1. Retomando para encerrar.
A hierarquia no ser é uma ideia filosófica que foi abraçada pela teologia cristã: a ordem nas relações não é algo opressivo, nem é resultado do pecado. É a própria estrutura da Trindade: em Deus, as três pessoas são iguais em substância e em dignidade, mas há uma ordem entre elas: O Pai origina, o filho é gerado do pai e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Assim também na criação há uma ordem: aquilo que é inanimado apenas existe. O que é vegetativo existe e vive. O que é animal existe, vive e sente. O ser humano existe, vive, sente e pensa. Os anjos existem, vivem e pensam. A ordem implica também hierarquia de dignidade e de liderança: o que está mais acima é responsável pelo que está mais abaixo, pode servir-se dele, mas sempre para maior glória de Deus. Esta é a ordem, se excluirmos os efeitos do pecado original. Tudo que o pecado introduz é desordem, é mau, não pode ser desejável. Daí a importância de o conhecermos bem.
Examinaremos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor nos lembra que, segundo Santo Agostinho, os animais foram trazidos aos seres humanos, para serem nomeados na forma de Gn 2, 19, pelo ministério dos anjos. Ora, se os animais estivessem submetidos ao ser humano como a um mestre, não seria necessária a intervenção dos anjos, pois eles obedeceriam diretamente a Adão. Logo, os seres humanos não tinham nenhuma ascendência sobre os animais, no paraíso, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Também na gestão da criação há hierarquia. É certo que os santos anjos colaboram diretamente com Deus, por seu poder direto sobre a matéria e sua capacidade de agir sem se submeter a limites de deslocamento material no tempo e no espaço, e o fazem com mais amplitude do que o ser humano, cujo agir está vinculado ao tempo e ao espaço. Mas a existência de um poder superior não elimina nem nega o poder inferior.
Assim, o fato de que os anjos possam ter colaborado com Deus, no sentido de reunir a criação para que fosse nomeada por este último, não nega o domínio dos seres humanos sobre a criação, mas apenas ressalta o poder superior dos anjos. Ou, usando a linguagem que usamos no primeiro texto sobre este artigo, as forças inteligentes que regem o universo não retiram do ser humano sua posição de domínio na hierarquia dos seres, mas, antes da queda pelo pecado, estavam ao seu lado na ordenação do universo para Deus.
O segundo argumento objetor.
A reunião de dois entes sob o mesmo comando pressupõe que eles não estejam em oposição entre si. Ora, os predadores e as presas são inimigos naturais, e estão em oposição entre si, como se vê entre lobos e ovelhas, por exemplo. Jamais poderiam, portanto, estar sob o mesmo comando.
Portanto, o ser humano não podia estar em posição de comando de todos os animais, mesmo no paraíso, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Sabemos, diz Tomás, que algumas pessoas imaginam que, no paraíso, não havia animais predadores e presas, e que todos os animais viviam em harmonia entre si. Para esses que ensinam isto, a própria relação de predação entre os animais foi instituída pela queda dos nossos primeiros pais, e portanto decorrem do pecado. Mas isto, diz Tomás, é falso. A queda de Adão e Eva no pecado não destruiu a natureza dos animais, nem sequer a modificou: os que hoje são carnívoros já o eram no paraíso. A cadeia alimentar é, portanto, natural, inclusive quanto às relações de predação. É falso imaginar que, antes da queda, todos fossem bonzinhos no paraíso e os leõezinhos comecem grama, ou os crocodilos comecem ervas aquáticas. Leões e crocodilos são carnívoros e sempre o foram, mesmo antes do pecado de Adão. Mesmo os grandes comentadores da Bíblia, como São Beda em sua Glosa, ao comentar o versículo 30 do primeiro capítulo do Gênesis (“E a todos os animais da terra, a todas as aves do céu, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, eu dou toda a erva verde por alimento”) não afirmaram que todos os animais eram herbívoros no paraíso antes da queda, mas apenas que esta era a base alimentar deles então, como é até hoje.
