1. Retomando.
Como medir o valor de nossas ações perante Deus? Somos como aquelas crianças que pedem dinheiro ao pai para comprar o próprio presente que darão a ele no seu aniversário, e ainda pedem ajuda a ele para embrulhar o presente. Será que o pai que recebe um presente assim fica alegre? Sim, com certeza. E ficará tão mais feliz quanto mais perceber que o filho colocou alguma coisa de si no presente; não se limitou a ir a uma loja e comprar uma gravata ou uma meia, mas comprou cartolina e lápis de cor, escreveu um poema de gratidão ao pai, desenhou meio toscamente o pai sendo abraçado por ele, talvez; fez um cartão, colocou num envelope com sua própria caligrafia e deu ao pai, junto com o presente que comprara. Em sua pobreza, a criança fez gestos meritórios frente ao pai, embora usando os recursos que o próprio pai disponibilizara para ele. É assim que nossas ações, mesmo apoiadas na graça, podem encontrar mérito aos olhos de Deus: não deixam de ser ações pessoais, filiais, nossas, mesmo se decorrem da graça (“sem mim nada podeis fazer”, diz Jesus em João 15, 5). Sem a graça de Deus, não podemos fazer nada que agrade a Deus. O que não significa dizer que o que fazemos com a graça de Deus não é verdadeiramente ação nossa, que tem valor aos olhos de Deus, como o presente daquela criança, financiado pelo próprio pai, tem valor aos olhos do pai. É bom lembrar sempre: a graça é absolutamente necessária para que qualquer ação nossa agrade a Deus, mas a graça não faz com que nossas ações não continuem a ser nossas. A graça não destrói nem substitui a natureza humana, mas a pressupõe e eleva, diziam os antigos. Aquilo que um ser humano faz pela graça de Deus continua sendo ação humana, e pode ter valor aos olhos de Deus.
Como podemos medir este valor? Será que nossas boas ações, aquelas ações que Deus mesmo preparou de antemão para que pudéssemos realizar sob sua graça, como diz São Paulo em Efésios 2, 10, são mais valorosas do que as ações de Adão e Eva no paraíso, antes da queda?
Vimos, no último texto, a hipótese de que nossas ações, assistidas pela graça, são mais valorosas para Deus do que aquelas boas ações que nossos primeiros pais praticaram no paraíso, antes da queda. Vimos os argumentos favoráveis e o argumento desfavorável a essa hipótese. Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Os graus de merecimento de nossas obras perante Deus.
A fonte de boa parte dos debates que encontramos na Suma é a ambiguidade das noções que usamos cotidianamente, sem atentar para o fato de que uma palavra pode ter mais de um sentido. Por isso, muitas vezes, a solução que Tomás dá envolve distinguir adequadamente os significados dos termos que usamos nos debates. Quantas discussões bobas poderiam ser resolvidas assim!
De fato, diz Tomás, há dois sentidos para o termo “mérito”, que explicam de que modo podemos falar que nossas ações alcançam valor perante Deus. São eles:
1) O valor qualitativo das nossas ações, que poderia ser descrito como valor salvífico, conforme elas se fundamentam no amor sobrenatural (caridade), pela graça de Deus. É claro que uma pequena esmola, dada por amor a Deus, por alguém que vive, no entanto, uma vida voltada para as conquistas temporais, não pode ter o mesmo valor, perante os olhos de Deus, daquela religiosa que dedicou sua vida aos pobres, como Irmã Dulce ou Madre Teresa. Mas ambos os gestos são meritórios, daquele tipo de mérito cuja recompensa não é outra senão a própria amizade com Deus. Com certeza, na eternidade, será mais íntimo de Deus aquele que viveu sua vida em caridade do que aquele que, embora tendo respondido à graça de modo amoroso, não se dedicou integralmente a ela em vida. Ambos, se morrerem em estado de graça, estarão eternamente na presença de Deus; mas um deles com mais intimidade do que o outro.
