1. Introdução.

Caminhamos longamente para estabelecer a noção de imagem, e desde o princípio tratamos da questão da semelhança, como relacionada à imagem. Mas, ao final do nosso percurso, revisitaremos a noção de semelhança, para compará-la com a noção de imagem que já foi enriquecida na caminhada. A questão é saber como distinguir entre imagem e semelhança, e em que sentido podemos falar destas duas noções.

Aqui, ressalte-se, estarão em jogo duas noções fundamentais do pensamento clássico: a analogia, que permite falar de um modo, digamos, intermediário entre o modo unívoco de falar (próprio das ciências naturais, por exemplo) e um modo equívoco de falar, mais próprio da linguagem poética. Na ciência, quando falamos, por exemplo, de gatos, é importante distinguir de modo unívoco entre o Felis Catus, que é o gato doméstico, e o Leopardus Guttulus, que é um gato-do-mato praticamente indistinguível do doméstico a olhos não treinados. Com os respectivos nomes científicos, podemos nomeá-los univocamente. Mas, quando falamos, por exemplo, de coisas militares, podemos nos referir a um soldado, a segredos, a veículos, a armas, a instalações, ou seja, a diversas realidades que não são nomeadas de modo unívoco, mas apenas de modo análogo, pelo fato de participarem da natureza daquilo que é militar. Por outro lado, quando dizemos que um ladrão é um gatuno, não queremos dizer que ele pertence à espécie dos Felis Catus, mas apenas que ele age furtivamente como os felinos. Trata-se, aqui, de nomeação equívoca. É uma metáfora. E somente com isso em mente, com o fato de que esses modos de falar não são simplesmente linguagem, mas expressam realmente aspectos das coisas às quais se referem.

Outra noção que devemos lembrar é a de transcendentais do ser. Os transcendentais são aqueles aspectos dos ser que estão para além dos gêneros e das espécies. Por exemplo, uma flor pode ser bela, como uma pedra pode ser bela e até mesmo um pensamento pode ser belo. O mesmo com a verdade e o bem, a unidade e a própria noção de coisa. São transcendentais, no sentido de que são características aplicáveis a toda categoria de seres, mesmo aqueles que pertencem a gêneros e espécies diferentes. Na verdade, os transcendentais são próprios de Deus, e são aplicados aos entes por analogia. Só Deus é bom, só Deus é belo, só Deus é verdadeiro, só Deus é uno num sentido próprio. Todas as criaturas o são apenas por analogia.

Depois dessa longa digressão filosófica sobre a analogia e sobre os transcendentais do ser, vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

O que está em questão aqui é a distinção entre imagem e semelhança. Qual a relação entre essas duas noções? A hipótese inicial, para provocar o debate, é a de que não é possível distinguir adequadamente as noções de imagem e de semelhança. No fundo, quando se fala de imagem, estamos falando também de semelhança e vice-versa, diz esta hipótese. Existem quatro argumentos objetores iniciais que vão tentar comprovar esta hipótese. Vamos examiná-los.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento afirma que o gênero nunca é algo diverso da espécie, ou seja, gênero e espécie não são diversos entre si. Os cães, ou seja, o gênero dos canis, inclui cães, lobos, coiotes e chacais. Mas essas espécies não são algo diverso do próprio gênero dos canis, senão sua manifestação específica.

Ora, prossegue o argumento, a imagem nada mais é do que uma espécie do gênero das semelhanças. De fato, toda imagem traz em si uma semelhança, embora nem toda semelhança consista numa imagem, com explicam os estudiosos. Assim, não se pode distinguir adequadamente a semelhança da imagem, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que o fato de que nossa alma é imagem de Deus envolve o fato de que somos semelhantes às Pessoas divinas (pela memória, inteligência e vontade, como vimos nos artigos anteriores), mas também envolve o fato de que somos semelhantes à própria essência divina em sua unidade, porque nossa alma é unitária e imortal, como Deus, em sua unidade, é imortal e unitário. Assim, não faz sentido dizer que alguns elementos da nossa semelhança (a semelhança com as Pessoas divinas) constituem-se como imagem de Deus, mas outros elementos, como a imortalidade e a indivisibilidade da alma, constituiriam simples semelhança; todos os elementos de semelhança em nossa alma fazem parte do fato de que somos imagem de Deus, e portanto não há distinção possível entre sermos à imagem e sermos à semelhança de Deus, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Há três níveis na alma humana quanto à imagem que ela reflete de Deus: ela é imagem natural de Deus, pelo fato de poder conhecer, naturalmente, que Deus existe. Ela é imagem de Deus pela graça por ser capaz de, elevado pela graça, entrar em relação com ele. E é imagem pela glória quando atinge a bem-aventurança na vida eterna.

Assim, parece ser um equívoco quando alguém distingue entre imagem e semelhança, no ser humano, afirmando que o ser humano é imagem de Deus pela memória, inteligência e vontade, mas é apenas semelhante, quanto atinge o perdão santificante do pecado original pela graça e a justificação final pela glória. Em ambos os casos, existe indistintamente imagem e semelhança de Deus na alma humana, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

Mais uma vez, o argumento traz um debate que existia ao tempo da redação da Suma: alguns teólogos daquele tempo diziam que o conhecimento da verdade pelo ser humano estaria no âmbito daquilo que nos torna imagens de Deus; mas o amor à virtude, à retidão da vida, ao aperfeiçoamento moral do ser humano, estaria no âmbito apenas da semelhança. Ora, tanto a inteligência, que busca a verdade, quanto a vontade, que busca a virtude, estão colocadas no âmbito da imagem de Deus em nós. Assim, aqueles que distinguem a imagem da semelhança de Deus com base em tais critérios estão equivocados, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que, no livro Oitenta e Três Questões Diversas, diz que muitas pessoas consideram que não é inútil ter dois nomes diferentes para designar, em nós, aquilo que é imagem e aquilo que é semelhança; na verdade, isto demonstra que são, de fato, duas coisas diversas, já que, se fossem a mesma coisa, bastaria um nome para designar as duas coisas. Assim, o argumento sed contra conclui que imagem e semelhança são duas coisas distintas.

5. Encerrando.

Tomás nos apresenta, às vezes, discussões que eram muito acirradas em seu tempo, mas nos parecem hoje preciosismos às vezes sem sentido. Mas não se trata disso: é que as suas respostas são tão acertadas e precisas que muitos debates de seu tempo foram simplesmente eliminados depois de suas respostas. Parece ser o caso aqui; sua resposta sintetizadora esclarece de modo muito claro o que se quer dizer quando se fala da semelhança com Deus ou do fato de sermos à imagem de Deus. Veremos isso no próximo texto.