1. Retomando.

A semelhança entre as criaturas e Deus é a mais bela revelação natural de Deus. De fato, a constatação de que há algo em vez de nada é um belo sinal de que há Deus, ou seja, há um primeiro ser que é diverso do nada. E o fato de que todas as coisas são perfectíveis, são dinâmicas, são contingentes, são direcionadas a algum fim, são marcas naturais que sinalizam a existência de Deus. Neste sentido, podemos dizer que a semelhança, que se constitui na participação limitada nos atributos que são propriamente apenas de Deus, tem como consequência a possibilidade de que Deus seja entrevisto em sua existência mesma. Mas vai além: a semelhança, que determina a participação de todos os seres, de modo analógico, nos atributos de Deus, traz à criação inteira uma certa dignidade intrínseca: a criação tem uma origem, uma pertença, e não podemos usá-la senão lembrando sempre de que ela tem um significado intrínseco, que aponta para Deus, e portanto somos usuários daquilo que tem dono. Se pensássemos assim, talvez grande parte dos problemas humanos seriam minorados, incluídos aí as guerras, a destruição e a degradação ambiental.

Mas a imagem eleva essa dignidade a um patamar mais alto: somos imagens de Deus, imagem do altíssimo, daquilo que há de mais nobre. E a nobreza obriga. Isso torna todos os seres humanos igualmente dignos e respeitáveis, e ademais mostra o rumo para o nosso desenvolvimento.

Eis porque é importante distinguir adequadamente imagem e semelhança: as consequências práticas de cada uma dessas noções são diversas e importantíssimas.

Além disso, não podemos esquecer de que a noção de semelhança também traz uma certa ambiguidade; há mais de um sentido para o termo. Quais são estes sentidos, qual é essa ambiguidade, é algo que Tomás nos ensinará agora. Examinemos sua resposta sintetizadora.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A semelhança como unidade.

Quando dizemos que algo é semelhante a outra coisa, na verdade estamos declarando que essas duas coisas compartilham algum aspecto em comum. Há, entre eles, algum tipo de unidade, portanto.

Ora, como nos lembramos, a unidade é um transcendental do ser, como a beleza, a bondade e a verdade. O que significa dizer que alguma coisa é um transcendental do ser?

Como já vimos no texto anterior, os transcendentais são aspectos do ser em relação. O ser em relação com a proporção é belo. O ser em relação com uma vontade é bom. O ser em relação com uma inteligência é verdadeiro, um ser com relação à sua inteireza é uno. E assim por diante. Ora, apenas Deus é o ser em sentido próprio, então apenas dele pode-se falar em transcendentais do ser em sentido próprio: somente Deus é propriamente bom, verdadeiro, uno, belo, etc..

Assim, todas as criaturas participam de algum modo do ser, da beleza, da bondade, da verdade. Por isso, posso dizer que uma coisa é boa simplesmente porque existe, ou seja, participa de algum modo da existência. Mas, diferente de Deus, que é plenamente bom porque é plenamente ser, as criaturas têm o ser de modo participado, numa existência contingente, e portanto têm o bem também de modo limitado, sempre aperfeiçoável. Portanto, há, nas criaturas, um bem antecedente, que decorre do simples fato de existir, e um bem subsequente, que decorre da caminhada daquele ente no caminho da perfeição.

Semelhança antecedente e subsequente.

Podemos dizer algo análogo com relação à semelhança. Ela é uma participação na unidade (a unidade, ou uno, é um transcendental do ser). Assim, a semelhança pode existir de forma antecedente, e crescer de forma subsequente. Uma criança pode se parecer com o pai e se tornar ainda mais parecido na medida que cresce, por exemplo. Ou, no caso do ser humano, somos semelhantes a Deus pelo simples fato de existirmos, e somos imagens pelo fato de termos uma alma tridimensional (identidade, inteligência e vontade) que tem semelhança com a Trindade. Estes aspectos nos fazem, de certo modo, compartilhar uma unidade com Deus quanto a esses aspectos, de modo antecedente a qualquer coisa que possamos fazer ou atingir. Mas nosso crescimento na natureza e na graça nos encaminha para o crescimento na virtude, isto é, ao progressivo aperfeiçoamento como seres humanos, em especial no conhecimento de Deus, na relação com Ele. Isso nos torna ainda mais semelhantes a Deus, de modo subsequente. Assim, há uma semelhança geral, antecedente, que é comum a todos os seres humanos; e uma semelhança especial, subsequente à caminhada para a perfeição, que é própria daqueles que caminham no desenvolvimento das virtudes e no apelo da graça. Pela primeira, somos todos igualmente dignos. Pela última, caminhamos para a santidade, que pressupõe o bom exercício da liberdade.

Semelhança e identidade.

Portanto, somos semelhantes a Deus, de modo comum a todas as criaturas, por existirmos, por sermos bons, verdadeiros, belos, apenas por existirmos. Essa é uma semelhança antecedente e comum. Essa semelhança é ainda mais presente em nós, que temos uma alma indestrutível, ou seja, não corruptível, não mortal como as outras formas dos outros entes criados. Ainda estamos no campo das semelhanças antecedentes, mas já mais próximos da noção de imagem, uma vez que somente Deus é propriamente incorruptível e imortal. Assim, há, aqui, uma semelhança da nossa natureza com a essência de Deus em sua unidade.

Mas somos semelhantes, também de modo antecedente, pelo fato de termos, todos os seres humanos, uma alma espiritual. Que é capaz de ter identidade, inteligência e vontade, e por isso se constitui como imagem. Mas ainda estamos no campo da semelhança antecedente, comum a todos os seres humanos. Podemos falar, aqui, quanto a este nível de semelhança, de imagem antecedente de Deus em nós.

Semelhança subsequente e crescimento na condição de imagem.

Por fim, pode-se considerar a imagem como semelhança subsequente, quando notamos que aqueles seres humanos que crescem em virtude e em conhecimento e amor a Deus tornam-se gradativamente mais semelhantes a ele, ou seja, tornam-se imagem ainda mais nítida de Deus. Aqui, a imagem se diversifica em nós, pelo uso adequado do livre arbítrio como liberdade para perseguir o verdadeiro bem, que é Deus mesmo. Cada um de nós cresce em perfeição e virtude na medida do bom uso da liberdade e das oportunidades, inclusive a boa cooperação com a graça de Deus.

Portanto, há, sim, distinção entre semelhança e imagem, como vimos.

3. Encerrando.

Ser à imagem pressupõe ser semelhante. Ser semelhante também é algo aperfeiçoável: ser mais semelhante é ser mais à imagem.

No próximo texto, veremos como, municiados destas noções, acompanharemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.