1. Retomando.
Não há ser humano sem corpo e alma. Se o ser humano é à imagem de Deus, isso envolve o ser humano todo, corpo e alma, inteligência e sensibilidade, matéria e vida. Mas, ainda assim, é legítimo perguntar qual dimensão do ser humano constitui exatamente a semelhança que nos torna imagens de Deus.
Como não há estátua sem o material de base, como a madeira, o mármore, o bronze; mas não é acrescentando, por exemplo, mais bronze a uma estátua disforme que a tornaremos mais semelhante a Napoleão, senão imprimindo nela com mais clareza as feições de Napoleão. De modo análogo, é desenvolvendo em nós as virtudes morais e intelectuais, ordenando a nossa vida de modo a torná-la organizada de modo inteligente, que nos tornamos mais parecidos, mais imagens de Deus, e portanto mais conformes ao nosso fim. Daí a gravidade de ver, por exemplo, seres humanos caídos na miséria, desprovidos do mínimo existencial, deformados pelo álcool e outras drogas ainda mais potentes: é a própria imagem de Deus que se torna mais distante, nesses casos.
Examinemos, agora, a resposta de Tomás quanto àquilo que, no ser humano, caracteriza a semelhança de Deus de modo a configurá-lo como imagem.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Analogia no ser e no viver.
Nós já vimos, em artigos anteriores, que tudo o que é criado traz, em algum grau e de modo analógico (proporcional ou participado) alguma semelhança com Deus. As coisas inanimadas têm uma existência que as torna participantes da realidade do Ser, que em Deus é absoluto. Deus é, as coisas existem, e nisso há algum vestígio de Deus. Nas coisas vivas, há um vestígio ainda mais significativo; Deus é a própria vida, e por isso os seres vivos participam de algum modo disso que, em Deus, é absoluto: o dinamismo do viver. Existe, portanto, aí, também uma semelhança, ao modo de vestígio de Deus, nas criaturas. Mas essa semelhança em grau de vestígio não é suficiente para configurar uma verdadeira imagem.
Assim, há alguma coisa em nós, humanos, que ultrapassa a simples existência e mesmo a simples vida biológica: é a nossa vida intelectual, nossa capacidade de conhecer o fim e de nos dirigirmos a ele livremente, por nossa própria iniciativa (ainda que, ressalve-se, eventualmente movidos e apoiados pela graça de Deus).
A nossa vida intelectual é noética, isto é, está em nossa alma espiritual. É essa dimensão nossa que nos caracteriza como imagem; ela é como que a efígie de Deus em nós. A nossa mente, portanto, ou seja, a nossa alma intelectual é aquilo que caracteriza, por analogia, a participação naquilo que é mais próprio de Deus, que é a sua espiritualidade. Com relação às outras dimensões, ou seja, à nossa existência e à nossa vida biológica, são semelhanças de vestígio. Mas a nossa vida espiritual é semelhança de imagem.
Semelhança de vestígio e semelhança de imagem.
Tomás nos ensina que a existência de cinzas numa fogueira mostra a semelhança de vestígio com o fogo que existiu ali. A presença de ruínas de guerra num país mostra os vestígios da passagem do exército inimigo. Mas a presença do rosto, das feições do imperador numa moeda, vai além: mostra a semelhança de imagem do imperador na moeda. Portanto, não se trata, aqui, de uma semelhança vestigial, mas de uma semelhança advinda do fato de que a imagem e o retratado compartilham algo em comum, algo que torna a imagem especificamente capaz de representar o retratado.
Assim, nas criaturas inteligentes, há algo em comum com a natureza divina, que envolve inclusive a própria Trindade Santa, algo que torna a semelhança em nós especificamente parecida, capaz de representar a Trindade, de retratá-la em nós.
Imagens de Deus em sua natureza e em sua Trindade.
Num primeiro grau, vemos que, além de participar da existência (como todos os seres criados, mesmo os inanimados) e da vida (como todos os outros seres vivos), somos também capazes de inteligir, de pensar, como o próprio Deus o é. Deus pensa e quer, Deus conhece e ama. Nós, quando agimos assim, retratamos Deus de modo muito mais perfeito do que qualquer outra criatura que não o possa fazer. Conhecer e amar não são apenas vestígios, pistas de Deus em nós, mas são semelhança de característica compartilhada, ainda que proporcionalmente, ainda que apenas de modo participado. Pensar e querer, conhecer e amar são, pois, dimensões que nos tornam imagem de Deus em sua natureza mesma.
Mas Deus é Trindade. Ou seja, em Deus, a reflexão do pensamento leva à processão da Pessoa do Filho: o Filho é o Pai no ato de contemplação da sua própria essência. Assim, em nós, a capacidade de refletir, de contemplar Deus e contemplar a si mesmo, tudo isso é participação na processão do Filho, ao modo de imagem. Além disso, a relação maravilhosa do querer do Pai com o querer do Filho, em que ambos se querem completamente, faz espirar o Espírito Santo, personificação integral do amor entre eles. Assim, quando amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, somos imagem do Espírito Santo.
A semelhança por imagem e por vestígio em nós.
De fato, qualquer criatura, por ser contingente, limitada, finita, aponta para uma causa que não o seja: aponta para Deus. Também nós, em nossa criaturalidade, isto é, em nossa simples existência, em nosso corpo, em nossa sensibilidade, apontamos para Deus como semelhança de vestígio. O fato de que estamos inseridos numa ordem e nos encaminhamos para o fim, que é o próprio Deus, também revela essa semelhança. Nesse sentido, todo o nosso ser, em todas as suas dimensões, apresenta a semelhança com Deus, no modo de vestígio, como todas as criaturas. Mas nossa alma intelectual apresenta a semelhança de imagem. O que nos torna à imagem de Deus.
3. O primeiro argumento objetor e a resposta de Tomás.
O primeiro argumento objetor nos lembra que 1. Pois, como diz a Escritura (1Cor 11, 7), o homem é a imagem de Deus. Ora, o homem não é somente alma. Logo, a imagem de Deus não está só na alma, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Quando consideramos que o ser humano é imagem de Deus, não é que ele seja, integral e essencialmente, imagem de Deus. Trata-se de reconhecer que trazemos em nós algum traço compartilhado, que é capaz de remeter a Ele, embora essencialmente, e criaturalmente, sejamos essencialmente diferentes dele. Assim, por exemplo, a moeda, sendo uma coisa inanimada de metal, é imagem do imperador por trazer impressa a sua efígie. A efígie de Deus está impressa em nós, pela nossa alma intelectual, conclui Tomás.
4. Encerrando.
No próximo texto examinaremos os outros argumentos objetores, que são um pouco mais longos, com as respectivas respostas de Tomás.
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