2) O segundo sentido em que falamos de valor de uma ação diz respeito à consolação, à alegria que ela cria em nós e em toda a Igreja, como comunidade dos santos. É o caso das ações indulgenciadas, que podem introduzir o bem e a ordem no mundo e livrar das penas temporais aqueles que, embora salvos pela graça, ainda têm penas por pecados já perdoados. Neste caso, uma ação pode ser valorosa em dois sentidos: a) no sentido absoluto, pelo fato de ser uma boa ação, que faz o mundo ser melhor; como alguém que doa alimentos a uma entidade eclesial de caridade, ou colabora com seu serviço numa quermesse paroquial, ou ainda visita um santuário em peregrinação penitencial. b) num sentido relativo, como aquela viúva que doou duas pequenas moedas para o tesouro do Templo (Lc 21, 1-4). Absolutamente falando, suas pequenas moedas fariam pouca diferença para cobrir as despesas do Templo, e poderíamos dizer que são quase insignificantes. Mas, no sentido relativo, são uma doação enorme, em comparação com as suas próprias posses. Assim, com relação ao valor acidental, ou seja, à consolação, às penas temporais, ao aumento do tesouro da Igreja, é uma ação cujo valor relativo é enorme.
O valor das ações dos nossos primeiros pais do ponto de vista salvífico.
Assim, podemos dizer que, com relação ao valor das ações, no sentido absoluto do termo, quanto ao amor e ao valor salvífico, ou seja, no sentido salvífico, apontado no item 10 acima, as ações de Adão e Eva eram muito mais valiosas do que as nossas: uma vez que seu coração estava ordenado para Deus, e era imaculado pelo pecado, o valor de suas ações de amor animado pela graça, antes do pecado, era muito maior do que o das nossas hoje. É fácil perceber isto: intocados pelo pecado, seus corações empenhavam-se inteiramente ara Deus, e traziam nas mãos não só a sua própria salvação, mas a salvação do mundo inteiro, de quem eram pais. Assim, o valor de suas boas obras ultrapassava em muito o valor das nossas. Como o desvalor de seu pecado original ultrapassou o desvalor de nossos pecados pessoais. Do ponto de vista salvífico, portanto, suas ações tinham um valor que as nossas nunca alcançarão.
O valor das ações dos nossos pais do ponto de vista da alegria e da consolação.
Podemos dizer também que, no sentido da consolação, da alegria, ou seja, de obter a indulgência de Deus, as suas boas obras tinham um valor absoluto (item 02 a) muito maior do que as nossas. É que elas eram feitas por corações limpos, imaculados, virtuosos, sem arrependimentos, sem apegos, e portanto com plena generosidade. Em nossos corações marcados pelos efeitos do pecado, mesmo as melhores obras não deixam de estar marcadas, ainda que em grau mínimo, por intenções que talvez não sejam tão puras. Ou, como escrevia Santa Teresina de Lisieux: “Ao entardecer desta vida, comparecerei diante de vós com as mãos vazias, pois não vos peço, Senhor, que contabilizeis as minhas obras. Todas as nossas justiças têm manchas a vossos olhos. Quero, portanto, revestir-me de vossa própria justiça e receber de vosso amor a posse eterna de vós mesmo” (citada no Catecismo, § 2011). Ou seja, diferentemente das obras de Adão e Eva antes do pecado (cujos corações eram, portanto, imaculados, como o coração de Maria, a cheia de graça mencionada em Lc 1, 28), todas as nossas justiças têm manchas aos olhos de Deus. Logo, as suas ações eram mais valorosas, absolutamente falando, para os fins da consolação e da alegria que vêm de Deus, do que as nossas. Isto, é claro, antes da queda.
O maior valor relativo das nossas boas ações.
Bom, há um sentido em que nossas ações podem ser consideradas mais valorosas aos olhos de Deus do que as dos nossos primeiros pais antes da queda: o sentido relativo, ou proporcional, mencionado no item 02, b, acima. De fato, depois da queda, nossa natureza ficou empobrecida, desordenada, maculada. Assim, realizar mesmo um pequeno ato movido pelo verdadeiro amor a Deus, pela graça dele, demanda um esforço e uma virtude tremenda, em comparação com aquela demandada dos nossos primeiros pais. É como se eles fossem milionários doadores de fortunas ao templo, e nós, em nossa miséria, apenas pobres viúvas com nada mais do que duas moedinhas para doar. Neste sentido, relativamente ao que somos e temos, nossos atos podem eventualmente representar uma doação proporcionalmente maior do que a deles. É que eles tinham os corações puros e ordenados, e nós, mesmo quando batizados, experimentamos em nós as marcas da desordem do pecado original, que torna a obediência e a submissão ao amor muito mais penosos, em nós.
3. Encerrando.
Veremos, no próximo texto, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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