1. Introdução.
Vimos, na última questão, que o ser humano que caiu não tinha problemas de falta de informação ou de falta de discernimento. Sendo ele o modelo da humanidade, seria de se esperar que sua inteligência fosse o padrão da inteligência humana bem formada, e que seu discernimento fosse o de um ser humano dotado de capacidade adequada de discernimento.
Agora passaremos a estudar a vontade desses primeiros pais, cientes de que a situação antes da queda não é uma situação a que possamos chegar por meio das ciências empíricas. O paraíso, no qual vivíamos antes da queda, está fechado e guardado contra nós, pelo menos para aqueles caminhos que não envolvem a fé em Nosso Senhor. Portanto, não parece boa ideia procurar o princípio por meio de doutrinas da evolução, ou mesmo de paleontologia ou biologias darwinistas. Elas podem nos levar ao começo da história após a queda, mas não ao princípio do qual caímos. Não caiamos neste erro de reduzir o teológico ao empírico. Quando a teologia fala do ser humano íntegro e pleno que existia antes da queda, não está ingenuamente falando de algum homo erectus ou australopiteco, mas de alguém que é capaz de representar a humanidade naquilo que ela tem de mais naturalmente perfeito, e apesar disso optou contra Deus.
Vontade e graça, complementares, não opostos.
Agora estudaremos aquilo que diz respeito à vontade de nossos primeiros pais. Suas tendências e inclinações racionais. E a primeira coisa que precisamos notar é que a relação com Deus é algo que faz parte da vontade natural do ser humano, isto é, todo ser humano, mesmo desprovido da graça, sente um apelo para buscar Deus. É exatamente isto que Santo Agostinho descreve no início de suas Confissões, quando nos diz: “fizeste-nos para vós, Senhor, e nosso coração não encontra repouso se não descansar em vós”.
Mas o fato de que há, em nossa vontade, um desiderium naturale de entrar em relação com Deus, esta relação mesma está além da nossa capacidade natural. O ser humano não pode chegar a Deus naturalmente. Somente Deus pode chegar a si mesmo, pode conhecer a si mesmo naturalmente, e nós não somos deuses. Ou seja, para que pudesse entrar em relação com Deus, seria preciso que o ser humano fosse criado em graça. E a graça, embora pressuponha a natureza, existe para elevá-la acima de suas próprias forças. Mas, por outro lado, a natureza foi criada com uma abertura própria para receber a graça; quando renuncia a ela, renuncia também à sua própria consumação, e remanesce incompleta, ferida.
A graça pressupõe a natureza.
Apenas Jesus, que era naturalmente homem e naturalmente Deus, poderia ter uma relação natural com Deus. Para todos os outros, ou seja, para nós tanto quanto para Adão e Eva ou para Nossa Senhora, a graça é necessária para isto. Ela pressupõe a natureza, que será elevada sem ser consumida ou destruída; a graça não exclui nem substitui a natureza. Sem uma vontade natural, não há nada que a graça possa aperfeiçoar.
É certo que alguns teólogos, notadamente não católicos, entendem que Adão e Eva podiam ver Deus naturalmente, e que, quando caíram, perderam essa capacidade (isto é, destruíram sua natureza). Assim, para estes, a graça não seria um complemento, um dom de elevação, mas uma verdadeira substituição de uma natureza destruída. Por isso, esses teólogos defendem que a natureza não é elevada nem redimida, mas é recoberta, como que ocultada pela graça, que salva sem consertar ou elevar a natureza. Não é essa a visão de Tomás. Se Adão e Eva pudessem ver Deus naturalmente, seriam naturalmente divinos, e não criaturas. A queda seria, então, a destruição daquilo que era a divindade na humanidade de Adão e Eva, e a graça seria a desconsideração da humanidade na santidade, conquistada para nós por Jesus, a despeito de continuarmos destruídos mesmo no céu.
