1. Voltando.

Atualmente, as “inteligências artificiais” estão na moda. Elas levantam, inegavelmente, muitas questões filosóficas, principalmente com relação à própria natureza do que é ser inteligente. Certamente, Tomás não reconheceria essas máquinas, ainda que capazes de autonomia na solução de problemas, como seres inteligentes. Na verdade, são artefatos, algo como grandes bancos de dados capazes de relacionar rapidamente informações e fornecer respostas a consultas, de modo automatizado, a partir de parâmetros preestabelecidos. Inteligente é quem as inventou.

A humanidade, porém, é à imagem de Deus, e isto significa que é livre para conhecer Deus e amá-lo, ainda que possa, na prática, deixar de fazê-lo. Certamente uma inteligência artificial não tem interioridade e, principalmente, é incapaz de conhecer efetivamente Deus, entrar em relação com ele e amá-lo. Em suma, é desprovida, como todo mecanismo, da dignidade humana.

Para finalizar essa bela reflexão sobre a imagem de Deus e a relação com ele, examinaremos agora as respostas de Tomás sobre este tema, quanto aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que nossa alma tem uma estrutura tripartite: existe, em nós, aquela dimensão que sabe de si, sabe-se diferente das outras coisas, e é a “fonte” do pensar e do querer; existe aquela dimensão que é o próprio pensamento pensado e falado e existe aquela dimensão que move e quer, ou seja, que ama. A alma é, portanto, neste sentido, à imagem da Santíssima Trindade, na qual o Pai pronuncia, o Filho é pronunciado e o Espírito é o laço de amor entre eles. Ora, essa estrutura tripartite da alma se dinamiza em relação com qualquer objeto: se examinamos, digamos, uma pedra, há, em nossa alma, uma dimensão que se sabe diverso da pedra e a examina, uma dimensão que formula o conhecimento quanto ao objeto examinado e uma dimensão que avalia a desejabilidade, a atratividade do objeto examinado, amando-o ou não. Assim, não somente quando está em relação com Deus, mas quando está em relação com qualquer objeto a nossa alma se aperfeiçoa no sentido de se tornar mais ainda à imagem de Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É próprio de uma imagem que uma coisa proceda da outra, como o rosto na moeda procede do rei. Ora, quando conhecemos uma pedra, o que procede da pedra, em nossa alma, é a imagem da pedra. Mas quando nos relacionamos com Deus, em nós procede a imagem de Deus e o amor de Deus, como na Trindade o Filho procede do Pai e o Espírito, do amor entre ambos. Portanto, é na relação com Deus que a alma aperfeiçoa e atualiza em si a imagem de Deus que traz naturalmente como dom, como simples capacidade.

O segundo argumento objetor.

A dimensão tripartida da alma, diz Santo Agostinho, sempre reflete uma certa imagem da Trindade, independentemente de se relacionar com Deus ou de contemplar as coisas terrenas, materiais. Assim, é indiferente que a alma entre em relação com Deus ou com qualquer outro objeto; ela sempre será imagem da Trindade, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Na alma inteira, diz Tomás, nós identificamos uma certa estrutura tripartite; mas isto não significa que exista, na alma, como que uma parte que atua na criação, outra parte, independente da primeira, que contemple Deus; e uma terceira parte que, unindo as duas, tornasse a alma uma estrutura tripartite, ou seja, uma certa imagem da Trindade.

De fato, se contemplamos a alma humana somente em sua relação com o mundo criado, ela seria ainda uma estrutura tripartite, mas, apesar de semelhante à Trindade, não seria propriamente à imagem da Trindade. De fato, esse dinamismo que relaciona a alma ao mundo material, criado, é uma relação adicionada, acrescida à natureza da alma, e não algo que esteja em sua essência mesma. De fato, essa relação da alma com as coisas do mundo material pode estar ou não nela: há coisas com as quais jamais entraremos em contato – uma pessoa nascida numa zona equatorial pode passar a vida, por exemplo, sem conhecer a neve. Há coisas com as quais nos relacionamos e mantemos em nós apenas como conhecimento habitual, lembranças; e há coisas que, mesmo sendo relacionadas com Deus, estão destinadas a passar, como é o caso da fé: ela existe nesta vida, mas, quando estivermos face a face com Ele na vida eterna, não será mais necessária – será somente uma lembrança.

