1. Voltando a refletir.
É claro que, na ordem dos planos de Deus, dominar não é destruir, não é ser proprietário, mas é servir a Deus e ao próximo, ordenando as coisas. Cuidar. É este o sentido da dominação do ser humano sobre os animais: nós, que somos seres inteligentes, capazes de amar e de caminhar livremente até Deus, temos o encargo de caminhar com eles. Isto nos dá, de modo similar, uma dignidade: a dignidade de imagem de Deus na criação. Isto estabelece a ordem correta para qualquer consideração quanto às preocupações ecológicas, ambientais, conservacionistas e outras similares que são tão urgentes nos dias correntes.
De fato, ainda hoje vemos que é próprio dos governantes espalhar imagens suas nos lugares onde se estende sua tutela. As repartições públicas contam com fotos oficiais dos Presidentes da República, como, antigamente, as estátuas dos imperadores romanos estavam afixadas nas cidades que eram colônias suas. De certo modo, ao nos criar como imagens suas, Deus fez algo análogo: colocou-nos como marcas de seu próprio domínio sobre a criação. Somos estátuas vivas do imperador, ou algo muito mais digno ainda.
Mas deixemos de digressões. Examinemos agora a própria resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A ordem natural antes do pecado incluía a hierarquia dos seres.
A desordem no mundo, inclusive do ponto de vista ecológico, é fruto do pecado, diz Tomás. Antes do pecado, o ser humano vivia num mundo perfeitamente ordenado, que não lhe resistia no reto caminho para Deus. As necessidades humanas não entravam em conflito com o resto da criação. Não havia desequilíbrio entre os fins humanos e os animais. Na verdade, o fato de que o ser humano estava em ordem interna refletia-se na sua relação com o mundo. Não era uma relação predatória, mas uma relação de harmonia – embora hierárquica. A hierarquia entre as criaturas não é fruto do pecado, mas um traço desejado e criado por Deus. E nessa hierarquia o ser humano era o gestor, o gerente instituído por Deus mesmo. A desobediência humana rompeu esse equilíbrio. Colocou o ser humano em oposição aos outros animais, ali onde havia perfeita gestão, por nossa parte, e doce submissão, por parte dos outros animais.
As três razões da sujeição dos animais.
Havendo, então, perfeita harmonia entre nós e a natureza ao nosso redor, havia uma sujeição natural dos animais irracionais a nós, de tal modo que eles se submetiam por natureza à gestão humana. Essa gestão, como vimos, não era destrutiva, não envolvia oposição ou resistência, mas perfeito equilíbrio e perfeito direcionamento aos fins.
Tomás aponta, então, três evidências, três razões pelas quais fica clara essa sujeição natural dos animais a nós:
1. Pelos processos naturais. De fato, diz Tomás, basta observar a natureza para notar que os ciclos naturais estão estabelecidos de tal modo que a hierarquia traz benefício a todos os seres. Existe um caminho desde o mais baixo até o mais alto, como se vê mesmo na estrutura metafísica das coisas: a matéria existe para a forma, e não o contrário. Dentre os seres, vemos que as plantas dependem basicamente dos recursos minerais do solo e da energia do sol; os animais inferiores dependem das plantas ou de outros animais que lhe estão abaixo na cadeia alimentar. E, por fim, os seres humanos dependem das plantas e dos animais irracionais. Neste sentido, é tão natural que utilizemos as plantas e os outros animais quanto é natural que os herbívoros consumam plantas e os carnívoros, suas presas. O próprio Aristóteles, que não conhecia a revelação judaico-cristã, confirma essa organização quando considera, no Livro I da Política, que a apreensão de animais pelos seres humanos é justa, porque é assim que os seres humanos reivindicam o que lhes pertence por natureza. Acrescentaríamos apenas que a queda, resultante do pecado, faz com que essa apropriação dos outros entes pelos seres humanos nem sempre seja justa, porque nem sempre é virtuosa e sustentável como seria numa situação paradisíaca; aquilo que, em si mesmo, pode ser justo, torna-se injusto pelo excesso ou pelo modo.
2. Pela ordem divina. De fato, Deus governa o mundo valendo-se dessa hierarquia, que ele, de modo providente, estabeleceu no mundo. Assim, uma vez que, dentre as criaturas, somos as únicas que têm a dignidade de imagem de Deus, é razoável que sejamos também os gestores do mundo, não em razão da ganância do pecado, mas em razão da participação sábia e prudente nos planos de Deus.
3. Pelas capacidades humanas e dos outros animais. De fato, sabemos que os animais são dotados de certa capacidade de estimativa: se alguém atira, por exemplo, uma bolinha ao ar, os cães são capazes de estimar sua rota e velocidade, de maneira inconsciente, e saltar para apanhá-la no ar, conforme sua trajetória. Alguns animais são capazes de enganar seus predadores, fugindo de sua rota ou mesmo se mimetizando com o ambiente.
Ora, essa estimativa, que nos animais é particular e concreta, e diz respeito a um aspecto somente, em nós recebe a condição de virtude da prudência, capaz de ponderar, a partir de critérios abstratos e universais, a melhor atitude em cada caso concreto. Ora, aquilo que é particular e concreto é sempre uma expressão participada daquilo que é abstrato e universal. Ou seja, todo o equilíbrio concreto do meio ambiente, toda a ecologia, é uma expressão como que programada e imutável daquilo que, no ser humano, se exprime como cultura e civilização; portanto, a cultura e a civilização não seriam, se não fosse o pecado, uma ameaça ao meio ambiente, mas um verdadeiro coroamento. Sem o pecado, as civilizações humanas não somente estariam em perfeita harmonia com o meio ambiente, como, na verdade, seriam o ápice, a plenitude, a razão de ser das relações naturais da ecologia animal, como a inteligência é a coroação do instinto.
3. Encerrando.
Esta relação perfeitamente equilibrada, do ser humano santo e imaculado com um ambiente ecologicamente harmonioso, foi lamentavelmente rompida com o pecado. Mas, como esperamos, será restabelecida de modo ainda mais perfeito quando houver novo céu e nova terra, descritos no Livro do Apocalipse.
Mas estamos mais uma vez nos adiantando. No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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