1. De volta.
Imagem e semelhança. Nem o pecado pode macular essas características da criação: de participar, ainda que de modo analógico, das perfeições que são propriamente de Deus. Perfeições que chamamos de transcendentais do ser, porque se espalham por toda a criação, ultrapassando os limites dos gêneros e das espécies. Semelhança e imagem são, portanto, marcas de Deus na criação, e em especial em nós, que tornam todas as criaturas respeitáveis e nós particularmente dignos. Mas também são tarefa. Ser imagem de Deus não é simplesmente algo que somos, estativcamente: também é vocação, é a primeira e mais fundamental das vocações. Toda vocação é essencialmente dom e tarefa, é o que nos ensina o Papa Francisco (Vocação é dom e tarefa) Para quem não sabe qual é a vocação existencial fundamental que nos foi incumbida, ei-la aqui: aumentar nossa semelhança com Deus, para que sejamos imagens cada vez mais claras dele.
Estudemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor explica que não podemos distinguir adequadamente aquilo que é gênero daquilo que é uma espécie desse gênero. Um gato doméstico não é menos gato do que um gato-do-mato; ambos pertencem ao gênero dos gatos, embora sejam de espécies diversas. Ora, prossegue o argumento, a semelhança é o gênero do qual a imagem é uma espécie; podemos dizer que toda imagem é uma espécie do gênero semelhança. De fato, na obra que traz oitenta e três questões diversas, Santo Agostinho nos alerta que sempre que existe uma imagem, existe semelhança, mas o contrário não é verdadeiro, isto é, pode haver semelhança que não se constitui numa imagem. Assim, a rigor, não podemos distinguir entre imagem e semelhança, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, não podemos distinguir a imagem da semelhança que a própria imagem carrega: ali onde há imagem, há uma semelhança que determina que haja imagem: uma estátua só pode ser à imagem de Napoleão porque guarda semelhança com Napoleão, e nesse sentido não há como distinguir a imagem da semelhança.
Mas há duas dimensões em que a semelhança se distingue da imagem:
1. Quando há alguma semelhança, mas não o suficiente para constituir uma imagem. Uma nuvem pode ser remotamente semelhante a um carneirinho, mas não é uma imagem de carneiro. Nesse caso, a semelhança se distingue da imagem por deficiência.
2. Quando a semelhança é o próprio objetivo da imagem. Assim, quando o escultor está martelando o bloco de mármore para fazer uma estátua de Napoleão, ele quer aperfeiçoar a semelhança entre a estátua e seu modelo (o próprio rosto de Napoleão) de modo a serem realmente parecidos em grau máximo. Assim, neste caso, a semelhança é a meta, e representa a própria perfeição da imagem.
Neste sentido, a imagem de Deus em nós nos faz, já desde nossa geração, semelhantes a Deus, no sentido inicial; mas essa imagem deve crescer em perfeição para que nos tornemos cada vez mais semelhantes a ele.
O segundo argumento objetor.
Este argumento mostra que, em nós, há semelhança com a Trindade, porque nossa alma é tridimensional: temos a identidade, que nos faz ter consciência de que somos quem somos. Há a inteligência, que nos faz capazes de nos conhecer e conhecer a Deus. E há a vontade, que nos capacita a amar. Tudo isso nos assemelha à Trindade, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
Mas há, em Deus, alguns aspectos que são comuns às Pessoas, e que, por isso, dizemos que são próprias da essência divina, como a imortalidade e a indivisibilidade (unidade). Nós temos essas características em nossa alma: ela é una (mesmo sendo tridimensional no sentido já dito) e imortal. Tudo isso nos constitui, inseparavelmente, como semelhantes a Deus, e portanto como imagens dele.
Mas há teólogos e escritores cristãos que fazem uma distinção entre aspectos que determinam apenas que sejamos semelhantes a Deus (como a unidade e a imortalidade), mas outros aspectos nos constituem em verdadeiras imagens de Deus (em especial aqueles que nos tornam semelhantes à Trindade; nossa identidade, nossa inteligência e nossa vontade). Mas isso parece inserir uma falsa separação, em nós, entre sermos imagem e sermos semelhantes a Deus. Assim, não devemos distinguir entre imagem e semelhança, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Existem muitas dimensões de semelhança entre todos os seres criados, por um lado, e Deus, por outro. Assim, aquelas dimensões que temos em comum com outros entes, como a unidade no ser ou mesmo a incorruptibilidade, não determinam que sejamos imagem de Deus. Não são específicas do ser humano, nem determinam um grau de semelhança que nos constitua em imagem.
Mas a estrutura da nossa alma espiritual, sua capacidade de lembrar-se da sua identidade, de conhecer-se e conhecer as outras coisas (e principalmente de conhecer Deus) e de amar a si mesmo, ao resto da criação e principalmente de amar a Deus sobre todas as coisas é que nos constitui num grau de semelhança tal que nos faz verdadeiras imagens dele. Portanto, podemos distinguir, em nós, aspectos que são apenas semelhantes a Deus (semelhança que compartilhamos com outros seres) e aspectos que constituem, em nós, a imagem de Deus.
