1. De volta ao debate.
Já ouvimos inúmeras vezes o relato bíblico da queda. E ele não nos toca, não nos choca. Pelo menos não como deveria. É como que uma história distante, talvez mítica, uma forma literária de narrar a marca da desordem que há em nós, da origem da bagunça que reina no mundo. Mas ela deveria nos chocar, nos tocar; talvez ainda mais quando estudamos estes debates de Tomás. De fato, se pensarmos nos primeiros seres humanos como pessoas íntegras, dotadas de inteligência perfeita e dos conhecimentos fundamentais sobre a criação – e dos conhecimentos necessários sobre a vida espiritual, além de dotados de toda a graça necessária para se relacionar com Deus e atingir a santidade, é de se perguntar: como caíram?
Caíram em matéria grave, a partir de uma deliberação informada, e portanto são culpados. E, em vez de nos transmitir aquela natureza ordenada, aquela graça santificante, transmitiram uma natureza em desordem, desprovida da graça.
Mas Deus não nos abandonou. E essa é outra história. Por enquanto, vamos voltar ao debate sobre a graça que nos foi concedida, no momento mesmo da criação, junto com essa natureza ordenada de que nossos pais foram dotados.
Examinemos agora os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles.
2. Os argumentos objetores e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita a Primeira Carta aos Coríntios (15, 45): “O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o segundo Adão é espírito vivificante”. Ora, a palavra “vivente” remete à condição animal de Adão: ele era um ser vivo. Mas Jesus era vivificante, isto é, era pleno da graça do Espírito Santo. Logo, é próprio apenas de Cristo ter sido feito em plena graça; para os primeiros pais, a criação foi apenas como natureza animal, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O que está sendo discutido por São Paulo, aqui, não é a vida do corpo animal. Tanto nossos primeiros pais, como todos nós, e o próprio Jesus Cristo, somos dotados de corpos animais; mas Jesus ressuscitado era corporal, não de uma corporeidade animal, mas já de uma corporeidade espiritual, indestrutível, imortal, não sujeita aos limites do tempo e do espaço, nem às necessidades biológicas, mas reinando sobre eles. Portanto, não se pode concluir, desta passagem, que São Paulo esteja negando que Adão e Eva tivessem em si a graça desde o primeiro momento da criação, mas apenas que seus corpos eram corpos biológicos, diferentemente de Cristo ressuscitado, que tem corpo espiritual. Trata-se de uma afirmação sobre a natureza dos corpos, e não sobre a presença da graça.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento diz que Santo Agostinho afirma expressamente, debatendo questões controvertidas da Bíblia, que Adão não possuiu o Espírito Santo”. Ora, estar em graça envolve justamente possuir o Espirito Santo. Logo, Adão e Eva não foram criados em graça, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Na mesma obra, o próprio Santo Agostinho esclarece que não se pode negar, de nenhum modo, que o Espírito Santo estivesse com nossos primeiros pais, como estavam em outros justos da Antiga Aliança; mas não estavam com eles da mesma maneira que está hoje, pela Nova Aliança em Cristo, nos fiéis que, pertencendo à Igreja, são templos do Espírito Santo e são admitidos à herança eterna dos justos imediatamente após a morte, por dom de Jesus. Neste sentido, a posse do Espírito Santo pelos filhos da Igreja, de modo ordinário, é de um modo diverso daquela relação com o Espírito Santo nos que viveram antes de Jesus, mas isto não nega a presença especial da graça em nossos primeiros pais.
O terceiro argumento objetor.
Ainda citando Santo Agostinho, o argumento lembra que, segundo o que ensina este Santo Padre da Igreja, tratando especificamente sobre a graça, Deus ordenou as coisas de uma maneira tal que a liberdade natural das criaturas inteligentes, frente a sua opção pelo bem, deve preceder ao auxílio da graça e do juízo da justiça divina. Ora, se as coisas são assim, então é evidente que Deus criou suas criaturas inteligentes (anjos e seres humanos) primeiro apenas providos de seu livre arbítrio natural, e só mais tarde concedeu-lhes o auxílio da graça, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Do texto de Santo Agostinho não se pode concluir que a natureza veio antes da graça num sentido de ter vindo antes no tempo; o livre arbítrio natural determina que a liberdade da natureza é mais fundamental que a graça para a decisão que toda criatura deve fazer, confrontado com Deus. O livre arbítrio é responsável pela liberdade, e a graça não o anula, mas o eleva, capacitando-o a fazer essa escolha por Deus. De fato, para aquilo que envolve apenas as escolhas naturais, como o amor-próprio ou a relação com as outras criaturas, o livre arbítrio tem poder suficiente. E é por isso que toda criatura inteligente se depara, primeiro, com o uso de seu livre arbítrio nas relações naturais, antes de ser confrontado com a necessidade de, auxiliado pela graça, optar pela amizade com Deus ou, rejeitando-a, perder-se. Trata-se, portanto, de uma relação de precedência lógica entre o livre arbítrio natural e a graça, e não uma relação de procedência cronológica.
