1. Retomar.
Saber que Deus é, buscar conhecê-lo, amá-lo sobre todas as coisas; eis o centro daquilo que, em nós, é à imagem de Deus. Como um belo espelho que não pode refletir o rosto do rei se ele não estiver presente para ser refletido, a imagem de Deus em nós depende da relação que temos com Ele. De fato, ele está presente a cada um de nós, como está presente a qualquer ser criado, como criador; no mesmo sentido que podemos dizer que Michelangelo está presente na Capela Sistina. Mas essa é uma presença fraca, insuficiente para produzir uma imagem. Se, além disso, Michelangelo houvesse pintado um autorretrato na Capela Sistina, no meio das cenas bíblicas (e não faltam teorias de que isso aconteceu), a sua imagem seria muito mais nítida: não simplesmente como criador, mas como efígie, como semblante. Se, ademais, pudéssemos estudar a pessoa e a vida de Michelangelo pelo estudo da bela obra da Capela Sistina, conseguiríamos recompor sua imagem de um modo ainda mais nítido.
Essa analogia quer nos apontar para o fato de que se relacionar com Deus, lembrar de sua existência, conhecer seu ser maravilhoso, amá-lo acima de todas as coisas, é o objetivo de sermos à imagem de Deus, e faz com que essa imagem surja muito mais nítida em nós. É esse, portanto, o fim de nossa vida.
Mas estamos nos adiantando a Tomás. Estudemos sua resposta sintetizadora.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás já nos ensinou que a própria noção de imagem implica compartilhar os traços, retratar a species, remeter intencionalmente àquele ou àquilo que é retratado. Não é a simples aparência ou semelhança. Uma nuvem pode se parecer acidentalmente com um carneirinho, mas nem por isso é imagem dele. Há, na imagem, uma presença recíproca, uma intencionalidade que relaciona retrato e retratado.
O que caracteriza a Santíssima Trindade é que, na sua unidade essencial, ela distingue em si as Pessoas pela origem: o Verbo procede do Pai como palavra dita sobre si mesmo, como pensamento que pensa a si mesmo integralmente; o Espírito Santo procede dos dois, como Amor que os une perfeita e integralmente.
A palavra e o amor em nossa mente.
Ora, prossegue Tomás, como podemos distinguir, em nossa mente, um conhecimento de outro, ou um amor de outro? Pelo objeto, isto é, por aquilo que é conhecido ou amado por nós. O conhecimento que tenho de uma pedra é objetivamente diferente do conhecimento que tenho, digamos, do meu cão, ou, mais ainda, do meu filho. O amor que sinto por um copo de água gelado é objetivamente diferente do amor que tenho por minha mãe ou por minha esposa.
Quando conheço uma pedra, quando a estudo, quando a examino, forma-se em minha mente uma imagem, uma assimilação da pedra, que é a palavra, o verbo da pedra em mim. É esse verbo assimilado da pedra em mim que me permite falar sobre a pedra, pensar na pedra, comunicar algo sobre a pedra, identificá-la dentre inúmeras outras pedras. Também essa imagem da pedra me permite gostar daquela pedra, inclinar-me a ela, desejar possuí-la, em suma, amá-la de algum modo. Mas esta é a imagem da pedra em mim, e não a imagem de Deus em mim.
