1. Retomando para encerrar.

Nossas ações podem ter valor perante Deus, sempre que sejam movidas pela graça e formadas pelo amor. Não é indiferente a ele o que fazemos, o quanto manifestamos o amor dele por nós em nossas obras. Deus é infinitamente livre, inclusive para nos fazer diferentes quanto ao amor que vivemos e às oportunidades de fazer o bem que encontramos. Não posso me comparar a um mártir que encontra a morte violenta por não renegar a fé, quanto ao mérito perante Deus; isto é bíblico, está em Apocalipse 7, 14.

Assim, posto que há diferença de valor em nossas ações perante Deus, é justo perguntar que tipo de valor podem ter as ações de um ser humano que nasceu sob a queda, marcado pelo pecado original, mas justificado pela graça de Cristo, em comparação com nossos primeiros pais, criados imaculados e na graça. É isto que estamos debatendo.

Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Para o primeiro argumento objetor, é a intensidade da graça concedida por Deus, e não a nossa própria vontade por si mesma, que torna nossas ações mais valorosas aos olhos dele. Mas Deus, em sua infinita misericórdia, socorre mais aos que são mais necessitados. Mas Adão e Eva, no paraíso, como já vimos, tinham conhecimento intelectual e virtudes morais, além de serem imaculados pelo pecado original e estarem perfeitamente ordenados internamente, sem apegos e sem vícios. Assim, eles eram muito menos necessitados da graça do que nós, hoje, que somos desordenados, ignorantes e contaminados pelo pecado. Assim, se recebemos maiores graças do que eles recebera, devido ao nosso estado, então, por consequência, o nosso atuar em conformidade com essa graça recebida deve ser mais meritório do que o deles, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não é que Deus nos dê uma graça em maior quantidade do que dava a Adão e Eva no Paraíso, de tal modo que nossas ações, comparadas com as mesmas ações deles, tenha maior intensidade de graça, e por isso sejam mais valorosas. Não é assim que ocorre.

Na verdade, o que ocorre é que nós precisamos da graça divina para muitas coisas das quais Adão e Eva não precisavam. Eles precisavam da graça divina apenas para elevar sua natureza de modo a entrar em relação com Deus, e poder livremente amá-lo, alcançando, assim, a vida eterna na glória com Ele. Nós, porém, precisamos da graça para nos curar do pecado original, vencer a desordem que o pecado original causou em nós, restabelecer nossa amizade com Deus, perdoar nossos pecados voluntários, sustentar nossa debilidade natura frente ao mal e, é claro (como também no caso de Adão e Eva) alcançar a glória da vida eterna em Deus. Portanto, a graça, em nós, [e necessária para muito mais finalidades do que para nossos primeiros pais, que eram imaculados, ordenados, virtuosos.

Mas o fato de que precisamos da graça para mais fins do que eles não é algo que seja meritório para nós em comparação com as ações de um coração imaculado elevado pela graça, como era o dos primeiros pais, como é o de Nossa Senhora; ao contrário, o fato de que, neles, a natureza está em ordem facilita a elevação pela graça, já que a graça pressupõe a natureza e não a substitui. Podemos pensar na graça, metaforicamente, como o combustível de um automóvel: se o automóvel é um belo carro de corrida, todo arrumado, regulado e potente, o combustível o fará facilmente funcionar bem e ter um ótimo desempenho Mas se temos apenas um velho calhambeque todo desregulado e avariado, o mesmo combustível apenas nos fará andar de modo lento, desengonçado e ineficiente. Adão, Eva e Maria eram esses carros de corrida eficientes na utilização da graça (embora os dois primeiros tenham escolhido o desastre). Nós somos apenas velhos e ineficientes calhambeques.

O segundo argumento objetor.

O valor das nossas ações, aos olhos de Deus, pressupõe a nossa luta e a nossa dificuldade para realizá-las, como está dito na Bíblia (2Tim 2, 5): “Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras”. E o próprio Aristóteles confirma que a virtude pressupõe a dificuldade para alcançar o bem. Assim, uma vez que a luta e a dificuldade para alcançar o bem são maiores num mundo decaído pelo pecado original do que eram no paraíso, nossas boas ações são muito mais meritórias do que eram as boas ações de nossos primeiros pais no paraíso, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há dúvidas, diz Tomás, que a dificuldade e a luta para agir bem intensificam o valor das respectivas ações, em proporção com o respectivo objeto da ação, como já foi dito (lembremos do caso da doação da viúva); vencer as dificuldades e perseverar na luta são sinais da prontidão da vontade para o bem, e isto certamente deve ser levado em conta quanto ao valor das ações.

