1. Retomando.
A inteligência humana é diferente, em natureza, da inteligência do anjo. Embora seja uma faculdade espiritual de conhecimento, está necessariamente ligada ao corpo, e seu ato é inseparável dos atos corporais de exploração sensorial, organização de dados, formação de imagens e armazenamento de lembranças. O conhecimento intelectual do homem é sempre inteligência mediada pela razão, que, por seu turno, trabalha com o discurso a partir dos primeiros princípios e a exploração sensorial do mundo. Trata-se de uma inteligência imperfeita. Os anjos, por outro lado, conhecem diretamente, intuitivamente, tudo o que está em sua inteligência. Não raciocinam, não exploram, não concluem. Já sabem todos os antecedentes e consequentes de um pensamento. O pensamento humano, mesmo dos mais perfeitos dos seres humanos (pelo menos até Jesus), como foram nossos primeiros pais, é processual, limitado, condicionado.
É por isso que a queda de um anjo é irreversível; não há redenção para o anjo porque ele é capaz de intuir, num só e mesmo ato, todas as causas e consequências de sua decisão. Não assim com nossos primeiros pais: mesmo implicando plenamente seu ato de vontade, numa verdadeira rebelião espiritual dotado de pleno discernimento e plena vontade em matéria gravíssima, nossa inteligência é processual, discursiva, e apenas com dificuldade caminha dos princípios às conclusões remotas. E isto não decorre da queda: mesmo seres humanos íntegros e inocentes seriam assim. Graças a Deus por isso.
Examinemos agora os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
Na Primeira Carta a Timóteo, 2, 14, São Paulo diz que a mulher foi seduzida e tornou-se culpada de transgressão. Ora, se ela foi seduzida, então foi enganada pela serpente. E esse engano também abarcou Adão, que seguiu no mesmo caminho de Eva. Logo, nossos primeiros pais podiam se enganar, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Na verdade, a reação de nossos primeiros pais à tentação do maligno não decorreu de um engano, de um equívoco por parte deles, mas de uma deliberada adesão à tentação por causa de um orgulho anterior, a soberba que já havia em seus corações e os abriu à insídia do maligno. E Tomás cita Santo Agostinho, que no Comentário ao Gênesis expressamente afirma que nossos primeiros pais não teriam acreditado nas palavras da serpente, se não tivessem já em seu espírito o amor do seu próprio poder e uma presunção orgulhosa de si mesmos. Trata-se, pois, de pecado, não de equívoco.
O segundo argumento objetor.
No Livro das Sentenças, de Pedro Lombardo, que era a maior autoridade teológica na formação intelectual medieval, esse Mestre, especulando sobre o inusitado de que uma serpente começasse a conversar com uma mulher sem que esta ficasse aterrorizada, explica o fato dizendo que Eva acreditou que a serpente teria recebido de Deus o poder de falar. Mas isso era falso. Ora, então Eva se enganou. Logo, fica comprovado que nossos primeiros pais, antes da queda, podiam equivocar-se, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Difícil interpretar esta passagem bíblica; Tomás especula que, ainda que seja lida de modo literal, a passagem poderia ser explicada se imaginássemos que Eva acreditou estar diante de um fato miraculoso, não natural, o que não deixa de ser verdade; mas não é necessário, diz Tomás, seguir a autoridade do mestre Pedro Lombardo neste ponto, diz Tomás. É apenas uma opinião dele, quanto a essa passagem bíblica.
O terceiro argumento objetor.
Quando enxergamos duas coisas que estão em distâncias diferentes com relação a nós, a que está mais distante parece ser bem menor que a outra, mesmo se forem do mesmo tamanho. Trata-se de uma ilusão de ótica, induzida pela perspectiva do observador diante da tridimensionalidade do mundo.
Ora, já no tempo dos nossos primeiros pais as coisas também seriam assim; logo, as ilusões de ótica poderiam ocorrer mesmo naquela época, enganando nossos pais. Portanto, eles podiam se enganar, mesmo antes da queda, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Diante de uma situação que apresenta uma ilusão de ótica, ou uma ilusão sensorial de qualquer tipo, nós somos capazes de julgar a ilusão com a nossa inteligência, de modo a evitar o engano. Se vemos que duas coisas apresentam tamanhos diferentes, por exemplo, podemos procurar pontos de referência que nos indiquem a distância, de modo a não nos enganarmos quanto ao tamanho. Ora, no caso dos nossos primeiros pais, que tinham a inteligência íntegra, não seriam enganados por ilusões sensoriais, porque seriam sempre capazes de corrigir as informações sensoriais com sua inteligência, evitando o erro, conclui Tomás.
O quarto argumento objetor.
Quando estamos sonhando, as imagens em nossa mente nos parecem reais, e muitas vezes as tomamos por reais mesmo, até acordarmos. Ora, mesmo no paraíso, nossos primeiros pais passavam pela experiência de comer, realizar necessidades fisiológicas e dormir; portanto, deveriam sonhar. Logo, podiam ser enganados por suas próprias mentes, num sonho, o que prova que não eram imunes a erros e enganos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os atos humanos são aqueles atos eleitos pela vontade sob a guia da razão. O sonho, neste sentido, não é propriamente um ato humano, porque não é voluntário nem está submetido à razão. Logo, o que ocorre num sonho não é propriamente um engano, conclui Tomás.
O quinto argumento objetor.
Mesmo o conhecimento de nossos primeiros pais, embora pudesse representar a plenitude da possibilidade de conhecimento humano, tinha limites, como o desconhecimento dos futuros contingentes e dos pensamentos alheios. Logo, se outra pessoa lhes dissessem alguma coisa falsa sobre um desses assuntos, eles poderiam ser induzidos ao erro, por ignorância, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Há uma diferença entre acreditar que alguma coisa que alguém me diga sobre seus próprios pensamentos, ou sobre suas visões de futuro, podem chegar a ser verdade, dentro dos indícios e coerência verificadas. Isso não é se enganar, mas confiar, o que envolve o necessário discernimento quanto ao grau de incerteza envolvido.
Assim, se um velho trabalhador rural faz uma previsão de que pode vir chuva no dia seguinte, diante de determinados sinais naturais, acreditar que isto pode vir a ser verdade, mesmo se, depois, isto não acontecer, não é erro nem engano, mas confiança fundamentada na prudência, inclusive com a noção de que a previsão pode não ocorrer. Portanto, o argumento não comprova que eles podiam ser enganados quanto a estes aspectos.
3. Concluindo.
Muito interessante que sejamos levados a meditar sobre a queda, a partir da noção de que ela não decorreu de alguma imperfeição, ingenuidade, incompletude ou tolice, mas de uma situação em que mesmo o mais íntegro dos seres humanos agiu com torpeza.
As próximas questões aprofundarão este debate.
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