1. De volta.

O ideal do ser humano não é de impassibilidade. É necessário ter sentimentos, envolver-se emocionalmente na vida, e a virtude consiste justamente em fazer com alegria aquilo que a razão reconhece como bom. Essa ideia de que as condutas têm mais valor quando são feitas contra as nossas inclinações e tendências naturais deve ser vista com muito cuidado: pode ser uma grande vitória, para alguém que ainda não formou suas virtudes, fazer o bem contra suas inclinações. Mas esse não é o objetivo: o objetivo é fazer o bem de todo coração e com todas as suas afeições, ou, como diz o salmo 84 (83), 3b: meu coração e minha carne exultam no Deus vivo. Isto é a chamada conaturalidade no bem: Aristóteles, na Ética a Nicômaco, ensina que, uma vez que a dor e o prazer sensíveis são as maiores fontes de engano ético, não é de pouca importância que saibamos sentir prazer no bem e desprazer no mal. Nesse sentido, a apatia, ou seja, o estado de insensibilidade, de impassividade da alma perante a interpelação que as coisas nos fazem, pode não ser um bom auxílio para a nossa perfeição. Ao tempo que as paixões, bem ordenadas, o são. Não há razão, pois, para achar que seria vantajoso ao ser humano um estado de perfeita apatia, em comparação com um estado de emoções, afetos e paixões retamente ordenadas para o bem. Neste sentido, devemos defender que, se nossos primeiros pais viviam a ordem em seu ser, eles deveriam ter as paixões da alma, mas sempre muito bem ordenadas no sentido do bem. Seria muito mais perfeito, por exemplo, que Adão amasse Eva de coração, com todo o seu afeto e seus sentimentos e vice-versa, do que se apenas olhassem um para o outro e pensassem: é racional que eu tenha uma relação conjugal com esta pessoa por quem nada sinto, uma vez que precisamos multiplicar a espécie humana.

Examinemos, agora, as respostas do próprio Tomás ao debate proposto.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

O que são as chamadas “paixões da alma”? São aquelas respostas que nossa alma dá àquilo que nos interpela por meio de nossos sentidos, e percebemos como bom ou mau. Paixão vem de “patere”, ser atingido por alguma coisa, receber a ação de alguma coisa em nós. Assim, quando nossa esfera da sensibilidade (nossa “alma sensorial”, para usar a terminologia técnica) reage a algum estímulo externo que é percebido e julgado por ela, provoca em nós essas paixões da alma a que nos referimos. Por exemplo, quando nos deparamos com um cão bravio e sentimos medo, ou nos deparamos com uma bela fruta madura e sentimos desejo de comê-la. Num caso, o objeto da percepção é reconhecido como um mal a evitar, e no segundo, como um bem a perseguir, no plano da sensibilidade. Os objetos que são reconhecidos como maus despertam em nós sentimentos (paixões) como o temor e o ódio. Os objetos reconhecidos como bons, apetecíveis, despertam sentimentos (paixões) como o amor (desejo) ou o prazer.

Será que haveria, no paraíso, algo que nossos primeiros pais poderiam reconhecer como mau, perigoso ou assustador? Não poderia existir, ou aquilo não seria um paraíso. Então não havia a possibilidade, para eles, de sentir algo como o medo, o ódio, a repulsa ou o nojo. Tampouco poderiam existir sentimentos relativos a necessidades não satisfeitas, como algum sentimento de cobiça ou de desejo ardente, diz Tomás. E ele lembra que o próprio Santo Agostinho, na Cidade de Deus, explica que não havia necessidades não atendidas, no Paraíso.

Mas havia a possibilidade de outro tipo de emoções, como, por exemplo, a alegria por um carinho, ou o amor por alguém, ou a boa expectativa da espera de um fruto que amadurece, ou de um filho por nascer, Tudo isso poderia ser sentido nos corações de nossos primeiros pais, no paraíso.

Mas de modo diferente do que nós sentimos, quando os mesmos sentimentos possam ocorrer em nós. De fato, em nós, muitas vezes a alegre espera vem misturada com ansiedade e aflição, com o receio de que algo possa não transcorrer bem. Mesmo o amor ou a alegria pelo carinho pode mesclar-se com o temor da perda, ou com a possessividade ou com a desordem sensual.

Em nós, diz Tomás, os sentimentos, as emoções, em suma, as paixões da alma, não estão completamente ordenadas pela razão. Algumas vezes as emoções nos cegam, como ocorre nos sentimentos de ciúme ou de posse sexual que levam à violência, de outras vezes eles são provocadas em conformidade com a própria razão, quando, por exemplo, os esposos se amam com profunda afeição, embora talvez percebam a passagem do tempo que apaga, de certo modo, o vigor da juventude. Mas essa relação entre os sentimentos, emoções, paixões, por um lado, e a razão, por outro, em nós, após a queda, é acidental: um pode interferir no outro, mas não há uma perfeita hierarquia entre as duas coisas.

