1. Retomando.
Como pudemos fazer isto? Como dois seres humanos imaculados, íntegros, inocentes, com uma inteligência plena e o perfeito controle de suas emoções e inclinações, puderam optar tão radicalmente contra Deus? Como puderam se enganar deste modo? Tudo isto será estudado ainda neste Tratado, mas não exatamente nesta questão 94. Por enquanto, trata-se de estabelecer se isto pode ter ocorrido por algum tipo de falha, de mal-entendido, de equívoco de avaliação, o que reduziria a culpa dos nossos pais; ou se isto se deu com pleno conhecimento e deliberação.
Será que nossos pais poderiam entender alguma coisa errada, poderiam tomar o falso por verdadeiro ou mesmo falhar na percepção ou avaliação da realidade? Veremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás sobre esse assunto.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Os sentidos da noção de “engano”.
Havia, diz Tomás, algumas pessoas que diziam que a noção de “engano” podia ter dois sentidos: 1) uma opinião precipitada, pela qual alguém concorda com alguma expressão falsa, mas sem chegar a realizar uma adesão mental, e 2) uma crença firme em alguma coisa falsa.
Essas mesmas pessoas diziam que, com relação àquilo de que tinha conhecimento, nossos primeiros pais não podiam se enganar de nenhum desses dois modos. Mas, com relação àquilo que não tinham verdadeiro conhecimento, como no caso dos futuros contingentes, eles poderiam se enganar, no primeiro sentido acima, isto é, assentindo superficialmente em algo que depois vem a se revelar falso. E isto podia acontecer, diziam eles, porque a adesão a esse tipo de equívoco, se não for imprudente ou negligente, não envolve culpa. Seria, por exemplo, aquela situação em que eles, pescando, se enganassem com a posição do peixe devido à refração da água.
O falso é o mal do intelecto.
Mas as coisas não podiam ser assim, diz Tomás. Ele lembra que o próprio Santo Agostinho ensinava, na Cidade de Deus, Livro XIV, capítulo 10, que, no estado de inocência original, o pecado era facilmente evitado, e, enquanto esse estado durou, não irrompia neles outro mal que os angustiasse.
Ora, o erro, ou seja, a adesão ao falso, é um mal para o intelecto, ainda que esse erro diga respeito a alguma situação contingente e sujeita a mudança, isto é, da qual eles não tivessem perfeito conhecimento. Mas, ainda assim, eles teriam discernimento para não se deixar levar pela eventual ignorância, assentir a ela como se fosse uma verdade, mesmo sem culpa, e deixar-se conduzir ao erro.
Isto não significa que eles fossem oniscientes. Não eram. Mas eram prudentes. De fato, eles tinham a integridade da perfeição humana, mas isto não significa que fossem dotados de corpos gloriosos ou de poderes extraordinários. Seu corpo, por exemplo, era íntegro e bom, mas não tinha, ainda, as qualidades do corpo espiritual, glorioso, que teriam na ressurreição se tivessem passado à glória sem pecado. Mas o fato de que não tinham um corpo espiritual não era um defeito. Era apenas um limite.
Do mesmo modo, seu intelecto não tinha aquele conhecimento próprio de Deus, como a visão do futuro contingente ou dos segredos dos corações alheios. Isto é um limite, não uma imperfeição. Mas eles tinham conhecimento até desses limites, e não adeririam a uma opinião falsa, ainda que por um engano não culpável.
Isto porque eles eram virtuosos, isto é, eles tinham o domínio racional das inclinações e tendências sensíveis, e por isso eram capazes de dominar impulsos e paixões, e de discernir retamente o modo prudente de agir em situações concretas, quando não dispunham das informações adequadas.
A inocência original implica uma reta ordenação da inteligência.
Eis, portanto, que nossos primeiros pais levavam uma vida em ordem: estavam submetidos a Deus, o que levava que, também neles, as forças inferiores, como os sentidos, a imaginação e a memória, estivessem submetidos à razão e não pudessem, de modo algum, atrapalhar o reto discernimento, o reto exercício da razão, na vida concreta.
Ora, prossegue Tomás, mesmo para nós, humanos que vivem após a queda, o intelecto não se engana quanto ao seu objeto próprio, que são os inteligíveis. Quando nós nos deparamos com as coisas inteligíveis, não nos enganamos a respeito delas. Tão logo eu perceba, por exemplo, que dois mais dois são quatro, essa informação torna-se como que “conatural” em mim, e errar essa conta inadvertidamente torna-se impossível. Não é, portanto, o nosso intelecto, em sua operação própria, que nos leva ao engano, mas as nossas capacidades inferiores, como os sentidos, a memória ou a imaginação. De fato, podemos sofrer ilusões sensoriais, mas jamais podemos sofrer ilusões puramente inteligíveis. A memória pode nos trair, nossa imaginação pode nos levar a tomar por verdade aquilo que é mero desejo. Mas nosso intelecto mesmo não pode se enganar quanto aos inteligíveis.
Em nós, seres humanos que vivem na situação de desordem causada pelo pecado original, essas capacidades inferiores, próprias de nossa condição animal, não estão em perfeita submissão à inteligência, mas estão em desordem, e podem levar a inteligência ao engano. A sede no deserto, por exemplo, pode levar a enxergar miragens. O desejo sexual pode levar a desconsiderar a ordem da dignidade sexual alheia, como a saudade intensa, pela memória de alguém ausente, pode levar-nos a acreditar que uma visão da pessoa amada num sonho é real. Não é à toa que uma santa como Santa Teresa De Ávila, dotada de muita familiaridade com Deus,
Mas nos nossos primeiros pais, não haveria a possibilidade desse engano: as capacidades inferiores jamais dominariam as superiores, levando a um julgamento equivocado. Neles, o intelecto sempre julgava corretamente os estímulos sensoriais, a memória e mesmo a imaginação. Por isso, nossos primeiros pais jamais se enganariam com alguma ilusão de ótica, ou com alguma falsa memória ou com alguma fantasia da imaginação, nem com algum desejo reprimido.
3. Encerrando.
Muito interessante descobrir que o pecado original não pode ter vindo de algum apetite sensível desordenado, como o desejo sexual mal contido, a fome ou mesmo a falta de prudência. Tem que ter nascido de uma vontade deliberada.
Veremos mais sobre isto no próximo texto.
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