1. Voltando ao assunto.

As virtudes morais são aqueles hábitos ou disposições que permitem às nossas potências realizar seu ato com facilidade e perfeição, como nos ensina Aristóteles no Livro 2 da Ética a Nicômaco, mais especialmente no capítulo 6 daquele Livro (1106a 10-11). Em nós, desenvolvem-se por um processo de educação, de desenvolvimento, de seguimento, enfim, pela experiência de seguir na vida, a partir da constatação de que a nossa vida é esse belo caminhar da incompletude à plenitude humana; embora a plenitude permaneça sempre no horizonte para onde se deve sempre avançar.

Mas nossos primeiros pais, no paraíso, não estavam numa vida de aperfeiçoamento. Tinham saído das mãos de Deus, diretamente, por criação, e Deus não cria nada imperfeito. Dispunham de tudo o que era necessário à sua subsistência, no paraíso; ali, não tinham a missão de crescer, porque já eram plenos; mas tinham a missão de amar. Caíram. Mas não porque alguma coisa lhes faltasse. Nem sequer as virtudes que, para nós, são conquistadas: para eles era um dom. Podiam exercitá-las ou não (porque a virtude não é como o adestramento animal; a virtude não retira a liberdade, apenas a aperfeiçoa e viabiliza).

Acompanhemos agora a resposta sintetizadora de Tomás a este belo debate sobre as virtudes de Adão e Eva no Paraíso.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

As virtudes no paraíso.

Não foi a falta de virtudes que nos fez cair. No estado de inocência, nossos primeiros pais tinham todas as virtudes necessárias a uma vida moral ordenada, diz Tomás. De fato, como já vimos em discussões anteriores, o estado original de inocência não era um estado de imaturidade e ingenuidade, mas um estado de perfeita ordenação humana: não faltavam os conhecimentos, nem as virtudes, nem aquilo que era necessário ao atendimento às necessidades. E as coisas eram assim porque não havia curiosidade desordenada, nem inclinação desordenada, nem necessidade desordenada.

Como já vimos, no estado de inocência original, o ser humano estava perfeitamente ordenado a Deus, em estado de amizade com ele. Sua razão estava, portanto, em ordem, porque submetida a Deus. Com a razão em estado de ordem, ele podia organizar também todos os aspectos de sua humanidade: vontades, desejos, inclinações, afetos, paixões, necessidades, tudo isto estava submetido à razão, que estava submetida a Deus.

Virtudes éticas e dianoéticas.

Portanto, ele dispunha das virtudes chamadas dianoéticas, quer dizer, as virtudes relacionadas ao conhecimento, à ciência daquilo que precisava saber. Adão era um sábio, não um sabichão.

Mas há também aquela dimensão das virtudes que consiste em ordenar as inclinações da vontade e dos afetos sensoriais à racionalidade, que chamamos de virtudes propriamente éticas ou morais. O fato de que o estado original de inocência fosse um estado de ordenação interna da pessoa leva-nos a afirmar que eles tinham, ali, todas virtudes necessárias para viver essa ordem. Mas nem todas as virtudes eram efetivamente exercitadas, ou seja, nem todas eram requeridas na prática, pelo simples fato de que o paraíso, em que viviam, era também, em si mesmo, um lugar ordenado – era o “jardim em que o próprio Deus passeava”, para usar a linguagem bíblica que descreve essa realidade. Assim, naquela situação, nem todas as virtudes, que hoje nos são necessárias num mundo decaído, seriam exercidas de modo prático. Mas como as virtudes são hábitos (que são aquelas disposições intermediárias entre a potência e o ato), elas podem ser possuídas sem serem efetivamente utilizadas – como no caso daquele grande pianista que está, por exemplo, dormindo ou almoçando.

Virtudes em hábito e em ato.

Assim, há virtudes que, no paraíso, existiam como hábito e como ato, porque não envolvem nenhuma imperfeição, nem no estado do seu possuidor, nem no seu ambiente. É o caso da caridade, que nos leva a olhar o mundo e o outro a partir da perspectiva do amor de Deus, e da justiça, que nos leva a dar a cada um o que é seu. Estas virtudes estavam em nossos primeiros pais, e eram efetivamente atuadas, mesmo antes da queda.

