, produzindo cultura, civilizando, gerando economia, ordenando a natureza, seria, em si mesma, fruto do pecado, e portanto abominável. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar essa hipótese de ecologismo radical.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor traz uma citação de Santo Agostinho, radicalizada. De fato, esse grande Padre da Igreja do século IV afirmou, no seu Tratado sobre a Trindade, que mesmo a vontade dos anjos, maus ou bons, não têm um poder arbitrário sobre a matéria, de tal modo a manipulá-la como quisessem. Ora, os anjos são criaturas cuja inteligência e vontade são muito mais perfeitos que os nossos. Se nem eles podem dominar plenamente a matéria, muito menos nós, seres humanos, temos um domínio divinamente concedido sobre ela, mesmo no estado paradisíaco inicial, ou seja, sem considerar os efeitos do pecado original, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor até admite que possamos ter alguma influência sobre os animais, porque estes têm inclinações decorrentes da sua sensibilidade natural, têm inclusive uma apreciação da natureza que envolve a estimativa quanto aos fenômenos naturais, e podem de algum modo prever o desenrolar dos acontecimentos e responder a eles, como se vê das presas que se defendem dos predadores antecipando seu ataque. Por essa capacidade de estimativa, os animais podem ser controlados, adestrados e levados a obedecer aos comandos que brotam de nossa razão.
Mas as plantas, de todos os seres vivos, possuem apenas as funções relacionadas à própria nutrição, ao crescimento e à reprodução. São apenas reativas, não têm nenhuma conduta que envolva alguma capacidade de estimativa. Não são capazes de obedecer ou reagir a comandos, nem de sofrer algum treinamento ou condicionamento de modo a acompanhar o que dita a nossa razão. Logo, elas não poderiam estar submetidas a nós, mesmo numa situação em que não existissem os efeitos do pecado em nós, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Dominar alguma coisa é ter capacidade de controle, de manipulação, de alteração, poder usá-la para nossos próprios fins, intervindo nas suas funções naturais. Ora, o ser humano não tem o poder de fazer isto sobre os astros e corpos celestes, que estão além da possibilidade de controle por nós. Logo, não existe algo como um mandato amplo de domínio sobre a criação em nosso favor, mesmo antes da queda pelo pecado, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita simplesmente as Escrituras, que, como sabemos, registra a ordem de Deus aos seres humanos (Gn 1, 26), ao criá-los: Domine ele sobre todas as criaturas. Ora, esta ordem foi dada ainda no paraíso, antes que houvesse qualquer pecado, e portanto envolvia uma relação harmônica com Deus e com a criação. Logo, o ser humano, criado à imagem de Deus, e portanto dotado de inteligência, tem um mandato santo para se relacionar com toda a natureza, criando cultura, civilizando o mundo, embelezando, com sua própria criatividade, o jardim de Deus; a capacidade de intervenção ordenada e obediente a Deus, do ser humano sobre a natureza não é, portanto, um resultado da desordem do pecado humano, mas um mandato santo de Deus, conclui este argumento.
5. Encerrando.
No próximo texto, veremos a resposta de Tomás a este debate tão bacana.
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