- Retomando
Cada época tem seus próprios preconceitos, suas próprias distorções, e muitas vezes não se dá conta delas. O nosso tempo possui a distorção do cientificismo, que penetrou inclusive a vida eclesial e os debates teológicos, muitas vezes imperceptivelmente. De fato, no texto anterior, começávamos mencionando a questão do evolucionismo, e como tendemos a conciliar a leitura da Bíblia, especialmente do Gênesis, ao que a ciência descobriu sobre a evolução das espécies – e mesmo do Universo. Há um pressuposto oculto neste pensamento: o pressuposto de que o relato bíblico decorre na própria história, e que, portanto, a paleontologia seria capaz de desvendá-lo. Isto é falso.
Se o relato do princípio é verdadeiro, então qualquer ciência humana só é capaz de olhar em retrospecto, empiricamente, para um momento posterior à queda, que é o que nos é permitido enxergar. Não podemos projetar em Adão, por exemplo, as características dos hominídeos, a imperfeição dos primeiros homo sapiens; mas isto é muito comum de acontecer. Vimos recentemente que a descoberta de restos arqueológicos de humanídeos que migraram da África em tempos remotos, ou mesmo a busca pelas origens no DNA mitocondrial, levaram jornais e publicações científicas a veicular muitos artigos com alusões a Adão e Eva, como se fosse consensual que os primeiros pais seriam historicamente aqueles antepassados pouco evoluídos da nossa própria linhagem biológica.
Bom, de fato Adão e Eva descritos na Bíblia são perfeitamente humanos, integralmente humanos, e são princípios de nosso próprio existir. Mas não coincidem simplesmente com os primeiros pais biológicos que possam ser encontrados numa pesquisa empírica. Fica aqui o mistério, registrado nas Escrituras, de que o ser humano foi banido do Jardim do Éden, em cuja entrada foram colocados os Querubins e a chama da espada fulgurante (Gn 3, 24), que impedem não somente nossa entrada, mas até mesmo nossa investigação empírica. Isto é, o que quer que tenha ocorrido antes da queda, já não é acessível à nossa ciência empírica. É mistério.
Então vamos abrir o coração para a abordagem de Tomás. De fato, nossos primeiros pais, no Paraíso, poderiam ter características que, hoje, somente nos seriam acessíveis por meio da revelação, ou, ao menos, da especulação filosófica. E é este o caminho adotado por Tomás. Nós, hoje em dia, é que temos a ideia de que somos capazes de reconstruir os princípios a partir das descobertas da ciência. Não vamos deixar que este preconceito nos impeça de escutar Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Criação, modelo e princípio.
Tomás inicia logo com uma afirmação que bate de frente com nossos pressupostos evolucionistas. De fato, hoje em dia pensamos que as coisas imperfeitas precedem as perfeitas, e que aquilo que vem depois é sempre melhor do que aquilo que vem antes. Mas não é isso que a filosofia clássica ensina. Pela filosofia clássica, é preciso que aquilo que é perfeito, completo, sempre preceda aquilo que é apenas potencial, incompleto.
É fácil compreender isto. Imaginemos que uma criança vem nos mostrar um desenho que ela fez: uma tentativa de reproduzir, de modo infantil e desajeitado, a Mona Lisa, o famoso quadro de Da Vinci. Ora, apenas sabemos que aquele desenho tosco é uma tentativa de reprodução da Mona Lisa porque a Mona Lisa traz, de modo perfeito, completo, aquilo que, no desenho da criança, está registrado de modo imperfeito. É preciso, portanto, que aquilo que é modelo, que é padrão, seja completo, seja consumado, para que as cópias possam ser reconhecidas como cópias daquilo.
Assim se deu com a criação, como descrita nos relatos do Livro do Gênesis. Tudo o que saiu diretamente das mãos de Deus saiu completo, consumado, porque seria modelo de tudo o que existiria depois. Deus criou os princípios de tudo. É por isso que devemos ter muita atenção para ler o relato do Livro do Gênesis como um relato de princípio, para que ele não se confunda com um simples relato de início.
