1. Para encerrar.
Vimos, nos outros textos, que as virtudes são aquelas disposições estáveis que aperfeiçoam nossas capacidades naturais, tornando-as capazes de atuar com perfeição. Todo ser humano tem, por exemplo, a capacidade de tocar um instrumento musical; mas certamente o estudo da teoria musical e a prática com o instrumento geram no músico uma disposição adequada para executar com perfeição uma determinada peça musical, por exemplo, no piano. Isto não significa, porém, que ele seja capaz, por exemplo, de executar a mesma peça num violão, haja vista que ele nunca treinou a execução deste instrumento. Ele tem, portanto, a virtude de um pianista, mas não a virtude de um violonista.
De modo análogo, nossas capacidades naturais precisam do aperfeiçoamento da virtude para operar com perfeição: aquele que nunca se exercitou na moderação pode se transformar num guloso, ou seja, em alguém sem modos à mesa, como sabem aqueles que convivem com pessoas que não receberam a educação alimentar adequada.
Vimos também que a aquisição de virtudes não é um adestramento: um grande pianista pode possuir a capacidade de executar uma peça complexa, digamos, de Mozart num piano, mas, mesmo assim, pode escolher propositalmente executá-la mal, executá-la erradamente, para fins didáticos, ou seja, para mostrar a um aluno como seria feio que a peça fosse mal-executada. Neste caso, porém, teríamos certeza de que os erros cometidos não fora acidentais, mas propositais: um grande virtuose no piano não comete erros acidentais em peças que domina.
De modo análogo, o fato de que Adão e Eva tivessem as virtudes, e a nossa insistência nisso, deve ser lido como um indício de que a queda não foi acidental, não foi inadvertida, nem sequer foi por algum tipo de ingenuidade ou inexperiência: foi uma escolha deliberada de quem tinha pleno conhecimento e pleno autodomínio na virtude para evitá-la, se quisesse. É por isso que a queda implica culpa.
Estudemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor propõe que o fim de algumas virtudes é o de moderar certas inclinações movidas por estímulos que desencadeiam paixões, e portanto desencadeiam exageros, excessos, nas respectivas inclinações. Mas não havia exageros e excessos no paraíso. Logo, essas virtudes seriam desnecessárias ali, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Para alguém que é provido da virtude da temperança, ou mesmo da virtude da fortaleza, essa virtude existe mesmo quando o sujeito nunca tenha, efetivamente, que reprimir descontroles apaixonados em suas inclinações. Por exemplo, um soldado que nunca teve um episódio de covardia perante o perigo, que precisou vencer com a virtude da fortaleza, nem por isso deixa de ser um soldado valente e virtuoso. Assim, o fato de que a vida no paraíso fosse de tal modo sensata e equilibrada, que não houvesse a necessidade de vencer, por exemplo, inclinações à gula, à lascívia ou à covardia, não significa que as virtudes que moderam os apetites não estivessem presentes, mesmo sem que precisassem efetivamente ser utilizadas, conclui Tomás. Diríamos, ademais, que a vida dos nossos primeiros pais no paraíso podia ser tão equilibrada e sensata, justamente porque as virtudes eram conaturais neles.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento vei numa linha semelhante. Se algumas virtudes existem por causa de algumas más paixões que podem nos atacar, como a virtude da mansidão existe porque a ira às vezes nos ataca, ou o medo precisa ser vencido com fortaleza, então essas virtudes não chegariam a se desenvolver no paraíso, ali onde não existiam más paixões como a ira e o medo, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não podemos pensar que todas as paixões podem ser más em si mesmas. As paixões são más quando orientadas ao mal, mas podem ser boas quando corretamente orientadas. Por exemplo, a tristeza ou o medo podem desorientar o sujeito, mas podem também ser seguros avisos de que ele deve se afastar do mal. Assim, o medo de desagradar a Deus, a ira contra o maligno, são paixões ordenadas, e portanto poderiam existir no paraíso. Ou seja, aqueles estados de sentimentos ou paixões provocadas pela constatação do mal no outro, ou pela possibilidade de perder o bem, seriam compatíveis com a vida no paraíso, para nossos primeiros pais. Portanto, as virtudes que buscam o equilíbrio dessas paixões (como a coragem para enfrentar o mal, ou a esperança de conseguir a vitória eterna) podiam existir em nossos primeiros pais, tanto como hábitos, como efetivamente se transformando em atos.
