1. Introdução.

É certo que a dignidade humana está diretamente relacionada à reafirmação da imagem de Deus em cada ser humano como dom. Independentemente, como diz São Paulo na Carta aos Gálatas (3, 28), de sermos homens ou mulheres, judeus ou gregos, escravos ou livres, (bárbaros ou citas, complementa em Colossenses 3, 11), ou seja, independentemente de sexo, origem étnica, nacionalidade, afiliação religiosa, somos dignos porque a imagem de Deus está gravada ali mesmo em nossa imagem, como capacidade.

Ocorre que essa capacidade deve ser pesquisada, aprofundada. Somos imagens como dom, mas também como tarefa. Se imagem é o que somos, cabe perguntar como aprimorar, como ser mais imagem, porque somente atingindo a perfeição do que somos é que seremos plenos, e seremos, portanto, felizes. Neste sentido, não nos tornamos menos dignos se não buscamos ativamente ser imagens melhores, mas certamente tornamo-nos mais completos, mais felizes, se o buscamos. É exatamente isto que significa ser santo.

Ora, já vimos no artigo anterior que a nossa alma reflete a Trindade por ter memória da sua identidade, por conhecer e por querer. Estas três dimensões refletem a imagem de Deus Pai, do Filho (verbo) e do Espírito (amor). Mas isso não se dá de qualquer modo: não é simplesmente por ser, por saber e por querer que a imagem de Deus se aperfeiçoa em nós. A questão é que aquilo que somos é um grande mistério em nossa vida. Nós não somos simplesmente aquilo que queremos ser, ou que fazemos de nós mesmos, como querem certas correntes existencialistas modernas. Há um significado em nós, e nossa missão é encontrá-lo, não simplesmente criar um significado aleatório, violando o dom de ser imagem para vir a ser o resultado de nossas próprias insanidades. Também o acúmulo de conhecimentos não nos torna necessariamente mais perfeitos, mais santos; tampouco um querer desorientado, faminto, insaciável.

Assim, a tarefa de ser mais imagem de Deus não é algo indiferente ao modo com que vivemos, às coisas que aprendemos e ao que amamos. Dirigir nosso ser para Deus, o Deus verdadeiro, é ter a possibilidade de atingir a própria plenitude humana. Deixar de fazê-lo, priorizar outras coisas, eleger outros deuses, quando decorre de uma deliberação sem ou contra Deus, impede a plenitude humana.

Ser o que? Conhecer o que? Querer o que? Descobrir isso é descobrir o caminho da santidade, que é o único caminho que faz completo, feliz, o ser humano. É o que debateremos neste artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

Como sabemos, cada artigo da Suma começa sempre com uma hipótese que visa provocar o debate, por ser controvertida, ou seja, ser algo sobre o que não há unanimidade. No caso presente, a hipótese controvertida afirma que não é por entrar em relação com Deus, por buscar ativamente essa relação, que a imagem de Deus em nós se aperfeiçoa. Vale dizer, não é por buscar ser como Deus, conhecê-lo e amá-lo ativamente que seremos mais parecidos com Deus, que o retrataremos melhor. Existem quatro argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, como vimos no artigo anterior, a imagem da Trindade se encontra em nós pelo fato de que, em nossa inteligência, existe uma dimensão que elabora o pensamento, uma dimensão que é o próprio pensamento elaborado e uma dimensão que inclina para o objeto conhecido, amando-o, ou seja, querendo-o. Isso, por analogia, nos torna semelhante ao Pai, que profere o Verbo, ao Filho, que é proferido pelo Pai, e ao Espírito, que relaciona ambos no amor.

