1. Introdução.
A ideia fundamental de conceber nos primeiros humanos como seres racionais e virtuosos significa conceber que não foi a falta de informações nem a falta de virtudes humanas, nem mesmo a falta da graça divina, que nos levou a cair no pecado, como espécie mesmo. Como diz o famoso poema de 1 Coríntios 13, ainda que tivéssemos todo o conhecimento, todas as virtudes e todas as conquistas, que fôssemos famosos, ricos, benemerentes, perspicazes, engajados, ainda assim nossa falta foi a rejeição do amor. Mesmo cultos, ricos, saciados, famosos, poderosos, virtuosos, religiosos, ainda assim rejeitamos, em algum momento, o Amor, que é o próprio Deus. Eis a queda.
Portanto, retratar nossos primeiros pais significa, no fundo, tentar localizar o projeto de Deus para nós, e tentar identificar qual dimensão nossa optou contra ele.
Neste ponto, cabe investigar a vida emocional dos nossos primeiros pais, ou seja, daqueles seres humanos que representam, por assim dizer, o ápice do plano de Deus para nós. E isto que, hoje, chamamos de “vida emocional”, de “lidar com os sentimentos”, Tomás chamava de “paixões da alma”. O modo pelo qual reagimos, em nosso coração, aos estímulos exteriores, agradáveis ou desagradáveis, e os sentimentos e emoções que provocam em nós – e principalmente de que modo reagimos a isto.
Sabemos que as paixões da alma podem nos levar a atitudes irracionais, a agir de modo menos humano. Podem mesmo suprimir, em alguns casos, a própria responsabilidade humana, em situações extremas. Em estado de necessidade, podemos reagir de modo descontrolado, como ocorre em situações de desastres naturais ou de guerra. Mas certamente o paraíso não tinha nem desastres naturais, nem guerras. Então, aparentemente, nossos primeiros pais não estariam sujeitos a esse tipo de descontrole.
Por outro lado, parte da ética (pensemos nos estoicos e mesmo em certas correntes orientalistas) acreditava (e acredita) que as emoções e sentimentos da alma, ou seja, as paixões, são sempre más, e que o ser humano deve perseguir o ideal da apatia, isto é, da perfeita frieza e afastamento, para garantir sua postura ética. Somente o ser humano imperturbável seria perfeito eticamente. O ser humano ideal, perfeitamente racional, seria como o Dr. Spock da série de TV Jornada nas Estrelas: frio, imperturbável, de tal modo a ser pura racionalidade.
A ética Kantiana, que é uma ética do puro dever, também tende a acreditar que a verdadeira perfeição do ser humano estaria em agir pela convicção da razão, principalmente sem ou contra as inclinações sensíveis da nossa alma. Coisas como a inclinação natural à felicidade (considerada como verdadeiro hedonismo) ou a repulsa natural ao mal seriam verdadeiros obstáculos à verdadeira ética.
Mas para Tomás as coisas não são assim. As nossas emoções, os nossos sentimentos, ou seja, as paixões da alma, são parte natural e indispensável do ser humano; devem, no entanto, ajudar nossa perfeição, nossa integração pessoal, e não feri-la. Em suma, como diz o Catecismo da Igreja Católica, no § 1768, “as paixões são moralmente boas quando contribuem para uma ação boa, e más, no caso contrário”. Trata-se de perceber que o ideal não é a eliminação da nossa sensibilidade, de nossas emoções, mas a sua integração, de tal modo a caminhar com elas para aquilo que a razão percebe como bem. Ou, como diz o Catecismo em seguida, no § 1775, “a perfeição do bem moral consiste em que o homem não seja movido para o bem só pela vontade, mas também pelo seu ‘coração’”.
A moderna psicologia reconhece que o ser humano desprovido de sensibilidade, de emoções adequadas, pode se transformar num psicopata, ou seja, em alguém capaz de fazer sofrer por ser incapaz de sofrer. A ciência contemporânea confirma, portanto, a intuição de Tomás, que é a intuição da Igreja.
Mas estamos nos alongando. Voltemos ao artigo de Tomás.
2. A hipótese controvertida inicial.
Dentro dessa linha de que a pura racionalidade se dá na completa ausência de paixões, sentimentos, emoções, deveríamos imaginar, então, que aqueles seres humanos plenos, completos, adequados ao projeto inicial de Deus, deveriam ser plenamente racionais, frios mesmo, impassíveis, frente às interpelações do mundo; seriam pessoas de coração imperturbável. E, portanto, a hipótese inicial, para provocar o debate, proporá que nossos primeiros pais, antes da queda, e quando estavam vivendo sua vida íntegra no paraíso, não possuíam paixões da alma. Há três argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
É por causa das paixões, das emoções, ou seja, dos sentimentos fortes que as coisas provocam em nós, que nós somos levados aos desejos desordenados, que colocam nosso corpo, nossos sentidos, nossas necessidades animais, acima da nossa racionalidade, ou seja, os desejos carnais acima da nossa orientação espiritual. Isso é desordem, e não havia desordem nos nossos primeiros pais, afirma o argumento. Logo, nossos primeiros pais não eram tocados por paixões da alma, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
A estrutura humana dos nossos primeiros pais estava em ordem. Assim, é claro que aquilo que é racional, que é espiritual, é, no ser humano, mais nobre do que aquilo que é simplesmente corporal, animal, instintivo.
Mas o corpo biológico dos nossos primeiros pais era forte, bem constituído, verdadeiramente invulnerável à dor, à decadência, à doença e à morte. Pode-se dizer, portanto, que seu corpo era verdadeiramente impassível, no sentido de que não podia ser abalado pelas influências exteriores.
Mas se a alma dos primeiros pais era superior ao corpo, e se o corpo era impassível, ou seja, não podia ser abalado pelas influências exteriores, então temos que concluir que o seu coração, ou seja, a sua alma, também não poderia ser tomada por sentimentos e emoções em resposta a estímulos exteriores; ou seja, sua alma não poderia estar sujeita a paixões, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
No ser humano virtuoso, equilibrado, sujeito pleno de si, as paixões e emoções são refreadas, reprimidas mesmo, para que se estabeleça a ordem da razão, que é a ordem da perfeição humana imperturbável. Ora, nossos primeiros pais eram pessoas perfeitamente ordenadas, do ponto de vista da razão e das virtudes morais. Logo, não podiam ser perturbados por sentimentos e emoções causadas por estímulos exteriores, isto é, por paixões da alma, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Quando trata dos nossos primeiros pais na sua obra “Cidade de Deus”, Santo Agostinho diz que “ali reinava o imperturbável amor de Deus, os cônjuges viviam entre si em familiaridade sincera e fiel e desse amor fluía grande gozo, sem faltar objeto de amor digno de desfrute”, e prossegue descrevendo o estado de boa relação entre nossos primeiros pais e Deus, e entre eles e o ambiente que os cercava; eles não eram indiferentes a essas coisas, mas eram estimulados por elas e desenvolviam ali uma relação de atração, amor, usufruto e satisfação.
Ora, essa relação envolve, portanto, as emoções e os sentimentos deles, e portanto são respostas aos estímulos que recebiam, respostas que os envolviam como seres também capazes de sentimentos e emoções. Logo, nossos primeiros pais também apresentavam paixões da alma, conclui o argumento.
3. Encerrando.
Este artigo é muito interessante e rico, e envolve a ideia de que a plenitude humana não exclui sentimentos e emoções, ou seja, as reações do nosso coração aos estímulos externos, mas os envolve e integra adequadamente. Mas não nos precipitemos. No próximo texto, veremos as próprias respostas de Tomás aos problemas aqui colocados.
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