1. Introdução.

Qual o valor das nossas ações perante Deus? Num movimento que parece de humildade, mas, na verdade, é de ruptura, nós, seres humanos de hoje, tendemos a minimizar o valor de nossas ações perante Deus, atribuindo somente à graça que possamos fazer algo de realmente bom, belo ou valoroso no mundo. Mas este rompimento entre a graça e a vontade humana pareceria muito estranha para Tomás: a graça não “faz” nada, ela não é uma entidade que se apodera de nós e causa coisas boas no mundo por nosso meio, mas sem nossa participação. A graça pressupõe e eleva a natureza, diria Tomás. Assim, aquilo de bom que podemos fazer com a ajuda da graça (por exemplo, a contrição que leva a uma confissão bem-feita, a recepção de sacramentos, a adesão à fé até o martírio) são verdadeiramente boas ações do ser humano que as pratica, mesmo quando sabemos que são o fruto da graça em nós.

É claro que podemos fazer algumas coisas boas, mesmo fora da graça; um ser humano que, digamos, recupera uma área degradada, resgata um animal ferido, planta uma árvore frutífera que saciará a fome de alguém daqui a muitos anos, certamente faz coisas naturalmente boas, mesmo se estiver fora do âmbito da fé ou mesmo morto para a graça por força, por exemplo, de um pecado mortal do qual não se arrependeu. Mas não é deste tipo de “bondade da ação” que estamos falando aqui: estamos falando das nossas ações que têm valor sobrenatural, não apenas natural. Plantar uma árvore, tratar bem os empregados, pagar corretamente os impostos, cumprir as leis estatais, tudo isto é bom, mas não necessariamente é sobrenaturalmente bom. Para ter valor sobrenatural, é preciso que a nossa atuação livre e consciente seja fruto da nossa vontade elevada pela graça.

Estudemos, agora, este belo debate sobre o valor das nossas ações, elevadas pela graça, perante Deus, em comparação com o valor das ações de nossos primeiros pais, no Paraíso.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial é a de que as ações dos nossos primeiros pais, no paraíso, tinham menos valor aos olhos de Deus do que as ações que, hoje, nós, os justificados por Jesus, podemos fazer com o auxílio da graça santificante. Para nós, agradar a Deus seria mais trabalhoso, mais custoso, e a graça que recebemos foi adquirida com o valor infinito do sacrifício redentor de Jesus. Assim, para esta hipótese, nossas ações que revelam santidade seriam mais valiosas, aos olhos de Deus, do que as de Adão e Eva, cuja natureza foi criada em ordem e já provida da graça. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor parte da ideia de que, dada a infinita misericórdia de Deus, a graça é dada mais abundantemente a quem mais precisa dela. Nós, os degredados filhos de Eva, nascidos já com a marca do pecado original, precisamos da graça de modo muito mais abundante do que nossos primeiros pais, que eram imaculados, ou seja, não traziam em si as marcas do pecado original. Ora, se é a graça que faz com que nossas ações tenham valor sobrenatural, então a graça, sendo mais abundante em nós do que era nos nossos primeiros pais, deve tornar nossas boas ações muito mais meritórias aos olhos de Deus do que eram as ações dos nossos primeiros pais, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Quanto mais uma boa ação decorre da luta e vence dificuldades, mais valor sobrenatural ela adquire aos olhos de Deus. Isto é afirmado pela própria Bíblia, que, em 2 Timóteo 2, 5, ensina: “nenhum competidor ganha sua coroa, se não tiver lutado conforme as regras”. Também a filosofia confirma esta ideia, como se vê em Aristóteles, que, na Ética a Nicômaco, ensina que “a virtude tem ver com prazeres e dores”. Ora, certamente fazer o bem, neste mundo decaído após o pecado, envolve muito mais luta e dificuldade do que no paraíso. Assim, nossas ações são muito mais valorosas para Deus do que as de nossos primeiros pais, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor cita Pedro Lombardo, cujo Livro das Sentenças era a grande referência teológica, nesta época. Ali, este autor ensina que o ser humano no paraíso, ao resistir à tentação, não ganharia nenhum merecimento aos olhos de Deus; mas, hoje, resistir à tentação é uma ação sobrenaturalmente meritória. Logo, as boas ações do ser humano de hoje têm mais valor aos olhos de Deus do que aquelas dos nossos primeiros pais, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Como sabemos, depois de colecionar os argumentos iniciais que estão no mesmo sentido da hipótese inicial, o artigo sempre traz um argumento que se opõe a ela, para estabelecer o debate. Aqui, o argumento lembra simplesmente que nós, seres humanos de hoje, vivemos num mundo decaído, como consequência do pecado dos nossos primeiros pais. Ora, se as nossas boas ações, hoje, fossem mais valorosas aos olhos de Deus do que as deles, isto significa que a queda teria sido vantajosa para nós, em comparação com eles, o que não faz o menor sentido. Logo, nossas boas ações não são mais meritórias para Deus do que aquelas dos nossos primeiros pais, conclui o argumento.

3. Conclusão.

Todo este debate parece ser muito estranho para nós, hoje; falar em mérito nosso, mérito das nossas boas ações perante Deus, é algo que nos causa estranheza: como poderíamos nós querer reivindicar méritos ante o próprio Deus?

Tendemos, hoje, a ter uma visão pessimista do ser humano após a queda. Ou seja, imaginamos que a nossa natureza, frente a Deus, foi irremediavelmente destituída de qualquer valor, e já não podemos agir bem; no máximo, podemos agir corretamente, do ponto de vista legal ou social, mas qualquer valor que possamos ter aos olhos de Deus vem apenas da misericórdia dele, que enxerga apenas o valor da graça que Jesus conquistou para nós e que não nos eleva, mas apenas nos recobre e esconde nossa miséria dos olhos de Deus. Isto não é humildade, ao contrário, é um grande orgulho, porque desvincula a fé, por um lado, e o nosso testemunho de vida, por outro. Se nada do que fazemos tem valor sobrenatural, mesmo se formos elevados pela graça, então no fundo Deus não se importa com os assuntos humanos.

Mas ele se importa. Então não podemos dissociar a nossa atuação, por um lado, do amor que Deus tem por nós, por outro. Somos nós que agimos, mesmo quando elevados pela graça. E a nossa ação, se estiver em contradição com a graça, faz com que a percamos, e já não tenhamos a própria graça em nós. O que fazemos é o testemunho mais forte de que de fato amamos a Deus, com a graça e pela graça, mas também livremente: nossa natureza não se opõe à graça, mas colabora com ela. É isso que Jesus quer dizer quando fala: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7, 21).

Não há dúvida, portanto, de que, auxiliados pela graça, podemos realmente realizar ações valorosas aos olhos de Deus. Veremos mais sobre isto no próximo texto.