Ora, essas dimensões da nossa alma não existem apenas com relação a Deus, diz o argumento, mas com relação a qualquer objeto com o qual nos relacionamos: tudo aquilo que se apresenta a nós como objeto, mesmo uma maçã ou uma formiga que nos interpela, faz com que aquele que somos profira um pensamento de conhecimento e uma inclinação de amor (ou de repulsa) para com esse objeto. Portanto, a nossa relação com qualquer objeto, e não apenas com Deus, faz com que a imagem de Deus em nós fique igualmente evidenciada, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Na sua obra sobre a Trindade, Santo Agostinho ensina que, quando queremos descobrir essa marca trinitária em nossas almas, consistente na memória, no conhecimento e no querer, nós descobrimos que essa é a estrutura da própria alma, independentemente do fato de estarmos nos relacionando com Deus ou com outro objeto qualquer que nos interpele, mesmo que seja uma criatura. Nossa alma sempre traz a marca trinitária, seja quando ela é interpelada por uma relação com Deus (ao qual pode contemplar e amar) ou por uma criatura qualquer que interpele nossa inteligência e nossa vontade. Assim, mesmo quando nos relacionamos com coisas materiais, criadas, nossa alma manifesta do mesmo modo a imagem da Trindade que quando nos relacionamos com Deus, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Conhecer quem é o Deus verdadeiro e existente, a Trindade em sua unidade maravilhosa, não é algo que o ser humano possa fazer pelas forças da sua própria natureza. Esse conhecimento e amor a Deus é sempre um dom da graça, que nos eleva e nos capacita a essa relação com Deus. Ora, se a imagem de Deus em nós consiste, de modo central, em ter uma relação real com Deus, por tudo o que somos, sabemos e queremos, e buscar conhecê-lo e amá-lo assim como ele é, isso significa que a imagem de Deus em nós não estaria inscrita em nossa natureza, que é comum a todo ser humano, mas estaria restrita àqueles que receberam a graça sobrenatural de entrar em relação com ele; logo, apenas aqueles que têm fé, esperança e caridade como dom sobrenatural da Graça teriam a dignidade de apresentar a imagem de Deus em si, e não o resto da humanidade, afirma o argumento. Mas isso excluiria da condição de imagem de Deus a maior parte dos seres humanos, prossegue. Logo, não é na relação com Deus que está a centralidade da imagem de Deus no ser humano, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor lembra que há muitos seres humanos que alcançaram a salvação final e repousam hoje na glória de Deus, no céu. Lá, eles alcançaram o máximo em termos de serem imagens de Deus: são santos e viverão na eternidade em santidade, na relação mais íntima com Deus que uma criatura humana pode conhecer. É isso que nos ensina São Paulo (2Cor 3, 18): [na glória de Deus] nos veremos transformados nessa mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor.

Ora, no Paraíso não conhecemos somente a Trindade Santa, mas conheceremos, na própria essência de Deus, todas as coisas, as do céu e as da Terra. Portanto, não é somente entrando em relação com Deus, mas com qualquer coisa, inclusive com as coisas terrenas, que exibimos e aprimoramos a imagem de Deus em nós, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Como sabemos também, após apresentar a hipótese controvertida e os argumentos iniciais em seu favor, Tomás apresenta também um ou mais argumentos contrários a ela, normalmente retirados de uma fonte com autoridade, para mostrar que não se poderia simplesmente aceitar, sem crítica e reflexão, a hipótese inicial.

No caso concreto, o argumento sed contra busca a autoridade de Santo Agostinho. Na mesma obra sobre a Trindade, Santo Agostinho, falando daquelas três dimensões da alma (memória, conhecimento e querer) que ele chama de “trindade na alma”, afirma expressamente que a trindade na alma não se encontra nela simplesmente pelo fato de que ela é capaz de lembrar de sua própria identidade, conhecer-se e amar a si mesma, mas também pelo fato de que pode lembrar da identidade de Deus, que a fez, e vir a conhecê-lo e amá-lo. Assim, é principalmente por causa disso, e muito menos por causa da relação da alma com outros objetos, que podemos considerar a alma humana como imagem de Deus.

5. Encerrando.

Se há uma meta para o nosso aperfeiçoamento, a meta é tornar-se cada vez mais imagem de Deus. Ora, sabendo que, como ensina Tomás, conhecer é fazer com que a própria species, ou seja, a forma do objeto de conhecimento, venha a existir em nós. Conhecer, então, é assimilar a coisa em nós ou, no caso de Deus, assimilarmo-nos a Ele sem deixarmos de ser quem somos. Nada poderia nos tornar mais à imagem dele. Mas estamos nos adiantando. No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.