Adão e Eva, síntese da humanidade.
Assim, nossos primeiros pais eram o modelo da humanidade, não somente do ponto de vista biológico, mas também do ponto de vista cultural, científico, político, familiar e até religioso. Eles eram a síntese da humanidade, e deveriam transmitir essa síntese aos seus descendentes. Eis porque estavam aptos à reprodução biológica, mas também à reprodução cultural, científica, religiosa, enfim, a guiar e governar a humanidade em todos os aspectos daquilo que é a humanidade.
Ora, ninguém pode dar aquilo que não tem. Se Adão e Eva deveriam nos dar tudo isto, deveriam nos transmitir tudo isto, seria necessário que o tivessem. Então eles tinham não somente o conhecimento dos princípios, ou seja, aquele conhecimento que naturalmente pode ser alcançado de modo intuitivo (como o de que o todo é maior que cada uma de suas partes, ou ainda que algo não pode ser e não-ser ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto, ou mesmo que o bem deve ser feito e perseguido, e o mal, evitado, para citar alguns), mas todo aquele conhecimento que pode ser desdobrado a partir desses princípios. Em suma, tudo aquilo que representa a consumação da possibilidade de conhecimento sobre as causas e estruturas do real. Muito mais do que o conhecimento científico no sentido moderno (isto é, o conhecimento propriamente tecnológico, de domínio sobre a natureza), os primeiros pais detinham o conhecimento científico no sentido clássico do termo: o conhecimento da estrutura do real, em suas quatro causas e em sua estrutura fundamental. Não é que Adão e Eva fosse, por exemplo, capazes de construir um computador ou de programar uma rede de telefonia; eles não precisavam de domínio tecnológico sobre a natureza, simplesmente porque conheciam-na inteiramente e estavam perfeitamente em harmonia com ela. Seu conhecimento era de amor e cuidado, não de domínio e exploração.
O conhecimento preternatural e sobrenatural dos primeiros pais.
Mas a vida humana não se resume a cultura, economia, política, ciências empíricas. Para que fossem modelos e guias de toda a humanidade futura, também seria necessário que os primeiros pais tivesse o conhecimento integral das verdades necessárias à sua salvação e dos seus descendentes. Isto é, eles possuíam o conhecimento das verdades de fé necessárias à salvação: a opção por Deus, a necessidade de estar em graça, de viver pelo bem e de amar, de sua situação criatural e da dependência de Deus. Tudo aquilo que seria necessário saber para ordenar a vida à salvação era do conhecimento deles. Não para fins de curiosidade, mas para possibilitar a organização da via ao seu fim último, que é a glória de Deus.
O limite do conhecimento dos nossos primeiros pais.
O limite, pois, do conhecimento dos nossos primeiros pais era justamente o conhecimento daquilo que é contingente, desnecessário, mutável. Não fazia parte do conhecimento deles saber quantos grãos de areia há no mar, ou a leitura de pensamentos alheios ou mesmo a previsão do futuro. Eles não poderiam saber quantas laranjas brotariam de uma laranjeira, ou quantas vezes aquele peixinho nadaria de um lado para o outro no rio. Eles não eram oniscientes, nem faz parte da humanidade sê-lo. Nem os anjos o são. O segredo dos corações e os futuros contingentes pertencem a Deus e somente a ele.
3. Encerrando.
Há uma lenda que conta que o matemático francês, Pierre-Simon Laplace, acreditava que uma mente que tivesse o conhecimento de todas as forças que colocam a natureza em movimento, e a posição de todos os itens dos quais a natureza é composta, e se esse intelecto fosse grandioso o bastante para submeter esses dados à análise, para ele nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, estaria ao alcance de seus olhos. Não podemos imagina que o conhecimento de nossos primeiros pais era algo parecido com essa visão redutora e mecanicista do mundo. Os nossos pais conheciam, sobretudo, que o mundo nasceu do amor de Deus e por ele é governado. Mas, para eles como para nós, a própria essência deste amor era desconhecido, pelo menos para seu conhecimento direto. Somente assim se pode explicar que eles foram capazes de pecar.
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