Mas devemos lembrar que a presteza da vontade decorre da intensidade com que vivemos o amor de Deus em nós. Para uma pessoa, que está longe de acolher e viver o amor de Deus em si, talvez se desapegar de um pequeno valor para dar uma esmola, ou vencer a preguiça de ir numa missa, seja algo difícil e que demande até um conflito interior; mas isso decorre de que esta pessoa tem pouca receptividade ao amor de Deus, ou seja, à virtude da caridade, e por isso mesmo fazer um pequeno bem é, para ela, fonte de luta e de conflito. Isso não torna suas ações mais meritórias do que a daquela outra pessoa que, inflamada pelo amor de Deus, é capaz de ajudar os outros até com o que pode lhe faltar, e é capaz de agradecer a Deus e louvá-lo com muita facilidade e empolgação. Assim, diz Tomás, alguém que realiza uma ação fácil, simples, com presteza e docilidade de vontade, pode demonstrar uma caridade que estaria pronta também para as eventuais ações difíceis que Deus venha a lhe propor. Quem é fiel no pouco, diz Jesus, também será fiel no muito (Lc 16, 10).

Por outro lado, a dificuldade e a luta para realizar, pela graça, até mesmo uma ação meritória simples, decorre, na situação decaída em que vivemos, das consequências punitivas do pecado original em nós, e isto não torna as respectivas ações mais meritórias do que aquelas praticadas no paraíso: foi por nossa livre decisão, como espécie, que caímos, e vencer as consequências desse pecado em nós é algo bom, mas não necessariamente mais meritório do que uma ação simples, praticada por amor, com facilidade, por um coração imaculado como, por exemplo, o de Maria. Voltemos, aqui, à metáfora do velho calhambeque (que é o nosso coração) comparado com o carro de corrida, que foi mencionada na última resposta acima.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento traz uma citação de Pedro Lombardo, autor do “Livro das Sentenças”, que era a obra fundamental para a formação teológica no tempo de Tomás. Lombardo diz que, nos nossos primeiros pais, resistir à tentação não era uma ação com valor sobrenatural aos olhos de Deus; mas para nós, resistir a tentação é meritório aos olhos de Deus. Logo, diz o argumento, nossas boas obras são mais capazes de nos angariar méritos do que aquelas dos nossos primeiros pais.

A resposta de Tomás.

Para que uma ação tenha valor aos olhos de Deus, é necessário que ela seja praticada sob o influxo da graça; ora, há muitos que defendem que a natureza de Adão e Eva era tão ordenada que eles nem precisavam da graça, e por isso eles não a tinham, no estado original. Mas isso é um pensamento equivocado: eles precisavam da graça para estabelecer uma relação sobrenatural com Deus. Mas não para a sua vida natural, que era perfeitamente ordenada. Neste sentido, eles não estavam sujeitos às tentações internas, porque tinham perfeito discernimento quanto a seus afetos e inclinações. E às tentações externas eles tinham os conhecimentos e virtudes naturais para discernir e vencer – embora, efetivamente, não o viessem a fazer, quando foram confrontados pela serpente. Mas vencer a tentação por possuir os conhecimentos e as virtudes naturais suficientes não é uma ação sobrenaturalmente meritória: pensemos, por exemplo, num grande investidor ou comerciante que tem disciplina suficiente para não desperdiçar dinheiro com bobagens, e é capaz de temperar suas necessidades pessoais para que sobrem recursos para seus investimentos e negócios. Também neste caso a vitória sobre as tentações de gula ou de prodigalidade é algo meramente natural, não meritório do ponto de vista sobrenatural. Portanto, a vitória sobre as tentações, nos nossos primeiros pais, podia ser feita apenas com as forças da sua natureza, sem envolver ações de valor sobrenatural.

Mas para nós, com nossa natureza desordenada, nossa falta de discernimento, nossa falta de virtudes, precisamos da graça até para resistir às pequenas tentações internas. Por isso, resistir à tentação pode ser matéria de mérito sobrenatural, para nós, ali onde talvez não fosse para Adão e Eva, mas isto não significa que sejamos mais capazes de realizar ações sobrenaturalmente valorosas do que eles eram.

3. Conclusão.

Somente quatro seres humanos eram originalmente imaculados: Adão, Eva, Maria (Lc 1, 28) e Jesus. Apenas dois deles se mantiveram imaculados até o fim: Maria (Ap 12, 17) e, é claro, Jesus. Não há a possibilidade de que nossas ações possam ser mais valiosas, aos olhos de Deus, do que as de Maria e Jesus. Ou as de Adão e Eva antes da queda. Eles eram “carros de corrida” da graça; nós somos calhambeques malconservados. O que não significa que não possa haver um valor maravilhoso em simplesmente fazer o calhambeque andar.