1. Voltando para finalizar.

O equilíbrio notável nas posições de Tomás quanto à dignidade da pessoa humana fica, mais uma vez, evidenciado neste artigo. De fato, ele está preocupado com aquilo que poderíamos chamar de imagem estática da Trindade em cada ser humano, dormindo, acordado, doente, sadio, brilhante ou simples. Mas por outro lado não deixa de ressaltar que nossa meta é parecer sempre mais com a Trindade, e que é o exercício da nossa vida intelectual que nos leva a isso.

Mas atenção aqui: Tomás não trata a vida intelectual do mesmo modo que a tratamos hoje. De fato, ele não está preocupado com o conhecimento científico dos professores e doutores, nem com o acúmulo de informações de literatos e historiadores. Ele pensa na vida intelectual como a ordenação da nossa existência a partir do conhecimento da verdade pelo intelecto e da inclinação ao bem pela vontade. Verdade e bem que, como sabemos, não são simples categorias lógicas ou disposições afetivas, mas verdadeiras manifestações de Deus, aquilo que os antigos chamavam de transcendentais do ser. Para compreender isso tudo, precisamos ter a capacidade de pensar não apenas univocamente, como tendemos a fazer hoje, mas também analogicamente, como fazia Tomás: se, por um lado, é verdade que Deus é o único bom e o único verdadeiro, não é menos verdade que as criaturas participam, analogicamente, do ser, da bondade e da verdade de Deus. E isto torna fácil que possamos entender que somos imagens de Deus em nosso ser participado, independentemente do que sabemos ou fazemos, como também somos imagens de Deus em nossa busca constante do bem e da verdade. A busca do fim é a busca da plenitude, da felicidade, e portanto é a busca pela santidade. Como isso é difícil de ver hoje em dia, e como é urgente!

Mas deixemos de digressões: vamos examinar os últimos argumentos objetores e as respostas a eles que Tomás nos apresenta.

2. Os três últimos argumentos objetores deste artigo.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento também lembra Santo Agostinho. Ele afirma que a imagem de Deus em nós se dá porque a nossa alma tem três dimensões: intelecto, conhecimento e amor. Ora, fica claro, portanto, que a imagem de Deus se revela na própria estrutura essencial da alma, naquilo que a alma é, incluídos os seus potenciais e capacidades, e não naquilo que ela faz, ou seja, suas atividades. Assim, a imagem de Deus está no que somos, não na atualização que fazemos de nós mesmos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que Santo Agostinho aponta essa tríplice dimensão da nossa alma como lugar da semelhança da Trindade em nós, que determina que somos à imagem de Deus. Mas não podemos tomar essa afirmação somente num sentido estático, como se a imagem fosse algo fixo e predeterminado em nós. Nem Santo Agostinho o faz, lembra Tomás.

Na verdade, não temos desde logo um pleno autoconhecimento. Os anjos se conhecem plenamente desde a sua criação, porque eles existem como forma no pensamento, isto é, sua existência decorre do fato de que são capazes de pensar-se, de autoconhecer-se plenamente desde o primeiro momento. Mas com os seres humanos não é assim. Na verdade, desde o primeiro momento da nossa existência, na concepção mesma, já existimos como seres dotados de alma espiritual, capazes de conhecer e amar, mas nestes primeiros momentos nada sabemos, nem de nós mesmos, nem do mundo que nos cerca, e, portanto, nada amamos. Esse processo de conhecimento e autoconhecimento, de busca incessante pelo bem a ser amado, é uma tarefa para a vida inteira, em nós.

Essa tarefa determina que a nossa mente, em seu funcionamento, também seja caracterizada por três dimensões: 1) a memória espiritual, ou autopercepção, na qual percebemos que somos, como distintos de Deus e das outras coisas; 2) a inteligência, que em nós se caracteriza por ser processual, racional, capaz de passar da ignorância ao conhecimento; e 3) a vontade, que busca o bem a ser feito e perseguido, e deste modo nos encaminha livremente à nossa própria realização. Portanto, são três dimensões dinâmicas da nossa alma, e é principalmente nessa dinâmica que Santo Agostinho encontra, de maneira própria, a imagem de Deus Trindade em nós. Portanto, é na atualização, na dinâmica da sua atividade, que a alma humana reflete a imagem de Deus em primeiro lugar.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor insiste na visão de Santo Agostinho quanto à tridimensionalidade da alma, constituída de memória, conhecimento e vontade, como imagem da Trindade em nós. Essas dimensões da alma, diz o argumento, não são propriamente atividades ou atuações da alma, mas são capacidades, potencialidades, da alma, que as possui potencialmente, ou mesmo habitualmente, ainda que esteja, digamos, dormindo, ou em estado comatoso, ou mesmo ainda na mais tenra infância. Logo, não são os atos da alma, não é seu dinamismo, que revela mais propriamente a imagem de Deus em nós, mas, na verdade, a imagem se revela mais propriamente em sua potencialidade, suas capacidades, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Vamos devagar, porque a resposta é longa e profunda.

Tomás nos lembra, aqui, que o próprio Santo Agostinho argumenta provando que nós dizemos que conhecemos e queremos (ou amamos) algumas coisas, independentemente de que estejamos ou não efetivamente pensando nelas num determinado momento.

Ora, diz Agostinho, aquilo que não está sendo efetivamente pensado num determinado momento continua pertencendo à memória espiritual – que não é outra coisa senão a depositária habitual, ou seja, permanente, daquilo que conhecemos e amamos.

