- Introdução.
Hoje em dia, pensamos sempre em termos evolucionários. Sempre imaginamos o Big Bang, depois a sucessiva organização de átomos, moléculas, seres inanimados, seres vivos, animais, hominídeos e seres humanos. Dentre os seres humanos, imaginamos que os primeiros eram toscos e ignorantes, de tal modo que nos sentimos melhores, hoje, do que eram nossos primeiros pais. Mas isso é, de certo modo, uma inversão da ideia do pecado original.
Na verdade, a presença do mal na criação sempre foi um grande desafio. Especialmente do mal moral; como caímos? Não poderia ter sido por engano, por tolice, por desinformação. Caso contrário, não seríamos propriamente culpados pela queda. Assim, é necessário presumir que nossa queda foi suficientemente deliberada. Ou seja, precisamos imaginar que nossos primeiros pais possuíam as informações necessárias para discernir, se quisessem, e não dar aquele passo. Para isso, é necessário imaginar que eles estavam tão bem preparados quanto um ser humano poderia estar, mesmo porque sua escolha – a escolha de pecar – comprometeria (como comprometeu) toda a espécie humana. Assim, não podemos presumir que eles estavam numa situação menos favorável, para discernir, do que qualquer outro ser humano de qualquer época.
Para isto, é preciso que eles estivessem tão bem formados quanto qualquer ser humano pode chegar a ser, em qualquer tempo. Ou não? É exatamente isto que vamos debater agora.
A consequência é clara: se nossos primeiros pais pecaram por despreparo, por desinformação, por ingenuidade, por algum tipo de imperfeição e incompletude na sua própria pessoa, este pecado não poderia macular toda a sua descendência. Mas se eles eram perfeitamente preparados, informados, maduros e capazes de compreensão adequada, então são inteiramente responsáveis pelos atos e pelas consequências. Ou seja, a própria dinâmica do pecado original e da queda estão implicados no debate que vamos fazer agora.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida, aqui, é a de que nossos primeiros pais, antes da queda, eram simples e ignorantes, não possuíam conhecimento nem maturidade, eram, portanto, primitivos e ingênuos, quando viviam no paraíso. Esta hipótese parece refletir aquilo que pensamos hoje em dia, no sentido de imaginar que Adão e Eva eram menos evoluídos, menos informados do que nós, que somos científica e tecnologicamente muito avançados em comparação com eles, segundo cremos. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Há três maneiras de que o conhecimento das coisas esteja em nossa alma: ou adquirimos o conhecimento, assimilando em nós as noções das coisas (species) pelo seu exame e experimentação; ou já somos criados, como os anjos o são, com conhecimentos inscritos em nossa inteligência mesma (ciência conatural) ou, por fim, quando Deus inscreve em nossa alma os conhecimentos que poderíamos adquirir por experiência, mas ele quer nos doar, como acontece, por exemplo, com os profetas (ciência infusa). Ora, não podemos admitir que eles tivessem adquirido todo o conhecimento possível aos seres humanos por assimilação, porque eles não poderiam ter vivido toda a experiência que seria necessária para tal nível de informação. Quanto à ideia de que sua alma teria sido criada já tendo, de modo conatural, toda o conhecimento de todas as ciências significaria admitir que eles não são da mesma espécie humana que nós, uma vez que é próprio da espécie humana que nossa alma seja criada sem conhecimentos, como tabula rasa; só aos anjos é que o conhecimento é conatural, isto é, faz parte de sua natureza mesma. E, por fim, se Deus infundiu na alma dos primeiros pais toda a ciência que a espécie humana poderia adquirir, então teríamos que concluir que os conhecimentos que eles tinham não era do mesmo tipo que nós temos, porque não era um conhecimento empírico, experimental, adquirido do contato com o mundo, mas um conhecimento de outro tipo, desencarnado, místico, bem diferente do nosso, portanto. Logo, nossos primeiros pais não tinham na sua alma todo o conhecimento das coisas, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O argumento inicia lembrando que todos os seres de uma mesma espécie apresentam desenvolvimento similar. Ora, nenhum ser humano é gerado já com o conhecimento pleno de tudo aquilo que é adequado ao conhecimento humano. Logo, nem nossos primeiros pais foram criados assim, mas deveriam se desenvolver, como nós, a partir da ignorância até a aquisição de conhecimento, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A razão para que sejamos criaturas corporais e espirituais é a de que estamos neste mundo para experimentá-lo, adquirir conhecimento sobre ele e adquirir virtude, por meio de realizações e gestos que são meritórios ou desonrosos. Ora, nossos primeiros pais, de fato, deviam caminhar entre suas escolhas, para adquirir méritos ou desonra em virtude de suas ações. Logo, se deveriam caminhar para progredir em virtude e mérito, também deviam caminhar para progredir em conhecimento. Portanto, os primeiros pais não possuíam já todo o conhecimento adequado aos seres humanos, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra recorre à Bíblia. De fato, no Livro do Gênesis (2, 19), Deus determina que as coisas criadas deveriam receber de Adão o nome que ele quisesse dar. Ora, prossegue o argumento, colocar nome não é, neste caso, simplesmente dar um rótulo às coisas, mas conhecer suas noções, conhecer seu conceito mesmo, de tal modo que a nomeação consiste na capacidade de descrever, de expressar a verdadeira essência da coisa. Para isto, no entanto, seria necessário que Adão conhecesse a essência de todas as coisas que Deus determinou que ele nomeasse. Logo, Adão tinha, em sua inteligência, o conhecimento sobre todas as coisas criadas, conclui este argumento.
- Encerrando.
Vimos, na introdução, a razão teológica para presumir que Adão e Eva tivessem, em sua alma, todo o conhecimento que os seres humanos deveriam adquirir: a culpa pelo pecado original não seria estabelecida adequadamente se assim não fosse. Para nossa surpresa, porém, Tomás dará, primeiro, razões filosóficas para que as coisas sejam assim; essas razões se relacionam com o fato de que o ato deve sempre vir antes da potência, e ninguém pode transmitir aquilo que não tem. Mas estamos nos adiantando. Veremos isto nos próximos textos.
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