1. Introdução.

Ser imagem de Deus, como já vimos, é um dom. Mas também é uma tarefa. É uma finalidade. E nós, dos dias de hoje, temos muita dificuldade em pensar em termos de finalidades: nós estamos acostumados, treinados mesmo, a pensar em termos de mecanismos, ou seja, de como as coisas funcionam, mas não em pensar para que elas existem, para que servem. Assim, o fim do ser humano passa a ser visto como algo arbitrário, relativo, individualista e mutável. Mas na verdade ele não é: temos um único fim, parecer cada vez mais com Deus, transparecer sua imagem, refletir aqui no mundo o que ele é. Assim, é claro que, no dinamismo da operação do intelecto, no ato de conhecer e querer, ou seja, na dinâmica do amor, nós nos tornamos cada vez mais parecidos com Deus.

Há, aqui, no entanto, dois riscos: o primeiro é o do intelectualismo gnóstico: achar que quem tem maior conhecimento, maior acúmulo de informações, vale mais do que quem não estudou, não teve acesso a livros, a uma educação formal de qualidade, e assim é visto como ignorante. Mas isto é falso: o conhecimento de que aqui se fala não é o conhecimento dos laboratórios, das experimentações científicas nem dos livros: aqui estamos tratando do conhecimento do virtuoso, daquele que experimenta efetivamente a vida a partir da virtude da prudência, isto é, que adquiriu sabedoria prática no viver. O conhecimento teorético pode ajudar a sabedoria efetiva, vivencial, mas nunca pode substituí-la. Assim, vale mais quem ama mais, não quem é mais estudioso; muito mais o virtuoso do que o professor doutor. Assim, é importante reafirmar que ser à imagem de Deus é um dom em nós; mas que a finalidade da vida é desenvolvê-la.

O segundo risco é o de imaginar que aquele que está acidentalmente incapacitado de pensar, seja porque ainda não obteve o desenvolvimento necessário para isto (como os bebês ainda não nascidos ou as crianças muito jovens) não tem valor, porque não pensa; este é o pressuposto oculto nos defensores do aborto e até mesmo do infanticídio, além dos defensores da eutanásia de modo geral. A inconsciência, a doença incapacitante, o desenvolvimento incompleto, tudo isto tirariam o direito de viver e daria o direito (ou o dever) de morrer ou ser morto. Este desvio desconsidera a imagem como dom e como capacidade e a limita apenas ao efetivo exercício: quem não consegue ou não pode pensar não é digno de viver, porque já não é mais (ou nunca foi nem chegará a ser) imagem de Deus.

Disso tudo podemos ver a importância do debate que será travado neste artigo: será que somente o ser humano que efetivamente pensa, sabe, quer, é imagem de Deus? Será que aquele que, por patologia ou falta de desenvolvimento, ou mesmo por senilidade, já não pode usar plenamente do intelecto e da vontade, perde a dignidade de ser imagem de Deus?

Belo debate. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial deve ser observada, aqui, com muita atenção. Ela propõe que, aparentemente, a imagem de Deus não está na mente que atua, no seu dinamismo, na sua operação, mas é algo apenas estático, que está nela apenas como dom, mas não como tarefa. A operação da mente não seria, assim, algo relacionado com o fato de que somos à imagem de Deus e podemos tornar-nos imagens ainda mais perfeita, mais completa, mais transparente. Somos imagem de modo estático, pronto desde sempre, e isso é tudo, segundo esta hipótese. Há quatro argumentos iniciais no sentido desta hipótese, para tentar comprová-la.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Segundo Santo Agostinho na obra “Cidade de Deus”, nós, seres humanos, somos feitos à imagem de Deus justamente na medida que somos, e sabemos que somos, e amamos nosso ser e nosso autoconhecimento. Ora, o ser não está na operação da mente, em sua atuação, mas na sua existência mesma. Logo, a imagem de Deus está em nós de modo estático, já integralmente manifestado apenas pelo que somos, pelo fato de que existimos, e não pela operação de nossa alma, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Ainda segundo Santo Agostinho, que, na obra sobre a Trindade, reflete na presença da imagem de Deus Trindade no ser humano, a imagem de Deus em nós se dá pelo tríplice modo de ser de nossa alma: ela é mente, conhecimento e amor. Ora, quem fala em mente não está falando na atuação da alma, mas na sua capacidade, seu potencial, ou, mais precisamente, em seu ser, sua essência mesma. A essência da alma intelectual é ser mente. Ora, capacidade, potencial e essência não são atuações, dinamismos, mas são a própria existência da alma espiritual, aquilo que ela é. Logo, a imagem de Deus não se manifesta na atuação da mente, mas é algo dado, completo, na sua existência mesma, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento vai na mesma linha do segundo; lembra que Santo Agostinho costumava distinguir a imagem da Trindade na alma humana como refletidas na autopercepção (memória de identidade), inteligência e vontade. Ora, segundo Pedro Lombardo, conhecido como o “Mestre das Sentenças”, estas são características naturais da alma humana, verdadeiras capacidades ou potências, e não atuações ou dinamismos. Logo, a imagem de Deus está nas potências da alma, e não em seus atos, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

O ser humano é sempre imagem de Deus. Mas sua alma intelectual não está sempre em atividade. Ele pode estar dormindo, ou em coma profundo, e continuará sendo à imagem de Deus. Assim, a imagem de Deus em nós não se manifesta em nossos atos, em nossos dinamismos, mas em nossa essência mesma, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Santo Agostinho, na sua obra sobre a Trindade, encontra uma analogia da Trindade nas atividades de certas partes inferiores do ser humano, a saber: no sentido da visão externa e na capacidade de visão interna, que é a imaginação a partir da nossa memória. Nestes dois casos, a analogia se dá com as atividades dessas capacidades humanas: a atividade de enxergar e a atividade de imaginar.

Ora, guardando a mesma lógica, quando falamos que a parte espiritual da alma humana guarda em si, propriamente, a imagem de Deus, pela habilidade de visão intelectual, torna-se claro que falamos, aqui, de um intelecto em ação, da própria atividade do intelecto, que é comparada por ele à visão da alma. Não se trata de uma simples questão do que nós somos, mas de considerar o modo pelo qual atuamos. Portanto, é a atividade espiritual que constitui, em nós, o fato de sermos à imagem de Deus, conclui este argumento.

5. Encerrando.

Já vimos o que ocorre quando a imagem de Deus (a dignidade humana) é atrelada apenas a determinados fatores como a idade, o sexo, a origem étnica ou a condição econômica. A humanidade viveu e ainda vive os genocídios sistemáticos atrelados a negar a dignidade a determinada categoria de seres humanos. Não somente os genocídios estatais dos totalitarismos, como o genocídio sistemático do aborto e da eutanásia, em pleno vigor e expansão. Reafirmar o dom é necessário, mas não em prejuízo da tarefa. Somos imagem. Mas devemos nos tornar sempre uma imagem finalizada, trabalhada na graça, aperfeiçoada.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.