1. Introdução.

Deus é perfeito. Assim, o ser humano deve ter sido criado sem defeitos, sendo certo que os eventuais pecados, limites, quedas, não decorrem da ação de Deus, mas do mau uso da liberdade humana. Deus nos quis livres, o que implica que a nossa criação envolveu o risco do abuso da própria liberdade – o que, como nos ensina a fé, de fato ocorreu, naquele evento conhecido como “a queda”.

Mas o fato de que o ser humano originalmente correspondia plenamente aos planos de Deus para nós não implica dizer que éramos, no início, perfeitos, plenos, e depois caímos miseravelmente. Não se trata disso. Éramos íntegros e dotados, por Deus, de todas as capacidades e potências necessárias ao livre exercício da nossa liberdade, auxiliada pela graça, para o atingimento do nosso fim – que não era nem é outro senão ser feliz com Deus.

Mas de fato caímos, e somos feridos pelo abuso que um dia escolhemos, por nossos primeiros pais, no exercício equivocado da nossa liberdade. É da maior importância, portanto, investigar como era o ser humano, tal como projetado e criado por Deus, e quais são as dimensões, em nós, que devemos acolher, e quais devemos lutar para corrigir e remediar, de tal modo a atingir os fins que ele preparou para nós.

Nesta questão, estudaremos mais de perto a inteligência humana. Quais eram nossas capacidades? O que conhecíamos e o que poderíamos conhecer? O que era o nosso intelecto antes que o pecado nos ferisse? O que restou intacto, o que devemos consertar? O que havia de bom e foi perdido, o que havia de bom e ficou?

Está em jogo aqui a possibilidade de algum grau de felicidade natural, ou seja, a possibilidade de felicidade terrena, natural, no estado de peregrinação na Terra. Se existiu alguma felicidade natural no Paraíso, ela decorria exclusivamente da visão sobrenatural e direta de Deus, ou será que o ser humano poderia gozar de alguma felicidade, algum bem, apenas por força de sua natureza? Há algum bem na perfeição da natureza, ainda que por analogia, ou todo bem está de modo unívoco apenas em Deus mesmo?

Neste primeiro artigo, está em debate nosso conhecimento de Deus. Como era nossa relação com Deus antes da queda? Como o víamos, como sabíamos dele, como o percebíamos, em suma, como nos relacionávamos com ele, antes que o pecado nos tornasse inimigos, cegos mesmo para Deus? Muitas perguntas profundas e importantíssimas, que Tomás nunca temeu enfrentar. E no tempo dele já existiam trolls, haters e debatedores hostis, como hoje; arrisco-me a dizer que a Suma é um grande debate em rede social, com suas hipóteses destrambelhadas e argumentos objetores desorientadores, no qual Tomás não somente não temeu se envolver como nos legou essa catedral maravilhosa do conhecimento e da fé, esse monumento para nossa contemplação que é a Suma.

Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese, aqui, é a de que, no paraíso da vida inicial, antes da queda pelo pecado, o ser humano vivia na presença de Deus, era capaz de vê-lo pessoalmente, estabelecia com Ele uma relação direta, vendo-o em essência, como se diz tecnicamente. A hipótese, portanto, é que o Éden, no qual o segundo relato de criação põe o ser humano no início, era exatamente a mesma coisa que nos aguarda na glória final daqueles que morrem em amizade com Deus: uma relação direta e pessoal, plena, com Deus mesmo. São três os argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

A vida humana plena consiste exatamente na visão de Deus, isto é, em poder estabelecer com Ele uma relação plena de presença, vendo-o assim como Ele é, de modo tão direto quanto posso ver qualquer ser humano hoje. Esta é a plenitude do ser humano, a única felicidade real e completa que pode ser descrita.

Ora, tendo sido criado no Paraíso que era o Éden antes da queda, o ser humano tinha, segundo ensina São João Damasceno na sua obra “Sobre a fé ortodoxa”, tinha uma vida feliz e plena de todos os bens. E, de fato, também Santo Agostinho exclama: “se o ser humano era dotado, então, do mesmo tipo de sensibilidade que temos hoje, então como deveria ser feliz nesse lugar de satisfação indescritível que era o Paraíso!”. Ora, se a plenitude da satisfação é somente Deus, então o primeiro ser humano deveria ser capaz de contemplar diretamente a essência de Deus no Paraíso, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Na sua obra sobre a Cidade de Deus, Santo Agostinho nos ensina que ao primeiro ser humano, no paraíso, antes da queda, não faltava nenhuma das coisas que se pode conseguir por uma vontade reta. Ora, um ser humano puro, com uma vontade reta, não pode almejar nada mais pleno do que contemplar a própria presença de Deus em essência. Assim, devemos concluir que o ser humano, antes de cair no pecado, era capaz de estar na própria presença da essência divina e contemplá-lo assim como Ele é, diz o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Quem contempla Deus na Sua essência mesma, pode vê-lo diretamente, sem ocultações e sem intermediários. Ora, a melhor teologia, no Livro das Sentenças de Pedro Lombardo, afirma que o ser humano, no estado original de inocência, via a Deus sem intermediação. Também o via sem enigmas ou ocultações, já que essa ocultação, essa relação enigmática, como ensina Santo Agostinho mesmo, no Livro XV da obra sobre a Trindade, é resultado do pecado original: “a obscuridade foi introduzida pelo pecado”, diz ele. Logo, antes da queda pelo pecado, nossos primeiros pais conseguiam contemplar Deus diretamente, plenamente, na essência divina mesma, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

São Paulo registrou, na Primeira Carta aos Coríntios (15, 46): “não é o espiritual que vem primeiro, e sim o animal; o espiritual vem depois”. Ora, o ser humano foi criado como um ser do gênero animal, no Paraíso. Por outro lado, contemplar Deus em essência, estabelecer com ele uma relação direta de amizade, sem intermediários, vendo-o como ele é e caminhando na sua presença maravilhosa, é o ápice da existência espiritual. Aquilo que é o último, que é o fim, não pode ter sido, pois, a primeira realidade do ser humano no paraíso. Portanto, o ser humano, no paraíso, em que pese a inocência original, não podia contemplar a própria essência divina, conclui este argumento contrário à hipótese inicial.

5. Encerrando por enquanto.

Há um velho adágio grego, filosófico, que diz que apenas algo da mesma natureza pode ver o semelhante. Se era possível ao ser humano, naturalmente, no Paraíso, ver a própria essência de Deus, então teríamos que concluir que os primeiros seres humanos eram como deuses, capazes de ver Deus. Mas esta foi exatamente a tentação da serpente maligna a eles: a promessa de que “seriam como deuses” se comessem do fruto proibido. Portanto, eles não tinham a natureza divina: eram criaturas, e, como tais, precisariam viver na graça para alcançar a glória da contemplação direta de Deus. Foi a graça, não a própria natureza, que eles perderam com a queda. É certo que a natureza humana foi feita para viver com a graça, e a perda da graça torna a natureza humana incompleta, imperfeita, ferida. Mas continua sendo criatural, e portanto ainda boa. Pronta para receber de novo a graça que Jesus conquistaria para nós.

Veremos mais sobre isto nos próximos textos.