1. Retomando.

A palavra “Adam”, ou “Adão”, como estamos acostumados a ouvir, não é exatamente um nome próprio. Adam significa “homem”, simplesmente. Assim, quando chamamos nosso primeiro pai de Adão, estamos dizendo que ele é “o” homem, e nele estavam todos os homens e mulheres que nasceriam até o fim dos tempos. O ser humano tem uma natureza, a natureza humana, que é a natureza de uma espécie animal com capacidade espiritual. Somos matéria e forma, carne e osso, não como algo simplesmente justaposto, mas como uma unidade essencial.

Anjos, por outro lado, são seres puramente espirituais, separados da matéria. Anjos não aprendem, não investigam, não raciocinam, não sentem. Eles são, e eles sabem. Mas, sendo separados da matéria, são basicamente imperceptíveis, em si mesmos, para nós.

Com estas coisas em mente, examinemos agora a resposta de Tomás sobre a relação que nossos primeiros pais mantinham, antes do pecado, com os anjos.

2. A resposta de Tomás.

Dois sentidos para a expressão “estado da alma”.

Aqui, mais uma vez Tomás tratará da ambiguidade existente quando se fala na situação da alma, ou no “estado” em que ela se encontra. Ora, de fato, podemos falar no “estado” da alma quanto às diversas maneiras pelas quais ela existe naturalmente:

1) Falamos do “estado da alma”, num primeiro sentido, para descrever a diferença entre o modo de existir antes e depois da morte. Ou seja, aquela diferença entre o modo de existir antes da separação entre o corpo animal e a alma espiritual, e após a morte, quando ela subsiste de modo separado, incompleto, com relação ao corpo. Trata-se de modos naturais diversos de existir.

2) Num segundo sentido, falamos no estado da alma antes da queda, pelo pecado original, dos nossos primeiros pais (estado de inocência original) e no estado atual, corrompido, da alma após a queda, ou seja, da alma já maculada pelo pecado original. Neste caso, não se trata de diferentes modos de existir (unida ou separada do corpo), mas do fato da integridade original perdida.

Corpo e alma como elementos de um ente unitário.

De fato, antes ou depois da queda, a alma humana existe como elemento constitutivo de um ente essencialmente material, e existe apenas em relação com um corpo, ao qual governa e aperfeiçoa. O pecado original não mudou isso. É a isto que o Livro do Gênesis se refere quando diz que, pelo sopro divino, o primeiro homem foi feito como ser vivente (2, 7). Quer dizer, como animal espiritual. Esta é a sua natureza essencial. O corpo humano, portanto, tinha, antes como hoje, uma união completa e orgânica com a alma, como dois elementos de um ser unitário, e não como algo que impede ou que dificulta a existência de uma alma que ficasse melhor sem ele. O ser humano não é assim. E nunca foi, quer no estado de inocência original, quer após a queda. Corpo e alma são complementares, harmônicos, integrados num único ente.

Ora, se a alma e o corpo existem como uma unidade num só ser, que é o ser humano, isto significa que o exercício das aptidões próprias de nossa alma (como conhecer e querer), embora sejam aptidões propriamente espirituais (isto é, aptidões que não estão ligadas a determinados órgãos do corpo como condição direta para seu exercício, como, por exemplo, a visão está ligada aos olhos e a audição aos ouvidos) dependem da relação com o corpo para realizar-se, para aperfeiçoar-se. Nosso modo próprio de inteligir envolve o corpo e depende dele. De fato, não temos outra maneira para explorar o mundo, para aprender, senão os órgãos dos sentidos, externos e internos, que nos fornecem os elementos sensíveis organizados, os dados extraídos do nosso contato exploratório com o mundo material e organizados em nossa memória e em nossa imaginação, formando aquilo que os antigos chamavam de phantasmata, as imagens (fantasmas) das coisas que exploramos, e das quais surge o conhecimento intelectual propriamente dito. É assim, que nós inteligimos o mundo hoje em dia. Era assim que nossos primeiros pais, mesmo antes da queda, inteligiam o mundo. Isso não mudou, quanto ao processo, com o pecado original. É certo que o pecado original feriu nossa integridade, tornou nossa natureza de certo modo defeituosa quanto à reta integração. Mas não a destruiu nem a alterou essencialmente: somos seres humanos, como nossos primeiros pais também o eram.

Os três movimentos da alma no conhecimento das realidades imateriais.

Portanto, o modo natural para a nossa alma aprender é a exploração do mundo material. O objeto natural da nossa aprendizagem é o mundo material.

E como a alma conhece as realidades que não são materiais?

Ora, há três níveis de conhecimento, que o Pseudo-Dionísio chama de “três movimentos da alma”, quanto ao conhecimento das realidades não materiais.

