1. Retomando.
Amor e liberdade. O amor pressupõe a liberdade, é aquilo que dá sentido à própria liberdade. De fato, sem a possibilidade de renúncia ao amor, o amor jamais poderia existir, porque não há amor imposto, não há amor obrigatório, não há amor automático. Mas, por outro lado, rejeitar o amor implica perder o rumo, desistir da liberdade, viver no reino da imposição, da obrigação, da derrota e do domínio.
É por isso que a liberdade pressupõe o livre arbítrio, mas não se consuma nele. Quando o livre arbítrio é exercido contra o amor, a liberdade não pode ser alcançada. O ser humano perde o rumo. Eis o valor que Deus dá ao amor: corre o risco de que o ser humano se perca, para que o amor, uma vez alcançado, seja realmente livre. De fato, o amor não pode ser imposto; mas tampouco pode ser exigido. No entanto, compromete quem diz sim a ele.
Para isso, Deus cria o ser humano com tudo aquilo que é pressuposto de uma eleição livre para o amor. Inclusive dotado, pela graça, da capacidade de estabelecer uma relação de amor com Deus. E faz sentido que a capacidade de relacionar-se com Deus seja uma graça, e não parte da própria natureza humana: para que a natureza humana fosse capaz, em si mesma, de entrar em relação com Deus, seria necessário que ela não fosse criatural, mas divina. Neste caso, o ser humano seria, ele mesmo, Deus. O que não acontece: somos criaturas. Mas Deus nos eleva, pela graça, à capacidade de amá-lo de verdade. Se rejeitamos essa possibilidade, perdemos a amizade de Deus. E foi isto que aconteceu.
Como vimos no último texto, a hipótese aqui é a de que Deus nos criou apenas como natureza humana, mas não nos deu, desde o princípio, a graça de conhecê-lo e amá-lo. Vimos os seis argumentos objetores neste sentido, bem como o argumento sed contra no sentido contrário.
Examinemos a resposta sintetizadora do próprio Tomás, sobre esta importante questão.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A graça existiu no paraíso.
Não existe dúvida, entre os grandes teólogos e Padres da Igreja, de que o ser humano gozou da graça no Paraíso. Alguns Deles defendiam, no entanto, que o homem foi criado como natureza íntegra, ou seja, desprovido ainda da graça. Apenas mais tarde a graça teria sido conferida aos nossos primeiros pais. Segundo esses teólogos, a graça foi conferida depois da criação, mas antes da queda.
Muitos outros grandes teólogos afirmam, no entanto, que o ser humano foi criado já no estado de graça, além de ter sido criado com a natureza íntegra.
A ordem interna perdida com a queda.
Ora, diz Tomás, se todos concordam que o ser humano foi criado com integridade de natureza, e isto é confirmado pela Bíblia: o Livro do Eclesiastes (7, 29) diz: “Somente descobri isto: Deus fez o homem reto, mas é ele quem procura os extravios”. Então a conclusão lógica tem de ser aquela de que a graça esteve presente desde o instante mesmo da nossa criação: a integridade, a retidão, a plenitude da virtude exige a plenitude da graça! E Tomás provará, em seguida, essa afirmação.
Os primeiros pais foram criados em Deus em ordem. Deus não cria nada desordenado. E a ordem, no ser humano, consiste no seguinte:
1) o corpo tem sua consistência e suas características, que são legítimas. Mas, para estar em ordem, deve ficar subordinado à alma, quer dizer, à reta estrutura humana.
2) Os apetites sensíveis têm sua legitimidade, seu significado, que não podem ser desconsiderados. Mas, para serem ordenados, devem ser racionalmente ordenados. Então ficam subordinados à inteligência.
3) A inteligência humana, quer dizer, a nossa razão, tem sua importância, e deve reinar sobre nós. Mas, para reinar com legitimidade, deve ficar subordinada a Deus.
Assim, a ordem é: Deus reina sobre nossa inteligência, nossa inteligência reina sobre nossa sensibilidade, nossa espiritualidade reina sobre nossa animalidade corporal.
Nessa hierarquia, é a primeira conexão (a aceitação do reinado de Deus) que determina a ordem na segunda (a razão sobre a sensibilidade) e na terceira (a espiritualidade sobre a corporeidade). Enquanto o ser humano permaneceu sob o reinado de Deus, de fato permaneceu em ordem, e suas capacidades superiores reinaram sobre as inferiores.
Ora, depois da queda, o ser humano continuou com sua natureza, isto é, continuou sendo um ser de corpo e alma, de sensibilidade e razão. A natureza não foi destruída pela queda. A queda, no entanto, rompeu a amizade do ser humano com Deus, ou seja, fez perder a graça.
Vimos isso com relação à queda dos anjos: quando caíram, perderam a graça, mas sua natureza de anjos permaneceu, com toda a sua agudeza intelectual, seus poderes sobre a matéria, sua indestrutibilidade natural, enfim, tudo aquilo que era natural nos anjos não foi perdido com a queda deles, como nos ensina o Pseudo-Dionísio na obra sobre Os Divinos Nomes.
Nossa natureza humana, portanto, permaneceu. Ocorre que, depois da queda, ela já não está mais em ordem: o ser humano não reconhece mais o reinado de Deus sobre si, a sensibilidade muitas vezes se rebela contra a razão, os imperativos do corpo muitas vezes se sobrepõem aos da alma. A ordem foi perdida. Se a natureza permanece e a graça se perde, tudo aquilo que foi perdido com a queda pertence à ordem da graça, não à ordem da natureza.
A simultaneidade entre criação da natureza e concessão da graça.
Logo, a reta ordenação humana era fruto da graça, e não um atributo inerente à simples natureza. E, de fato, pela própria descrição que Santo Agostinho faz do resultado da queda, na obra Cidade de Deus, podemos enxergar essa natureza desordenada se mostrando na vida humana, como resultado da perda da graça: “tão logo se levou a efeito a transgressão do preceito, desamparados da graça de Deus, envergonharam-se da nudez de seus corpos (…). Sentiram, pois, novo movimento em sua carne desobediente, como castigo devido à sua desobediência”.
Portanto, se a ordem plena, íntegra, do ser humano, é fruto da graça, e se essa ordem existia desde o primeiro momento da criação, é forçoso deduzir que a graça esteve presente desde o primeiro momento da criação, gerando a ordem na natureza. Somente essa presença, simultânea com a própria criação da natureza, pode explicar a integridade original dos nossos primeiros pais, conclui Tomás.
3. Encerrando por enquanto.
Depois desta bela aula, que nos força a pensar em aspectos da nossa própria existência, examinaremos, no próximo texto, as respostas de Tomás aos muitos argumentos objetores iniciais.
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