Mas aquelas virtudes que pressupõem o mal em si mesmo, como a misericórdia (que pressupõe comiserar-se com a miséria alheia, situação inexistente no paraíso) ou a contrição e a penitência, relativa à dor por haver pecado, não poderiam existir ali em ato, mas apenas como hábitos, disposições que não chegariam a se tornar efetivas por falta de oportunidade.
Mas aquelas virtudes que moderam paixões que não são, em si, más, como o apetite ou o desejo sexual, poderiam existir em ato no paraíso. A temperança, por exemplo, pode moderar prazeres e alegrias, não somente dores e desprazeres. Ora, parece evidente que mesmo os prazeres e alegrias, no paraíso, deveriam ser equilibrados, de modo a não desviar o ser humano da sua ordenação pela razão. De modo semelhante, a audácia e o destemor, no paraíso, deveriam também ser moderadas pela virtude da fortaleza, já que audácia e destemor sem fortaleza poderiam facilmente desordenar-se e transformar-se em temeridade e exposição ao perigo.
Portanto, ainda que não houvesse a necessidade de que determinadas virtudes chegassem a se tornar efetivas, como aquelas que dizem respeito ao enfrentamento do medo, da miséria ou da dor (realidades que não existiam no paraíso), certamente as virtudes que lidam com os prazeres, a alegria ou a audácia (que efetivamente existiam no paraíso) eram, certamente, utilizadas, de modo a manter a ordenação interna dos nossos primeiros pais, conclui Tomás.
O terceiro argumento objetor.
Aquele que é virtuoso tem a contrição pelo pecado, o que se evidencia pela presença da virtude da penitência, que leva a assumir a culpa, pedir perdão, aceitar as penas e reparar os danos pelos pecados cometidos. Ora, não havia pecado no paraíso. Logo, esta virtude não poderia estar presente. Do mesmo modo, não havia, ali, nenhuma miséria, e portanto não poderia estar presente, em nossos primeiros pais, a virtude da misericórdia, que é a dor e a compaixão pela miséria alheia. Assim, Adão e Eva não podiam ter todas as virtudes, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás considera que este argumento objetor já foi suficientemente respondido: essas virtudes existiam como disposições, como hábitos, mas não como atos, já que, de fato, não havia pecado nem miséria sobre as quais a penitência ou a misericórdia pudessem atuar.
O quarto argumento objetor.
A perseverança é uma virtude. Se Adão e Eva tiveram todas as virtudes, então necessariamente deveriam possuir também a perseverança. Mas eles caíram, ou seja, pecaram em vez de perseverar no bem. Logo, não tinham a virtude da perseverança e, em consequência, não se pode dizer que eles possuíssem todas as virtudes, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Há dois sentidos para a noção de “perseverança”.
No primeiro sentido, a própria perseverança é uma virtude: é a virtude que capacita para a prática continuada e firme do bem. Esta virtude Adão e Eva tinham. Eram capazes disso.
No segundo sentido, a palavra “perseverança” significa a própria decisão de continuar no bem, com firmeza, exercitando as todas as virtudes e evitando o pecado. Neste sentido, podemos dizer que nossos primeiros pais, embora tivessem a virtude da perseverança como um hábito, escolheram livremente não perseverar no bem. Não foram perseverantes, não por falta da virtude, mas por escolha livre e informada.
O quinto argumento objetor.
O quinto argumento objetor lembra que a fé é uma virtude. Que nos faz conhecer e confiar naquilo que não nos é visível no estado atual de nossa vida. Mas no paraíso o próprio Deus caminhava no jardim e falava com nossos primeiros pais face a face. Assim, eles não precisavam de fé, porque nada lhes era velado. Portanto, eles não tinham todas as virtudes, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Na resposta sintetizadora, que examinamos no texto anterior, Tomás já nos explicou que, quando foram criados no Jardim do Éden, Adão e Eva, embora tivessem uma relação muito próxima com Deus, não possuíam ainda a visão beatífica, isto é, não viam Deus face a face; assim, exercitavam de fato as virtudes da fé e da esperança, pelas quais caminhavam para entrar um dia na glória – se não tivessem caído antes. E, realmente, o próprio fato de que tivessem caído atesta que ainda não estavam no estado definitivo da glória, da visão de Deus face a face, do qual é impossível cair. Mas Tomás não quer voltar a este debate: ele considera que o argumento já está suficientemente respondido.
3. Conclusão.
A perseverança é uma virtude. Mas também é uma situação de fato: pode-se perseverar ou não, tendo-se a virtude da perseverança. Esta é a marca do livre arbítrio, mistério do amor de Deus por nós. Ele nos dá seu amor, mas este amor só pode ser recebido e acolhido livremente. Adão e Eva não o acolheram.
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