Numa passagem muito curiosa do interessantíssimo livro “Humildade: Precisa-se”, em que critica a soberba do ser humano contemporâneo em razão do desenvolvimento tecnológico, o Padre Hugo de Azevedo nos ensina que “se Adão e Eva tivessem sido humildes e não tivessem pretendido ser como Deus, fazendo cair a Humanidade na extrema miséria, hoje vogaríamos por esses espaços afora com mais facilidade do que atravessamos a rua. Mas o pecado original atrasou a Humanidade em milhares de anos, e por isso olhamos para as galáxias como o boi para um palácio, chegando a interrogar-nos por que é que o Senhor fez tão grande o Universo” (pág. 11).
Eis aqui uma maneira de ver as coisas que é bem afinada com a de Tomás. De fato, antes da queda, nossos primeiros pais tinham não somente o intelecto agudo e penetrante, mas também dispunham de todo o conhecimento necessário para viver e compreender o universo, que deveriam transmitir aos descendentes, isto é, a nós. Foi justamente isto que vimos no texto anterior. A queda foi, portanto, um grande atraso em termos intelectuais. Em termos de virtudes morais também. Nem precisamos mencionar o prejuízo em termos de amizade com Deus.
Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que há três maneiras pelas quais uma pessoa pode conhecer: ou 1) adquire o conhecimento pelo esforço de aprendizagem, pelo exame das coisas; 2) Quando Deus já cria a pessoa com o conhecimento das coisas (conhecimento conatural) como no caso dos anjos; e 3) por conhecimento infuso, quando o próprio Deus infunde na mente algum conhecimento que aquela pessoa não obteve por esforço próprio.
Ora, nossos primeiros pais não tinham obtido ainda, empiricamente, todo o conhecimento que os seres humanos podem obter, pelo simples fato de que não tiveram tempo para isso. Por outro lado, não tinham conhecimento conatural, porque eram seres humanos, não anjos. E, por fim, se o conhecimento era infuso, não poderíamos dizer que era um conhecimento propriamente humano, porque não tinha a mesma natureza que o nosso conhecimento adquirido. Assim, os primeiros pais não tinham o conhecimento completo de todas as coisas, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Nossos primeiros pais tinham o conhecimento de todas as coisas, diz Tomás. E esse conhecimento não foi adquirido por seu próprio esforço, nem é algo que foi criado com eles, como no caso dos anjos. Trata-se, portanto, de conhecimento que Deus infundiu na sua mente, como aquele conhecimento que Deus infunde, às vezes, nos profetas, para que eles saibam de coisas que naturalmente não poderiam descobrir. Mas o fato de que esse conhecimento foi infundido por Deus não torna esse conhecimento artificial ou externo ao ser humano. Quando Jesus deu a visão ao cego de nascença, isso, de alguma maneira, foi uma visão infundida nele diretamente por Deus, mas nem por isso era uma visão artificial ou miraculosa, mas era uma visão perfeitamente natural. O processo de recuperação da visão, nesse caso, foi miraculoso, mas a visão recuperada era a visão natural.
O segundo argumento objetor.
É próprio dos seres da mesma espécie, diz o argumento, amadurecerem do mesmo modo e chegarem à própria perfeição pelo mesmo processo. Os exemplos seriam inúmeros: todas as borboletas passam pela metamorfose, todos os mamíferos passam por algum estágio em que são alimentados pela mãe, e assim por diante. Ora, é próprio dos seres humanos obter o conhecimento pelo esforço, pelo exame, pela abstração dos dados sensoriais, ao longo do tempo. Portanto, se os primeiros pais eram humanos, eles devem ter obtido seu conhecimento assim também, processualmente, e não por infusão divina. Logo, os primeiros pais não dispunham de todo o conhecimento humano, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Na verdade, como primeiros seres humanos, saídos diretamente das mãos de Deus, eles tinham características próprias, que não se repetem nos outros seres humanos; poderíamos citar, por exemplo, o fato de não terem passado por algum processo de nascimento; tampouco dispunham de pais e de avós. Dentre essas características peculiares, está a plenitude da ciência, pelos motivos que já examinamos neste e nos textos anteriores a este.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor afirma que a razão de nascermos, de sermos entes de corpo e alma, é para que possamos progredir no conhecimento e no mérito. Ora, não há dúvida de que nossos primeiros pais precisavam de progresso na virtude moral, na aquisição de méritos perante Deus – tanto que, expostos a um desafio tentador, caíram. Ora, prossegue o argumento, isto significa igualmente que eles precisavam progredir no conhecimento, do mesmo modo que precisavam progredir no mérito. Portanto, eles não detinham o conhecimento pleno da criação, mas precisavam adquiri-lo ainda, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Nossos primeiros pais possuíam o intelecto pleno, ou seja, detinham de fato o conhecimento intelectual de todas as coisas que um ser humano pode vir a saber sobre a natureza. Seu conhecimento natural não poderia crescer em extensão. Mas, como uma criança superdotada, ele não tinha a experiência das coisas. Assim, imaginemos um cientista que tivesse estudado tudo o que há para saber sobre um país remoto que ele nunca visitou pessoalmente: a visita poderia dar a ele a experiência que lhe faltava, de modo a integrar aquele conhecimento intelectual que já tinha. Alguém que estudou ou aprendeu tudo o que há para saber sobre um morango, inclusive quanto às suas características e propriedades, mas nunca teve um morango nas mãos nem jamais comeu um morango, certamente ganhará muito em experimentar um morango por si mesmo. Certamente comer o morango não faz com que ele tenha mais ciência sobre o morango, mas, com certeza, dá a ele a experiência que lhe faltava sobre essa fruta.
No entanto, quanto ao conhecimento das coisas de Deus, o conhecimento daquilo que é sobrenatural, que é a própria amizade com Deus, que faz merecer a Vida Eterna na glória, eles ainda precisariam caminhar muito. Eles tinham, por certo, aquele conhecimento necessário à própria salvação, e foram criados em estado de graça. Mas conhecer o próprio Deus, ou seja, entrar em amizade com ele, supera a natureza humana, e é sempre um dom, mesmo no Paraíso. Assim, poderiam crescer em extensão, quanto a esse conhecimento.
É fácil perceber que as coisas são assim: de fato, os primeiros pais, Adão e Eva, seriam o modelo e os mestres da humanidade, quanto ao conhecimento: precisariam, então, deter o conhecimento natural universal, para nos transmitir. Mas, mesmo sendo princípio e fonte de conhecimento para todos os outros seres humanos, eles não poderiam ser princípio e fonte de mérito salvífico para o resto da humanidade: cada ser humano deve conquistar, por si mesmo, méritos perante Deus, movido pela graça. De fato, eles poderiam perder a graça santificante e fechar o caminho do céu para todos os seus descendentes, como de fato aconteceu. Mas não poderiam abrir o caminho do céu e nos forçar a entrar lá, porque a amizade com Deus é pessoal.
3. Conclusão.
Adão e Eva tinham a plenitude intelectual, mas não ainda a plenitude da glória.
De fato, se me permitem uma digressão, mesmo Jesus, ao nos conquistar de fato a graça da salvação, com seus méritos infinitos pelos quais seremos salvos, não nos retira a responsabilidade de viver em amizade com Deus, para chegar à glória: ele nos ensina que “nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7, 21).
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