Assim, prossegue Tomás, havia, lá como hoje, rivalidade natural entre os animais. Mas isto não significa que os animais que eram rivais na cadeia alimentar não estivessem submetidos à mesma ordem e ao mesmo domínio, pois estavam submetidos, então como agora, à providência divina; no paraíso, submetiam-se todos, predadores e presas, ao domínio humano, uma vez que o ser humano, no paraíso, era o gestor da providência divina. Ainda hoje, diz Tomás, muitas vezes gerimos espécies que são rivais entre si, como no caso dos criadores de falcões que os alimentam com carne de galinha, ou mesmo dos criadores de cães que os alimentam com a carne de bois e carneiros. O fato de que falcões e galinhas estejam entre si como predador e presa não impede que sejamos senhores de uns e de outros, mesmo na atual situação de queda.
Ou seja, o ser humano não era um dono despótico e egoísta, destrutivo e despreocupado, como veio a ser depois do pecado, mas era um gestor consciencioso e executor sensato da providência divina, como deveria ser hoje se não houvesse caído. Assim, a extinção de espécies, o desequilíbrio animal, a poluição, a degradação do meio ambiente, tudo isto é sinal de pecado. Mas não decorre do pecado o nosso domínio sobre os animais que decorre da participação na providência divina.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor lembra de uma afirmação de São Jerônimo, na qual este Padre da Igreja e importante biblista diz que Deus deu ao ser humano, antes da queda, um domínio sobre os animais que não chegou a ser usado, porque o ser humano não tinha necessidade dele então; essa concessão foi uma espécie de previsão divina quanto às necessidades humanas após a queda. Assim, embora o próprio domínio seja pré-lapsário (ou seja, antes da queda), ele estava destinado a não ser usado, e o seu exercício só ocorre por causa do pecado, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Peço licença a Tomás para fazer um pequeno comentário pessoal: lembro-me que, na minha infância, os livros didáticos de ciências sempre apresentavam os animais sob o ponto de vista da utilidade para os seres humanos: assim, por exemplo, descobri que a pelagem de alguns animais era ótima para fazer pincéis, ou que outros eram próprios para fornecer carne e leite, e assim por diante.
Mas no paraíso as coisas não eram assim. A relação dos seres humanos com os animais, diz Tomás, não estava fundada na utilidade que esses animais poderiam ter para os seres humanos, porque, no paraíso, as necessidades humanas não eram atendidas com esforço ou trabalho. Na verdade, não se precisava de roupas, porque estávamos nus sem que fôssemos abalados por desejos impróprios. Por alimentos, tínhamos todas as frutas do paraíso (e lamentavelmente escolhemos comer da única que nos era vedada) e nosso corpo ordenado era capaz de se mover com graça e leveza, de tal modo que não precisaríamos de transporte animal. Assim, no paraíso, os animais eram submissos pelo valor intrínseco deles, para nossa contemplação; para que, conhecendo-os e entendendo-os, pudéssemos assimilá-los em nós, e para a ordenação de todas as coisas a Deus, que estava a nosso encargo. Não pelo valor de uso, mas pelo valor em si.
O quarto argumento objetor.
O domínio se faz dando ordens. Mas somente se pode dar ordens a quem tem inteligência para recebê-las. Os animais, no entanto, são irracionais, não podem entender nossas ordens e comandos. Então não faz sentido dizer que os seres humanos tinham domínio sobre os animais no paraíso, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os animais participam, de certo modo, em razão de sua capacidade de estimativa, da capacidade de comandar e obedecer. Basta ver o modo pelo qual os bandos de pássaros seguem seus líderes no ar, ou matilhas de lobos são capazes de se coordenar para caçar em bando. Também vemos a maneira pela qual os animais adestrados obedecem aos comandos dos seus adestradores, ou os animais domésticos são capazes de ouvir e atender aos seus donos. Ora, no paraíso, quando a natureza humana estava em ordem e os efeitos do pecado ainda não se faziam sentir no meio ambiente, todos os animais podiam compreender e obedecer aos comandos humanos apenas em razão de suas capacidades sensoriais e seus instintos. Ou seja, havia um instinto natural de sujeição dos animais a nós, perfeitamente equilibrado e ordenado ao bem comum, que foi perdido, em grande parte, pela queda.
3. Concluindo.
E era assim que a harmonia reinava no paraíso, sob o comando ordenado e sensato do ser humano como delegado da providência divina. Este comando ainda deixou traços entre nós, pela nossa capacidade de domesticar, de intervir criativamente, de selecionar artificialmente e até de proteger, embora maculada pela desordem, pelo egoísmo e pela ganância que causam tanto mal à ecologia.
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