Ocorre que o próprio Santo Agostinho nos aprofunda sobre o modo de funcionamento de nossa alma. De fato, diz Agostinho, pode parecer que, uma vez que nossos conhecimentos e nossas vontades ficam guardadas habitualmente na memória, poderia parecer, num exame superficial, que a memória tem em si, por hábito, as três dimensões da alma que espelham a Trindade em nós, e que, por isso, poderíamos dizer que esses hábitos, essas capacidades retidas na memória, seriam aquilo que mais propriamente revela a imagem da Trindade em nós. Mas as coisas não são exatamente assim, prossegue ele.

Na verdade, para expressar alguma coisa falando, precisamos possuir seu logos, quer dizer, a razão da coisa, seu verbo, não pode existir em nós sem ser pensado. Na verdade, antes mesmo de pensar em alguma coisa em termos de palavras a serem ditas, pensamos na própria coisa, em seu verbo em nós, que não é propriamente linguístico, mas está antes da própria expressão linguística (e é por isso que podemos traduzir pensamentos de uma língua para outra; o logos que a linguagem expressa está acima da expressão linguística. Penso, digamos, num cão, e posso chamá-lo de “dog” ou de ‘perro”, mas o pensamento se refere ao mesmo verbo pensado, a própria ideia de cão). Pensando nessa noção, formulo sobre ela uma linguagem, que a torna comunicável. E meu querer se inclina para a coisa pensada, no sentido de perceber que aquilo que articulo pela linguagem é aquilo mesmo que está em minha memória. Consciente desse vínculo entre a linguagem e a memória, posso querer expressar o que sei, porque amo o que sei e amo a expressão do que sei. Neste sentido, a memória, o conhecimento e o querer podem espelhar, em sua atividade, a Trindade, de modo perfeito: o Pai se identifica com nossa memória, que origina, que retém, que é. O Filho se identifica com nosso conhecimento, que reflete, que expressa, que comunica. E o Espírito Santo se identifica com nossa vontade, que une, pelo amor consciente, o que somos e o que sabemos.

Portanto, prossegue Tomás, podemos afirmar, de fato, que há uma certa imagem da Trindade em nossas potências de memória, conhecimento e vontade. Mas a imagem em sentido próprio, pleno, de Deus em nós, ocorre mesmo quando nossa alma está em pleno dinamismo, retendo, expressando e amando. Neste sentido, a imagem de Deus se plenifica em nós pela nossa atividade, conclui Tomás.

O quarto argumento objetor.

O ser humano mantém sempre e indelevelmente a imagem de Deus Trindade em si. Sua alma espiritual é o lugar dessa imagem, mesmo quando não esteja exercendo nenhuma atividade própria dela. De fato, nem sempre o ser humano está empenhado em atividades propriamente espirituais, intelectuais, volitivas, ou seja, nem sempre ele está em ato quanto às suas aptidões propriamente espirituais. Nem por isso deixa de ser imagem de Deus. Logo, não é por estar em ato que a imagem de Deus se manifesta plenamente em nós, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Alguns poderiam, aqui, diz Tomás, sentir a tentação de responder com uma simples citação de Agostinho, que, na obra sobre a Trindade, diz simplesmente que nós, por nossa alma, sempre percebemos a nós mesmos, sempre nos conhecemos e sempre nos amamos; mas esta seria uma resposta simplória, que parte da ideia equivocada de que Agostinho está afirmando, nesse trecho, que nós sempre nos percebemos, nos conhecemos e nos amamos em ato, ou seja, estamos sempre na atividade de autopercepção, autoconhecimento e amor-próprio.

Não é isso que Agostinho afirma. Na verdade, ele próprio, em outro ponto do mesmo livro, ensina que nossa alma não está sempre pensando em nós mesmos de um modo distinto daquele pelo qual pensa nas outras coisas. Assim, diz Tomás, fica claro que nós sempre nos percebemos, conhecemos e amamos, mas nem sempre de um modo atual, efetivo, mas sempre de um modo habitual, ou seja, esta percepção, este conhecimento e este amor estão sempre disponíveis em nós, mesmo quando não estão sendo efetivamente exercitados. Podemos dizer que eles subsistem sempre que a pessoa está consciente de que está em alguma atividade propriamente mental, intelectual ou espiritual: percebendo a atividade da alma, estamos simultaneamente percebendo, conhecendo e amando a nós mesmos ao perceber, conhecer e amar qualquer outra coisa.

Mas o fato é que nem sempre estamos em atividade mental (intelectual, espiritual). Às vezes estamos dormindo, ou doentes, alheados da interação consciente com o mundo por qualquer motivo. Mas, mesmo quando estamos numa situação assim, continuamos capazes, em potência, de entrar na atividade própria da alma intelectual, acidentalmente interrompida. Esta capacidade está de tal forma inscrita em nós que Agostinho pode afirmar, na mesma obra sobre a Trindade, que, uma vez que alma humana foi feita à imagem de Deus, no sentido de que é capaz de usar da razão, usar a inteligência para entrar em relação com o próprio Deus, então temos que admitir que a imagem de Deus está na alma humana desde o princípio. Fomos gerados capazes de Deus. E é isto que torna a imagem de Deus em nós sempre presente, mesmo que às vezes não efetivamente atualizada a contento. Quer dizer: mesmo na maior degradação, mesmo vivendo como um animal, num estado de intoxicação permanente, ou de busca insensata apenas das sensações, emoções ou prazeres mais toscos, somos, mesmo que no mais fundo do que somos, imagens de Deus a serem respeitadas e resgatadas.

3. Concluindo.

Perceber-se existindo, conhecer-se e amar-se são o caminho que se consuma em perceber Deus, conhecê-lo e amá-lo. Esta é a nossa natureza, esta é a nossa missão, este é o nosso fim. Esta é a nossa dignidade.