O primeiro nível, ou primeiro grau, é o autoconhecimento. O ser humano pode conhecer sua própria alma – aliás, essa é uma tarefa espetacular, maravilhosa – mas não o pode fazer por um processo de exploração direta, como aquele pelo qual examinamos, digamos, uma pedra ou uma maçã. Não podemos conhecer nosso próprio intelecto diretamente, porque ele não é material, e portanto não se dá ao nosso conhecimento direto. Mais ainda: se nosso intelecto fosse material, nem sequer teríamos a possibilidade de autoconhecimento, simplesmente porque aquilo que é material não pode exercer a reflexão: o espelho não reflete a si mesmo, o olho não enxerga a si mesmo. A inteligência humana é imaterial, e portanto pode exercer a reflexão, ou seja, pode contemplar a si mesma. Mas a reflexão é sempre algo que envolve dois tempos: re-flexão quer dizer dobrar-se, voltar a si, e só pode voltar aquilo que, antes, moveu-se. Portanto, é preciso que estejamos no processo de explorar o mundo externo, de inteligir aquilo que é objeto próprio do nosso intelecto, para que possamos, por reflexão, contemplar nosso próprio intelecto funcionando, e dessa maneira chegar a um progressivo conhecimento dele. É por isso que o autoconhecimento exige tempo, experiência, caminhada de vida, e é um processo de amadurecimento. Nunca esgotaremos o autoconhecimento, mas, quanto àquilo em nós que chegamos a conhecer de fato (nossa capacidade intelectual, a natureza imaterial de nosso intelecto, nosso processo de aprendizagem, a natureza reflexiva da nossa mente, a dinâmica da nossa vontade) temos um conhecimento válido, adequado, perfeito, no sentido de ser um conhecimento que decorre da contemplação de algo que está sendo diretamente contemplado – nossa própria alma em sua dinâmica de atualização, de aperfeiçoamento.

O segundo nível é aquele pelo qual nos damos conta da existência dos anjos, como inteligências puramente imateriais. Ora, o conhecimento que os anjos têm de si mesmos não é processual, porque não decorre de algum caminho de amadurecimento, de autocontemplação. Nos anjos, o autoconhecimento é o próprio modo de existência deles: eles existem porque são inteligências capazes de pensar completamente em si mesmos, de conhecer a si mesmos por inteiro. São formas que existem em seu próprio pensar. Neles, as formas das outras coisas são infundidas por Deus em sua própria criação, e portanto os anjos não precisam explorar o mundo para aprender: eles já sabem tudo o que têm para saber. Não possuem sentidos externos e internos, não possuem imaginação que venha a organizar dados sensíveis, não passam pelo processo de aprendizagem a partir dos fantasmas. Nós, humanos, podemos tomar conhecimento de que existem mentes assim, e podemos até perceber os efeitos que tais existências causam na sua relação com o mundo material e conosco (aquilo que a Bíblia chama de “discernimento dos espíritos” pode ser visto como uma faceta desse “modo humano” de conhecer os anjos). Mas o conhecimento que temos sobre eles (e mais ainda o conhecimento que temos deles) será sempre limitado, precário, superficial. Pelo simples fato de sermos humanos, e de que, em nós, o objeto próprio da intelecção são as coisas materiais (e os anjos são essencialmente imateriais). Ou seja, antes ou depois da queda, os seres humanos podem ter, naturalmente, apenas um conhecimento limitado, imperfeito, dos anjos.

O terceiro grau, ou terceiro nível de conhecimento espiritual, seria o conhecimento do próprio Deus. Ora, este nível não pode ser atingido de maneira clara e distinta nem pelos próprios anjos, pelo simples fato de que a natureza divina ultrapassa infinitamente a natureza criatural dos anjos. Se nem os anjos, com sua agudeza espiritual, são capazes senão de um conhecimento limitadíssimo da essência divina, muito menos nós, humanos, somos capazes de um conhecimento claro quanto a isso. E isso vale também para nossos primeiros pais, antes da queda.

Portanto, a questão aqui não tem a ver com a inocência original ou com a queda do ser humano pelo pecado original, mas com a própria constituição da inteligência humana: não somos capazes de conhecer diretamente os anjos, isto é, de vê-los espiritualmente e entrar em relação direta e contemplativa com eles, senão de modo muito limitado e imperfeito. Nossos primeiros pais tampouco o eram, embora pudessem ter muito mais clareza nessa relação, devido à integração original de sua natureza. Ou seja, neles, ainda não afetados pelos efeitos da queda, a capacidade de discernir os anjos, de conviver com eles, era muito mais perfeita que a nossa.

3. Encerrando.

É muito interessante esta conclusão, e nos leva a importantes reflexões sobre o evento do pecado original e sua gravidade. Se nossos primeiros pais tinham uma capacidade de discernimento espiritual muito mais clara do que a nossa, então a escolha pelo pecado foi clara e consciente. Envolveu deliberação e consciência. Inclusive quanto à seriedade da opção contra Deus. Mas ainda assim não foi uma consciência total, perfeita, íntegra, porque qualquer discernimento que os seres humanos tenham, frente às inspirações de anjos e demônios, sempre é imperfeito e ilimitado, mesmo no paraíso, mesmo antes da queda. Há uma margem para saber melhor, para refletir, para repensar. É por isso que somos, a um só tempo, como filhos de Adão e Eva, muito culpados e ainda redimíveis. Graças a Deus.