É certo que isto tudo é muito profundo, e corresponde a debates estabelecidos depois do tempo de Tomás. Mas são pressupostos interessantes para que possamos entender a importância e a atualidade do debate que vamos acompanhar agora.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida, aqui, para provocar o debate, é a de que os nossos primeiros pais não foram criados no estado de graça. Teria uma natureza íntegra, plena, mas não mais do que isso. Há seis argumentos objetores iniciais, para tentar fundamentar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, 15, 45, faz uma distinção entre Adão e Cristo (que chama de “o segundo Adão”), dizendo: “O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o segundo Adão é espírito vivificante”. Ora, vivente é aquele que tem apenas a natureza de animal racional. Vivificante é aquele que concede a graça. Se a Bíblia diz que Adão era apenas “vivente”, enquanto Jesus era “vivificante”, isto quer dizer que Adão foi criado apenas com a natureza humana, mas sem a graça, que só viria à humanidade por Jesus, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Santo Agostinho, debatendo questões bíblicas, afirmou expressamente que Adão não possuiu o Espírito Santo. Ora, possuir o Espírito Santo é próprio de quem está na graça. Se Adão não o possuiu, então não tinha em si a graça, isto é, não foi criado com a plenitude da graça, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor começa logo citanto Santo Agostinho, que afirma, na sua obra sobre a graça, que, nos planos de Deus para as suas criaturas inteligentes (seres humanos e anjos), o livre arbítrio seria uma dimensão mais fundamental do que a graça; primeiro, as criaturas inteligentes devem usar a liberdade natural; depois, usam a graça e, por fim, alcançam a justiça divina. Assim, Deus criou os anjos e os seres humanos, em primeiro lugar, sem a graça, mas apenas com o seu livre arbítrio natural, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Segundo Pedro Lombardo, autor do Livro das Sentenças e considerado a maior referência teológica nos tempos de Tomás, quando o ser humano foi criado, recebeu a ajuda necessária para permanecer tal como era, mas não para progredir. Ora, prossegue o argumento, quem está na graça pode progredir espiritualmente perante Deus, adquirindo méritos sobrenaturais, como os que ostentam os santos. Se os primeiros seres humanos não podiam ter esse progresso, então não estavam na graça, conclui o argumento.
O quinto argumento objetor.
A graça deve ser aceita pela criatura, em sua liberdade. Na verdade, ao receber a graça, estabelece-se uma verdadeira relação entre a criatura e Deus, que é como um matrimônio espiritual que os une num laço de amor. Essa relação não pode ser imposta, deve ser recebida e livremente acolhida pela criatura. Mas só pode receber e acolher, manifestando sua aceitação, aquela criatura que já existe. Ou seja, quando Deus faz o dom da graça, deve sempre fazê-lo a uma criatura que já está criada, e que possa acolhê-lo livremente. Assim, nossos primeiros pais não podem já ter sido criados com a graça, mas devem tê-la recebido num momento posterior ao da própria criação inicial, conclui o argumento.
O sexto argumento objetor.
Há três realidades em jogo na relação das criaturas inteligentes com Deus: a liberdade natural da vontade, que pode desejar Deus mas não pode alcançá-lo; a graça, que é o dom de Deus que permite à criatura se voltar para Deus e optar por ele, e finalmente a glória, que é a consumação, e que se manifesta pela vida eterna de beatitude no seio divino. Ora, a vontade natural, com seu livre arbítrio, está mais longe da graça do que a graça está da glória, já que a glória é a própria consumação da graça.
Ora, nos seres humanos, sabemos que a graça deve preceder a glória, porque só pode entrar na glória aquele que, tendo recebido a graça, deu-lhe acolhimento e aceitou o amor de Deus. Se a graça e a glória, que são tão próximas, não podem ser simultâneas, tampouco a natureza e a graça podem ser simultâneas, afirma o argumento; ou seja, é necessário que primeiro exista a vontade natural, depois a graça e depois a glória. Assim, os primeiros pais não podem ter sido já criados com a graça, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra lembra que as criaturas inteligentes têm uma relação similar com a graça; isto é, tanto os anjos como os seres humanos se relacionam com a graça de maneira análoga. Portanto, se investigarmos qual é a relação entre a vontade natural e a graça, nos anjos, teremos um indício valioso da mesma relação nos seres humanos.
Ora, quanto aos anjos, sabemos que foram criados já com a plenitude da graça; Santo Agostinho ensina de modo explícito, na obra “Cidade de Deus”, que, nos anjos, Deus estava, simultaneamente, formando sua natureza e enriquecendo-os com a graça. Logo, isto ocorreu também com os seres humanos: foram criados já com a plenitude da graça, conclui o argumento.
5. Encerrando.
A natureza e a graça, em nossos primeiros pais, relacionavam-se em harmonia, sem confusão, sem mistura, mas capacitando-os a entrar verdadeiramente em relação com Deus sem perderem a condição de criaturas. Em Jesus, diferentemente, há a plenitude da natureza humana e a plenitude da natureza divina. Jesus podia, apenas com as forças de sua natureza divina, relacionar-se plenamente com Deus. Nós somos elevados a essa relação por um dom de Deus que supera a nossa natureza, e que foi originalmente concedido a nossos primeiros pais e perdido por eles no pecado original. Somente Jesus veio para nos devolver a graça, sem nos eliminar a natureza.
Mas estamos nos adiantando. No próximo texto veremos a resposta do próprio Tomás.
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