1. Para retomar.
Ser imagem de Deus marca a dignidade humana. E, como já repetimos, identificar exatamente onde está essa imagem é determinar não somente o que somos, mas principalmente o que somos chamados a ser. O fim é dado, mas deve ser alcançado, deve ser querido. Eis a chave da liberdade humana: a liberdade tem sentido, deve ser exercida para identificar o fim e persegui-lo como bem. Assim, a graça e a lei não são opostos à liberdade, a razão não é oposta a liberdade, o livre arbítrio não é oposto à liberdade; ao contrário, estes são todos elementos da liberdade, e que integram na identificação da imagem de Deus como fim do ser humano, e da atividade da alma espiritual como campo de trabalho para atingir esse fim.
No texto anterior, vimos a hipótese controvertida inicial, trazida para provocar o debate, de que a imagem de Deus não é uma tarefa, mas um dom; os argumentos objetores querem provar que ela está posta em nós por nossa essência, por nossas capacidades, nossas potências, e não está aberta a aperfeiçoamento ou crescimento. O argumento sed contra, por outro lado, ao tentar anular a hipótese inicial, traz um posicionamento de que a imagem de Deus em nós não é algo dado naturalmente de modo nenhum, mas apenas algo a ser construído em nós pela atuação da nossa alma intelectual.
Assim colocados, vamos examinar agora a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Já vimos que a noção de imagem envolve a posse da semelhança; não se trata simplesmente de parecer, mas de ter uma razão em comum, ter a mesma species. Compartilhar significado formal, diríamos, usando uma terminologia mais técnica. Trata-se, pois, da posse de algo que dá reciprocidade, que retrata, que espelha, por estar realmente presente tanto naquilo que retrata quanto naquilo que é retratado. Não se vê verdadeira imagem numa rocha que o vento esculpiu aleatoriamente de modo a ficar vagamente parecido com o rosto do imperador; mas se vê verdadeira imagem na moeda cunhada com sua efígie, porque ela compartilha uma semelhança intencional com o rei.
Assim, já vimos, em textos anteriores, que a imagem de Deus em nós é a imagem da Trindade, porque a Trindade é o único Deus efetivamente existente. Assim, devemos examinar a alma humana para verificar, nela, aquilo que guarda similitude real, compartilhada, com a Trindade.
Na Trindade (como anteriormente estudamos) as Pessoas se distinguem pela origem: a Pessoa do Verbo, que é a Palavra divina, procede do Pai que a pronuncia, e a pessoa do Espírito procede como Amor que liga o Pai e o Filho.
Assim, em nós, há, sem dúvida, imagem da Trindade quando atuamos para a construção do conhecimento, ou seja, quando formamos, em nós, o conhecimento que leva ao autoconhecimento. Ao conhecer as coisas, a nós mesmos e a Deus, esta atividade produz em nós o conhecimento intelectual ativo, que é a imagem, em nós, do Verbo divino; este conhecimento faz prorromper em nós o amor, a inclinação pelo bem que há no mundo, que há em nós, que há em Deus. Portanto, é na nossa atuação intelectual, de conhecer, refletir e amar, que espelhamos com mais perfeição a Trindade Divina. Assim, podemos afirmar com segurança que a imagem divina em nós está, de modo fundamental e principal, na atividade da alma intelectual, que conhece e ama.
Mas isto não esgota nosso problema. De fato, essas atividades que nos tornam imagens de Deus são possíveis porque têm como princípios as potências (capacidades, potencialidades) e os hábitos, que são aquelas disposições capazes de nos permitir passar facilmente da potência ao ato (por exemplo, temos a potência ou capacidade para falar, mas se não adquirimos as disposições corretas pelo estudo da língua, seu vocabulário, sua gramática, sua práxis, não conseguiremos executar adequadamente a atividade de falar; neste sentido é que se fala do hábito da fala como princípio da atividade de falar). Ora, tudo o que está na atividade está virtualmente contido no seu princípio, esperando apenas a oportunidade para tornar-se ato. Portanto, a imagem de Deus, que existe de maneira própria e primária nas atividades de conhecer e amar, existe de maneira virtualmente, isto é, latente, nas potências e nos hábitos humanos, de maneira que, mesmo quando não estamos realizando atividades (quando estamos dormindo, ou em estado comatoso por alguma patologia, por exemplo) não perdemos essa condição de imagem virtual de Deus. Mas temos a responsabilidade de, em tudo e por tudo o que fazemos, aperfeiçoá-la para que se atualize sempre mais.
3. O primeiro argumento objetor e sua resposta.
O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que diz que somos feitos à imagem de Deus à medida que somos, sabemos e amamos nossos ser e nosso conhecimento. Ora, ser, isto é, existir, não é uma atividade, mas um fato. Logo, a imagem de Deus em nós não está de modo próprio na nossa atividade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, a imagem de Deus está em nosso ser mesmo, é algo que nos é dado, é um dom em nós, e isso nos torna mais naturalmente dignos do que todas as outras criaturas materiais. E isto ocorre porque existimos como seres espirituais, intelectuais, dotados de uma mente capaz não somente de ser e viver, mas de conhecer e amar. Assim, de fato, a imagem da Trindade em nós envolve nosso ser e nossa atividade intelectual – incluída nela o conhecer e o amar. Somos imagem pelo que somos e pelo exercício de nossa mente, sem que uma coisa exclua a outra.
4. Encerrando.
O texto ficou longo. No próximo, examinaremos as últimas respostas de Tomás aos argumentos objetores.
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