Assim, todo o dinamismo da alma aqui nesta vida, mesmo apresentando um aspecto tripartite que é semelhante à Trindade, não necessariamente torna a alma mais à imagem de Deus. Somente o cultivo de uma relação ativa com Ele é que o faz, e, ainda assim, isto só achará sua culminação na vida eterna.

O terceiro argumento objetor.

Entrar em relação com Deus, conhecê-lo assim como ele é e entrar em relação com ele, é algo que não é possível ao ser humano pela simples força da nossa natureza. De fato, Deus excede tanto a nossa natureza que apenas sendo elevados pela graça é que conseguimos entrar e relação com ele, conhecê-lo assim como ele é, amá-lo pelo que ele é. Ora, se é apenas por estar em relação com Deus que a imagem de Deus se faz realmente presente em nós, isso significaria que o ser humano não seria naturalmente a imagem de Deus, mas apenas aqueles presenteados com a graça de possuir fé é que ostentariam essa condição de imagem. Com isso, teríamos uma diferença de dignidade entre os seres humanos: os que não receberam a fé não seriam imagens de Deus, ao tempo que aqueles que professam a fé católica o seriam. Assim, não pode ser a relação da alma com Deus que determina a condição de imagens de Deus nos seres humanos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que uma relação concreta com Deus, que envolve conhecê-lo e amá-lo assim como ele é em si mesmo é um dom da graça dele em nós.

Ocorre que é possível chegar a um certo conhecimento de Deus de modo natural (como aliás São Paulo ensina em Romanos 1, 19, ecoando o Livro da Sabedoria 13, 1). Ora, o simples fato de que tenhamos a capacidade natural de chegar a algum conhecimento de que Deus existe já determina que sejamos, todos os seres humanos, à imagem de Deus, mesmo que muitos de nós se recusem a desenvolver esse conhecimento, ou até neguem essa existência ou mesmo professem uma radical rejeição a Deus. É a capacidade abstrata de saber de Deus, de perceber sua existência a partir do exame racional das coisas criadas, que marca em nós a imagem de Deus como dom comum a todos os seres humanos, mesmo que esse dom não venha a ser utilizado ou mesmo não possa ser utilizado em concreto, como naqueles que dormem ou que estão comatosos, por exemplo. Todos guardam em si a marca da dignidade de serem à imagem de Deus. Mas o exercício dessa capacidade e, mais ainda, o estabelecimento, pela graça, de uma efetiva relação com Deus, como ocorre nos que abraçam a fé que justifica, torna essa imagem sempre mais perfeita, mais clara, mais límpida.

O quarto argumento objetor.

Aqueles que morreram em santidade e chegaram à bem-aventurança final são aqueles que mais claramente refletem a imagem de Deus [esta é, aliás, uma das razões pela qual a Igreja venera os santos]. Eles podem ver Deus em Sua glória, e gozam da felicidade perfeita, como diz a Bíblia: “refletimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nessa mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor”.

Mas os que estão na glória podem se relacionar com todas as coisas, sejam criadas ou incriadas, na sua visão beatífica. Portanto, é indiferente, para que sejamos mais parecidos com Deus, que nossa alma entre em relação dinâmica com as coisas criadas ou com o próprio Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Aos que alcançam a visão beatífica pela santidade, todas as coisas são vistas em Deus, e são vistas nele exatamente em razão de serem por ele e para ele, ou seja, todas as coisas vistas pelos santos fazem parte da imagem de Deus que eles contemplam em sua felicidade eterna. Por isso, para os santos, a relação com Deus centraliza a relação com todas as coisas. Mas em nós não é assim: não é indiferente, para o nosso aperfeiçoamento, que rejeitemos ou ignoremos Deus e passemos a nos relacionar no mundo sem ele, por um lado, ou que o aceitemos e estabeleçamos uma verdadeira relação de conhecimento e amizade com ele. Somente neste último caso é que atualizamos a imagem de Deus que existe em nós como dom, como capacidade, fazendo-a cada vez mais clara e efetiva.

3. Conclusão.

Todos os seres humanos são dignos, porque têm em si a capacidade de entrar em relação com Deus. São, nesse sentido, imagens vivas de Deus, mas imagens potenciais, a serem buriladas. Isso lembra aquela declaração de Michelangelo de que as estátuas que ele esculpia já estavam como que dentro dos blocos de mármore, mas que lhe cabia retirá-las dali. Somos esses blocos de mármore, de certo modo já produzidos com a capacidade de virar imagens esculpidas de Deus.