O terceiro argumento objetor.
Existem três níveis em que o ser humano pode ser considerado “à imagem de Deus”: por natureza, pela estrutura tripartite da sua alma espiritual e pela possibilidade de saber que Deus existe apenas pela razão; pela graça, que possibilita, nesta vida, a virtude teologal da fé, restabelecendo a amizade do ser humano com Deus e o conhecimento sobrenatural dele, e, finalmente, pela glória, que é a morte em amizade com Deus que nos encaminha à vida eterna e à ressurreição. Ora, a amizade sobrenatural com Deus na graça e na glória não se relacionam com o fato de que nossa alma sobrenatural tripartite é semelhante à Trindade, mas com o fato de que, com a graça e com a glória, somos restabelecidos na inocência e na amizade com Deus, que é a justificação. Tudo isso está relacionado àquilo, no ser humano, que é considerado como sendo à imagem de Deus. Mas há teólogos e escritores eclesiais que consideram que a inocência e a justificação estão relacionados à semelhança, mas não à imagem. Se fosse assim, a graça e a glória envolveriam apenas um aumento de semelhança, mas não um aprimoramento da imagem, como se essas coisas fossem desconexas entre si; mas, como vimos, não são. Assim, não se pode distinguir a semelhança da imagem em nós, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Como vimos, existem certas características que estão em nossa alma naturalmente, como a predisposição natural para as virtudes morais e mesmo para as virtudes teologais. Esta predisposição, mesmo não desenvolvida ainda, já apresenta em nós uma certa semelhança natural com Deus. O desenvolvimento das virtudes, tanto pela educação e pela experiência natural, quanto pela graça e mesmo na glória, aprimora essa semelhança, o que aprimora, por consequência, a imagem de Deus que há em nós. Assim, nada impede que chamemos de aumento de semelhança, sob determinado ponto de vista, aqueles fatores que, vistos sob outro ponto de vista, representam verdadeiro crescimento em termos de sermos mais claramente imagem de Deus.
O quarto argumento objetor.
Há teólogos e escritores eclesiais que dizem que, em nós, o conhecimento da verdade é parte da imagem de Deus em nós, mas o amor à virtude seria apenas parte da nossa semelhança com Deus.Ora, prossegue o argumento, a inteligência e a vontade são dimensões da nossa alma espiritual que a constituem em imagem de Deus, como já vimos. Mas o conhecimento da verdade aprimora nossa inteligência, como o amor à virtude aprimora nossa vontade. Assim, não faria sentido distinguir, nessas duas dimensões, aquilo que é apenas semelhança daquilo que se constitui em imagem: ambas fariam parte da imagem, e essa distinção está equivocada, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Esse debate, que era tão intenso na época de Tomás, pode nos parecer sutil e desinteressante, hoje. Tendemos a olhar o ser humano como imagem de Deus sem distinguir, em nós, o que é simplesmente a busca de um aperfeiçoamento humano, por um lado, da verdadeira busca do crescimento espiritual, que nos faz mais parecidos com Deus, por outro lado. Assim, mesmo um agnóstico, mesmo alguém sem nenhuma inclinação religiosa, pode caminhar para um desenvolvimento nas virtudes naturais, como a disciplina, a temperança, a lealdade aos amigos, sem que, com isso, ele venha a refletir mais claramente a imagem de Deus, simplesmente por ignorá-lo ou até mesmo desprezá-lo. Não há dúvida de que um ser humano aperfeiçoado pelas virtudes naturais, como a lealdade aos amigos, a generosidade ou a temperança, se torna mais semelhante a Deus, que é leal, generoso e fiel de modo absoluto. Mas esse ser humano com virtudes naturais desenvolvidas mas que não cresce no conhecimento e no amor de Deus não necessariamente reflete melhor a imagem de Deus em si, ou seja, não se torna mais imagem. Faz sentido, então, dizer que o conhecimento da Verdade (que é, como sabemos, o próprio Deus em seu Verbo) torna o ser humano uma imagem mais clara de Deus, mas o simples amor às virtudes morais simplesmente representa um crescimento em semelhança, mas não necessariamente um crescimento em imagem. Portanto, faz muito sentido distinguir, aqui, a imagem da semelhança, conclui Tomás.
3. Concluindo.
Crescer como ser humano é muito bom, e isto Sócrates, Platão e Aristóteles já sabiam, séculos antes de Cristo. Mas há um crescimento verdadeiramente espiritual, que é o crescimento no amor a Deus, na união com ele, pela vida sacramental e de oração, pela pertença à Igreja e fidelidade a ela, pela escuta da Palavra, pela contemplação de Deus; tudo isto não pode ser comparado ao simples crescimento intelectual, científico ou mesmo moral. Estes últimos modos de aperfeiçoamento humano tornam, sem dúvida, o ser humano mais semelhante a Deus, porque Deus é origem de todo conhecimento, de toda perfeição, mesmo no plano natural. Mas somente o estreitamento da relação pessoal com Deus, em Jesus e na sua Igreja, torna-nos mais claramente imagens de Deus.
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