1. Introdução.
A questão, aqui, é interessantíssima, e se relaciona com a responsabilidade do ser humano pela queda. A queda não pode ser imputada a uma ignorância, como não pode ser imputada a um simples engano, uma espécie de estelionato do Diabo contra nossa espécie. Sem dúvida, ele participou desse processo, tentando-nos, mas o pecado original foi cometido com pleno conhecimento e plena deliberação, em matéria grave, e no estado de graça, e por isso induziu a culpa. A culpa universal, que matou nossa vida espiritual com Deus.
No entanto, a culpa humana não é como a culpa dos anjos. O ser humano, mesmo o mais perfeito de nós, não tem o grau de conhecimento e discernimento que um anjo tem. Há sempre em nós a possibilidade de mudar de opinião, de mudar de ideia, porque o ser humano não sabe tudo. Não experimentou tudo. Somos redimíveis, mesmo em meio ao maior pecado. Graças a Deus que nos fez assim: livres, mas redimíveis. E que efetivamente veio, depois da queda, nos redimir.
Mas como foi possível a esses humanos, plenos de ciência, plenos de graça, intocados pelo pecado original, vivendo em amizade com Deus, caírem na tentação e pecar? Muitos filósofos, seguindo a linha platônica, imaginam que o pecado, o erro, a falta de virtude, é sempre uma falta de ciência. Se tivéssemos toda a ciência, jamais pecaríamos, pensam eles. De carto modo, muitas correntes reencarnacionistas hoje em dia também pensam isso: quanto mais nos instruímos intelectualmente, mais evoluídos somos, e menos erramos, também moralmente. Mas isto é um equívoco: se fosse assim, as universidades seriam lugares de virtudes morais, celeiros de santos, e não o são, ou, pelo menos, não o são necessariamente. O pecado, o desvio moral, são efeitos de uma vontade viciada, não de falta de informação intelectual. O pecado mortal requer, como pressuposto, o pleno conhecimento e a plena deliberação. Não são uma ausência de ciência, mas uma ausência da virtude moral, o que é bem diferente.
Há algo que é preciso ressaltar, também, antes de entrar propriamente no texto do artigo; Tomás era um santo, um magistral professor, mas também um homem de seu tempo. Por isso, veremos que ele imputa uma responsabilidade extraordinária a Eva no processo de pecado original, levado pela exegese de seu tempo. Hoje, não enxergamos assim. Ambos foram igualmente colhidos no processo de pecar. Adão não era um marido bobinho e manipulado por uma mulher leviana. Ambos eram seres humanos exemplares, igualmente gerados imaculados e plenos em perfeição intelectual. Ambos pecaram com a mesma profundidade.
Feitas estas observações, vamos ao exame deste importante artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é a de que os nossos primeiros pais, naquele estado inicial de inocência, antes da queda, poderiam cair em erro ou engano, atrapalhar-se, falhar sem culpa no processo de discernimento, acreditar numa falsidade como verdade por falta de informação, em suma, falhar sem culpa quanto a reconhecer a verdade. Quer dizer, a hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que nossos primeiros pais poderiam enganar-se, no julgamento daquilo com que se deparavam, mesmo no estado inicial de integridade. Há cinco argumentos no sentido dessa hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento.
O primeiro argumento cita um versículo paulino, em 1Tim 2, 14: a mulher foi enganada e caiu em transgressão. Ora, se ela foi enganada, seduzida, e o próprio Adão foi também levado por esse engano depois, então ambos falharam, por acreditar na mentira como verdade e julgar equivocadamente. Portanto, nossos primeiros pais podiam se atrapalhar em seu discernimento, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Segundo Pedro Abelardo, chamado, na Idade Média, de “Mestre das Sentenças” por ter escrito o Livro das Sentenças, que era o grande manual de formação teológica e referência de ortodoxia naquele tempo, Eva, ou seja, a mulher primordial, “não ficou horrorizada ao ver a serpente falar porque julgou que ela recebera esse poder extraordinariamente de Deus”. Mas isso era falso. Logo, ela fez um julgamento equivocado quanto a esse aspecto da realidade. E, portanto, nossos pais podiam se atrapalhar, mesmo antes da queda no pecado, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor lembra que nossos sentidos estão sujeitos a ilusões, como aquela ilusão de ótica que nos faz julgar que aquilo que está mais distante é menor, em tamanho, do que aquilo que está mais perto. Ora, esse equívoco de julgamento quanto ao tamanho das coisas, devido à ilusão de ótica relacionada à distância, também ocorria no paraíso, antes do pecado original. Portanto, mesmo lá, o ser humano poderia incorrer num equívoco de julgamento, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
No seu comentário ao Livro do Gênesis, Santo Agostinho, tratando da questão dos sonhos, expressamente diz que, nos sonhos, nossa mente fica convencida das visões que tem das coisas, como se estivesse vendo as próprias coisas. Ora, prossegue o argumento, no paraíso os seres humanos tinham as mesmas reações fisiológicas que nós: respiravam, comiam, dormiam e, portanto, também sonhavam. Logo, sua mente também se enganava, como nos sonhos, em que tomavam, ao menos momentaneamente, as visões imaginárias como reais, conclui o argumento.
O quinto argumento objetor.
Quando estudamos a inteligência dos nossos primeiros pais antes da queda, vimos que eles não eram capazes de ler as mentes alheias, conhecendo os pensamentos privados dos outros, nem eram capazes de conhecer as coisas futuras e contingentes, cujo acontecimento depende das interações acidentais e cujo conhecimento somente Deus possui.
Ora, portanto, eles poderiam ser enganados se alguém lhes dissesse falsidades sobre esses dois aspectos que estavam além do seu conhecimento. Portanto, os nossos primeiros pais poderiam ser levados a equívocos e falhas de avaliação, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Como sabemos, o argumento sed contra traz um pensamento de autoridade que se coloca contra a hipótese inicial e impede que a aceitemos pura e simplesmente. É aqui que o debate se instala de modo completo, com a tese e a antítese sendo colocadas, e se resolverá depois na resposta sintetizadora de Tomás.
No presente caso, a autoridade contrária é Santo Agostinho, que, na sua obra sobre o livre arbítrio, ensina que não está na natureza mesma do ser humano, assim como criada por Deus, a falha de tomar o falso por verdade, enganando-se; esta possibilidade de falhar é resultado da queda, e foi parte do castigo que o ser humano sofreu. Assim, o argumento conclui que, no estado de inocência original, os nossos primeiros pais não se enganavam, tomando o falso por verdadeiro por mero equívoco.
5. Encerrando.
O texto ficou longo. Mas os termos do debate estão postos. No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Santo Tomás.
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