O quarto argumento objetor.
Sabe-se que, na Idade Média, o Livro das Sentenças de Pedro Lombardo era a grande referência teológica, e o próprio Tomás estudou por ele e o comentou. Ora, nessa obra, está dito que o ser humano recebeu, na criação, o auxílio suficiente para manter-se, mas não para progredir”. Mas a única maneira de progredir, de ser agradável a Deus, de ter mérito perante ele, é ter a graça. Logo, os primeiros pais não eram dotados de graça, quando foram criados, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É sempre muito interessante ver a maneira com que Tomás lida com as antigas autoridades teológicas que respeita: ele nunca as desmente simplesmente, mas sempre procura encontrar, ali, alguma maneira de explicar suas afirmações problemáticas, com as quais não concorda, sem desmerecê-los ou simplesmente desprezá-los.
Quanto, portanto, ao texto de Pedro Lombardo que o argumento cita, Tomás diz que Pedro Lombardo não está afirmando isso como uma verdade, mas apenas raciocinando condicionalmente com aqueles que defendiam que os primeiros pais foram criados sem a graça, mas sem necessariamente concordar com eles.
Também se pode entender a citação do Mestre das Sentenças num sentido de ordem lógica, não cronológica, entre a natureza e a graça: apenas pelos méritos da sua natureza criada os primeiros pais não poderiam progredir na sua vida espiritual; eles precisariam da graça, em cuja colaboração deveriam sempre crescer, para conseguir esse progresso. Portanto, se compreendermos bem a afirmação de Pedro Lombardo, veremos que ela não contradiz necessariamente a ideia de que os primeiros pais foram criados e já providos com a graça, conclui Tomás.
O quinto argumento objetor.
Qualquer relação íntima, de amor, pressupõe a aceitação livre das partes envolvidas. Ora, receber a graça é como entrar numa relação matrimonial entre nossa alma e Deus. Mas entrar numa relação de amor, análoga à relação matrimonial, pressupõe que a parte possa dar seu próprio consentimento a esta relação. Mas isso só poderia acontecer se o ser humano já existisse no momento em que recebesse a graça, de tal modo que ele pudesse expressamente consentir em recebê-la. Se o ser humano já foi criado com a graça, então ele não teve oportunidade de dar essa anuência. Ou seja, o ser humano não pode já ter sido criado no estado de graça, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A vontade não se submete ao tempo; ou seja, o ser humano poderia ter sido criado e imediatamente anuir com a graça, de forma simultânea. Esta é a resposta de Tomás. Poderíamos acrescentar que a graça foi concedida justamente para que o ser humano fosse elevado à possibilidade de dar um sim a Deus a partir da sua natureza ordenada e elevada pela graça – coisa que nossos primeiros pais foram chamados a fazer e falharam miseravelmente, infelizmente.
O sexto argumento objetor.
O sexto e último argumento objetor lembra que a graça, que é justamente a elevação da natureza para a amizade com Deus, está mais perto da glória (que é o gozo eterno da amizade de Deus pelos bem-aventurados) do que da simples natureza humana. Ora, se a glória só existe depois da graça (embora sejam tão próximas), é correto dizer que a graça só pode existir depois que já existe a simples natureza humana. Portanto, o ser humano não pode ter sido criado já na graça, conclui o argumento.
A resposta da Tomás.
A graça nos é dada para que possamos chegar à glória. Sem a graça, não podemos agir sobrenaturalmente, conquistando a justiça perante Deus e merecendo, por seu dom, a glória. Ou seja, a glória decorre da graça, e por isso a graça precisa vir primeiro, para que alcancemos a glória.
Mas a natureza humana não é pressuposto de merecimento para a graça. A graça é uma liberalidade, um dom de Deus, desproporcional à natureza. Por isso, diferentemente da relação de condicionamento que existe entre a graça e a glória, não é preciso que a natureza venha antes da graça, para que esta venha: nada impede que venham a ocorrer simultaneamente, já que uma não é condição para a outra, como a graça é para a glória.
3. Concluindo.
A própria ordem na natureza é um fruto da graça, diz Tomás. É certo que o ser humano, mesmo desprovido da graça santificante que vem por Jesus, pode chegar a intuir que há uma ordem na natureza humana, e que essa ordem implica a perfectibilidade da nossa pessoa, de tal modo que mesmo Aristóteles, um grego que viveu muito antes de Jesus, descreveu exatamente isto na sua “Ética”. Mas sem a graça, que ordena o ser humano para Deus – que é o próprio sentido do ser humano – torna-se impossível ordenar internamente o ser humano, submetendo seus instintos e sua sensibilidade à sua inteligência. Tomás vai levar exatamente este ponto até seu esclarecimento profundo, na parte II, primeira seção, da Suma.
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