1. Retomando.

Não podemos enxergar os anjos com nosso sentido da visão, como não podemos ouvi-los com nosso sentido da audição. Anjos são “vistos” e “ouvidos” por nós apenas espiritualmente, embora, nos eventos extraordinários em que isto pode acontecer, não seja raro que os anjos tomem algum aspecto perceptível pelos sentidos, de modo a facilitar nossa interação. Mas isto é extraordinário. E não era diferente para nossos primeiros pais: mesmo antes do pecado original, os anjos não eram naturalmente perceptíveis pelos órgãos dos sentidos, que são nossa via ordinária para entrar em relação. Então nossos primeiros pais podiam discernir mais facilmente do que nós a existência dos anjos e seus efeitos na criação material, mas certamente não podiam percebê-los sensivelmente mais do que podemos hoje. 

O Papa Francisco tem, aliás, convidado os fiéis a se aprimorarem no discernimento dos espíritos, que envolve também reconhecer as inspirações que podem ter fontes alheias a nós mesmos, inclusive as inspirações dos santos anjos (dentre os quais está nosso anjo da guarda) e as eventuais inspirações do Maligno. Ele proferiu uma série de catequeses sobre o tema, entre o final do ano de 2022 e o início do ano de 2023. ´Tomás nos ensina, neste artigo, que o discernimento também era necessário para Adão e Eva no estado inicial de inocência, como é necessário para nós hoje. E o episódio com a velha Serpente (Gn 3, 1-7) demonstra que esse discernimento não foi adequadamente feito por eles, o que causou a queda, da qual sentimos ainda hoje os efeitos.

Examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que São Gregório ensinava, a respeito da vida espiritual dos nossos primeiros pais antes da queda, que eles costumavam usufruir da Palavra de Deus e estar entre os Santos Anjos, dada a pureza de seu coração e a amplitude de sua visão. Ora, sendo assim, é certo que os nossos primeiros pais podiam contemplar diretamente os anjos, no paraíso, antes da queda, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás considera que a própria resposta sintetizadora, que resumimos brevemente acima, já responde a esta objeção adequadamente. Nossos primeiros pais não podiam contemplar sensivelmente os anjos simplesmente porque isto está além da possibilidade da natureza humana, mesmo antes do pecado original; mas eles tinham muito mais clareza e discernimento, quanto aos anjos, do que somos capazes hoje.

O segundo argumento objetor. 

O segundo argumento objetor traz aquela linha de espiritualismo platônico e desprezo ao corpo em sua materialidade, tão contrário às posições de Tomás. 

De fato, o argumento apresenta a ideia de que nosso corpo, depois da queda, é um fardo para a alma (Sabedoria de Salomão 9, 15), e por isso representa um impedimento para que a nossa alma possa estabelecer uma relação direta com os anjos, percebendo-os, contemplando-os e convivendo normalmente com eles. Na verdade, diz o argumento, sabemos que as almas separadas, após a morte, podem perceber os anjos e estabelecer com eles uma relação desse tipo. Portanto, é o corpo marcado pelo pecado original que impede para nós esta relação.

Ocorre que o corpo dos nossos primeiros pais, de acordo com o argumento, não representava um peso para a alma, já que a corrupção não poderia atingi-los antes do pecado original. Logo, nossos primeiros pais podiam perceber os anjos e conviver com eles de modo a contemplá-los diretamente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não era em razão de que o corpo seja, após o pecado, um certo fardo para o ser humano, que os nossos primeiros pais não podiam perceber diretamente os anjos. Na verdade, eles não podiam perceber diretamente os anjos porque o objeto natural, próprio, do conhecimento humano são as coisas materiais, que se dão primeiro à percepção de nossos sentidos. Assim, o conhecimento dos anjos, para os seres humanos, é sempre indireto, antes ou depois da queda no pecado, pelo simples fato de que, sendo inteligências imateriais, eles estão acima da nossa capacidade natural de conhecimento direto, conclui Tomás.

O terceiro argumento objetor.

No Livro das Causas, de muita circulação nos tempos de Tomás, havia a afirmação de que uma substância separada é capaz de conhecer naturalmente outra substância separada, na medida que é capaz de conhecer a si mesma. Ora, prossegue o argumento, nossos primeiros pais possuíam o conhecimento de si mesmos, de suas próprias almas espirituais. Assim, eles poderiam conhecer naturalmente também os anjos, que são substâncias espirituais como as nossas almas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A alma humana não é, naturalmente, uma substância separada, mas apenas o elemento estruturante de uma substância material com aptidões espirituais. Ela pode subsistir, depois da morte, como substância separada da matéria, mas, neste caso, sua sobrevivência é incompleta, imperfeita, limitada pela ausência do corpo (que lhe será restituído no último dia, no juízo final, de modo a que a sua inteireza ontológica seja restabelecida por toda a eternidade). Assim, não se aplica à alma humana esta ideia de que o autoconhecimento leva naturalmente ao conhecimento de outras substâncias separadas, ou seja, que um anjo, por se conhecer, é capaz de conhecer os outros anjos. Este é o modo próprio de conhecimento dos anjos, não o nosso. E isto se aplica ao estado atual do ser humano decaído, como se aplica aos nossos primeiros pais antes da queda, conclui Tomás. A queda não transformou nem destruiu a natureza humana, apenas a feriu pelas consequências da escolha pelo pecado. Perdemos a integridade da natureza e a graça santificante. Mas éramos seres humanos antes da queda, e continuamos a ser após a queda.

3. Conclusão.

É importante sempre lembrar disso que foi dito na última linha acima: Adão e Eva não eram da mesma natureza dos anjos, de tal modo que, após a queda, viraram os seres humanos que somos hoje. Eles eram seres humanos, como nós somos. Apenas sem a marca do pecado original. E seres humanos continuaram a ser.