Há virtudes que envolvem uma certa incompletude no seu sujeito, mas não necessariamente alguma imperfeição no seu entorno. Os exemplos são as virtudes da e da esperança, que envolvem o fato de que, enquanto ainda caminhavam neste mundo, e antes de sua opção fundamental e final por Deus, Adão e Eva ainda não tinham a visão beatífica. Assim, também eles caminhavam na esperança, pela . Essas duas virtudes eram, portanto, não somente possuídas como hábitos, mas também efetivamente exercidas, em ato, por eles.

Mas há outras virtudes que existem em razão da presença do pecado, do mal mesmo, da desordem, no mundo. Pensemos, por exemplo, na contrição, que implica sofrer pelo pecado cometido. Ser penitente é uma virtude; saber reconhecer a própria culpa, pedir perdão, reparar as consequências, sofrer as penas. Mas no paraíso não havia pecado e culpa (ainda).

Também a virtude da misericórdia, que envolve sentir compaixão por alguém que está caído na miséria (tanto a miséria material quanto a moral). Mas no paraíso não havia ninguém na miséria, logo a misericórdia seria uma virtude destinada a permanecer sempre em potência, ali.

Isto significa que nossos primeiros pais seriam capazes, no paraíso, de sentir misericórdia, se vissem alguém na miséria.

A contradição das virtudes potenciais diante da desordem pela queda.

Tomás cita Aristóteles, que no Livro IV da Ética a Nicômaco, explica que o a vergonha é uma virtude peculiar: ela existe na pessoa virtuosa, que seria capaz de se envergonhar, se cometesse alguma coisa torpe. Mas, sendo virtuoso, dificilmente chegará a exercitar essa virtude, porque terá a prudência de não praticar torpezas. Isso se aplica, analogicamente, a determinadas virtudes que nossos pais tinham, no estado de inocência original.

Mas há, aqui, uma aporia: para que essas virtudes existissem habitualmente, o ser humano precisaria estar em ordem. Portanto, o exercício delas implicaria que eles tivessem caído no pecado, porque somente haveria culpa e miséria após o pecado.

Mas quando se cai no pecado, a ordem é rompida; portanto, as virtudes também já não existem como hábitos, porque o pecado induz a bagunça interior, e isso elimina a condição de virtuoso. Isso explica que, logo após o pecado, Adão e Eva, em vez de sentir a contrição e exercitar a penitência, tenham entrado num jogo de desculpar-se, de justificar-se e acusar o outro pela própria culpa, o que não é uma atitude virtuosa. É o que a Bíblia descreve em Gn 3, 12-13: Adão culpa Eva, Eva culpa a serpente; nenhum deles se arrepende, nenhum deles pede perdão. A queda destrói a própria ordem original da virtude.

3. Encerrando.

É preciso compreender bem as virtudes: elas não são algum tipo de adestramento para tornar as pessoas dóceis, mansinhas, escravizadas pelas boas maneiras e pelas convenções. Não. Elas são a aquisição de disposições que possibilitam o bom direcionamento das nossas capacidades à perfeição. Por isso, uma criança adestrada para tocar uma determinada peça musical ao piano não possui propriamente a virtude do músico, mas apenas o condicionamento para tocar aquilo a que foi adestrada. Um pianista virtuoso tem a liberdade para brincar com seu próprio talento, imprimir sua marca pessoal na interpretação da música, até errar de propósito para fazer graça para o auditório ou simplesmente se recusar a tocar. Mas ele faz isso sempre voluntariamente, porque está capacitado para tocar com perfeição e facilidade aquilo que é capacitado para tocar.

Usando, pois, essa analogia entre o músico virtuoso e as virtudes de Adão e Eva, diríamos que as virtudes morais que nossos primeiros pais possuíam não os impediriam de pecar se eles assim o quisessem. Mas, se pecassem – como pecaram – isso decorreria de sua vontade deliberada, não de alguma deficiência de autocontrole ou de consciência.