Nos nossos primeiros pais, as paixões estavam perfeitamente ordenadas, na alma, e sempre obedeciam à razão, de tal modo que somente surgiam de modo adequado a ela. Mas eles as tinham. Não eram insensíveis, nem imperturbáveis ou impassíveis. Ao contrário, eram dotados de uma sensibilidade muito bela, adequada e rica.

3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Colocados os princípios pelos quais o debate pode ser equacionado, passamos a examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento objetor afirma que as paixões da alma, ou seja, essas emoções e sentimentos que são causados em nós pelos estímulos externos, provocam uma rebeldia da nossa carne contra nosso espírito, como as Escrituras ressaltam várias vezes. Mas no paraíso não poderia haver conflito entre a carne e o espírito, em nossos primeiros pais. Então eles não tinham essas paixões, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Somente em nós, que vivemos uma vida que expressa uma natureza desordenada pela queda no pecado, é que as paixões podem provocar uma divisão interna em nós; como aqueles maus sentimentos de cobiça, de desejos luxuriosos ou de gula. Mas em nossos primeiros pais, no paraíso, antes da queda, as paixões da alma davam-se em perfeita correspondência com a razão, de tal modo, por exemplo, que o prazer de comer correspondia ao limite da saciedade, ou a alegria da posse envolvia a justiça perfeita quanto ao respeito às coisas alheias, para dar alguns exemplos. Assim, o fato de que podiam sentir emoções não os levava a nenhum conflito interno, muito menos a desordens irracionais.

O segundo argumento objetor.

Na constituição humana, a alma é um elemento mais nobre que o corpo, porque é a nossa alma espiritual que nos faz ser animais racionais, enquanto o corpo é um elemento que compartilhamos com todos os outros seres. Ora, nos nossos primeiros pais, o corpo era invulnerável a interpelações externas: nada os podia ferir ou machucar. Portanto, se a alma é ainda mais nobre, com mais razão ela deveria ser impassível, com relação a paixões provocadas por estímulos externos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O corpo humano, no paraíso, era de fato invulnerável a agressões, mas não era insensível quanto ao mundo ao redor. Podia usufruir, por exemplo, de uma bela paisagem, do prazer de uma brisa, do aroma de uma flor. Não era, portanto, impassível, no sentido de inalcançável por estímulos sensíveis. Neste sentido, aqueles estímulos que desorganizam a felicidade, como, por exemplo, um frio congelante ou um calor que provocasse queimaduras, não o podiam atingir. De modo análogo, a alma humana não era impassível quanto às paixões adequadas à razão, mas apenas, como vimos na resposta sintetizadora, àquelas que poderiam desorganizar sua integridade pessoal ordenada.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor lembra que, na pessoa virtuosa, as paixões e emoções são reprimidas pela virtude, isto é, a razão domina plenamente sobre elas e as refreia. Ora, se no paraíso a virtude moral era plena, então simplesmente não haveria paixões na alma, porque o perfeito domínio da razão as eliminaria completamente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não é verdade que o desenvolvimento da virtude implica a eliminação da sensibilidade, das emoções, da paixão. É falsa a ideia de que o ser humano perfeitamente virtuoso seria um ser humano sem emoções, apático, imune às paixões da alma. Ser virtuoso não é ser reprimido, mas é justamente o contrário: ser livre, do ponto de vista da liberdade de qualidade, da liberdade de alcançar o bem, frente aos estímulos que recebe. Nada escraviza o virtuoso, de tudo ele pode apreciar, apetecer e gozar sem se deixar dominar, mas dominando a si mesmo pela razão.

4. Concluindo.

Não há nenhuma apatia no paraíso. Ao contrário, há o perfeito desfrute – também sensorial – da vida e das coisas. O ser humano perfeitamente virtuoso seria capaz de gozar das mais belas paixões, sentimentos e emoções. É fácil notar isto: alguém que não foi, por exemplo, educado para as artes, não é capaz de contemplar com prazer uma obra de arte sofisticada, mas sente prazer apenas pela apreciação de uma arte grosseira e rude.

Portanto, se nossos primeiros pais eram pessoas perfeitamente virtuosas, então eles eram pessoas capazes de sentir e emocionar-se com aquilo que se deve, do modo que se deve, como diz Tomás, citando Aristóteles (Ética a Nicômaco, Livro III, capítulo 12, 1119b15-20): o ser humano equilibrado apetece as coisas que deve, da maneira e na ocasião devidas.