Assim, podemos concluir que a imagem de Deus em mim se forma quando eu entro numa relação com Deus que envolve formar, em meu intelecto, uma palavra, um verbo, sobre Deus, ou seja, de algum modo assimilar em mim um conhecimento sobre ele (conhecimento, aqui, que não é simples acumulação de informações, mas verdadeiramente uma relação intelectual de presença recíproca, ou seja, um verdadeiro conhecimento no sentido de estabelecer uma mutualidade, uma presença do conhecido na alma do conhecedor). É neste sentido que podemos dizer que conhecemos um amigo: não simplesmente sabemos coisas sobre ele, mas realmente sabemos, em algum grau, quem ele é em nós e para nós. E dessa assimilação de Deus em nós nasce o amor que devotamos a ele. Neste sentido, a imagem de Deus em nós se dá pelo fato de sermos levados a uma relação de presença e amor com Deus, um verdadeiro conhecimento relacional e uma verdadeira inclinação para ele na sua maravilhosa bondade assimilada por nós. A imagem de Deus em nós decorre da nossa capacidade natural de viver essa relação, ou ao menos de recebê-la, de ser levado a ela pelo próprio Deus. Em suma, a imagem de Deus existe porque somos capazes de entrar em relação de conhecimento e amor com Deus, e se aperfeiçoa noa medida que efetivamente o fazemos.
A maneira direta e a indireta de conhecer e amar.
Ora, prossegue Tomás, existem duas maneiras pelas quais nossa mente é levada a conhecer e amar um objeto:
1. Quando se encontra com ele diretamente, como no caso de um jovem que se encontra com aquela moça que o encanta, que o empolga, a quem deseja conhecer mais e compartilhar o resto de sua vida no matrimônio. Neste caso, seu intelecto e sua vontade se enchem de conhecimento e de amor pela pessoa encontrada, de tal modo que podemos dizer que essa pessoa passa a viver, de certo modo, no coração daquele que a conhece e ama.
2. Por algum conhecimento indireto, como um não cristão que, convivendo com um santo, é capaz de conhecer, nele, alguns traços da santidade de Deus e vem a amar, por meio desse santo, o Deus que não conhece pessoalmente; certamente a Santa Madre Teresa de Calcutá provocou esse tipo de conhecimento indireto de Deus em muitas pessoas sem religião, ou mesmo de outras religiões. Tomás compara esse conhecimento indireto a alguém que se apaixona por uma pessoa que viu apenas num espelho.
Neste sentido, o processo de autoconhecimento e desenvolvimento do reto amor-próprio pode ser um processo indireto de perceber a imagem de Deus em nós; trata-se de discernir que, em nós mesmos, há uma certa trindade, não divina, mas criada, consistente na nossa identidade, nosso conhecimento e nossa vontade. Essa trindade criada é, já, um certo e pálido reflexo da Trindade divina, como o rosto de um velho rei desbotado naquela moeda antiga. Assim, estudando esse pálido reflexo, como o reflexo desbotado de um rosto num espelho oxidado, podemos, sem dúvida, ser levados a alguma relação, mesmo que distante, com aquela Trindade que é modelo desta. Isto é, o conhecimento do ser humano pode, indiretamente, levar ao conhecimento reflexo, imperfeito, de Deus, clareando a imagem dele em nós – desde que esse conhecimento não se detenha no individualismo ou em algum tipo de humanismo distorcido, no qual a humanidade substitui Deus como razão última de si mesma, e a mente coloca o reflexo como substituto do refletido. O conhecimento do ser humano leva a Deus quando se desenvolve retamente.
3. Encerrando por enquanto.
A capacidade, mesmo em abstrato, de conhecer e amar a Deus forma a imagem de Deus no ser humano. O efetivo conhecimento e amor a Deus nos torna efetivamente imagem dele, cada vez mais. E assim podemos garantir a dignidade humana a todos os que são capazes, ao menos em tese, desse conhecimento relacional e desse amor, mesmo que, na prática, optem pela rejeição. Isso não lhes tira a dignidade, porque toda liberdade embute em si a possibilidade do mau uso. Mas este é um paradoxo da liberdade, não da dignidade. Liberdade abusada encaminha alguém para a escravidão. Mas a negação do desenvolvimento da imagem de Deus em nós mesmos compromete apenas nossa própria plenitude, nossa própria realização. Não a nossa dignidade fundamental – uma vez que a conversão prossegue sendo sempre uma possibilidade, até o último momento.
Deixe um comentário