1. Introdução.
Podemos dizer que uma antiga moeda do Império Romano é feita à imagem do imperador não por ser de cobre, de prata ou ouro, nem por ser um meio de pagamento, nem mesmo por ser redonda ou conter escritos, mas por ter impressa em si a efígie do imperador.
A pergunta, portanto, que se impõe agora é: o que faz com que o ser humano seja imagem de Deus? Onde se encontra essa semelhança que o faz ser referido a outro, retratar Deus, simbolizar Deus na criação?
Como a moeda que é imagem do imperador por sua efígie, mas não por seu material nem por seu formato arredondado, o objetivo, aqui, é determinar quais elementos, no ser humano, determinam que ele seja essa imagem. Quais elementos evidenciam a semelhança, quais elementos são, no ser humano, a “efígie” de Deus em Nós. Qual a importância de saber isso? Bom, sabendo qual elemento em nós retrata Deus, saberemos também qual elemento devemos nutrir, desenvolver, para alcançar a “estatura de Cristo”, como nos exorta São Paulo em Efésios 4, 13. Afinal, ser à imagem de Deus não é apenas um dom, uma característica: é também uma tarefa, uma missão. Aliás, “a” missão.
Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, que provoca o debate, afirma que a imagem de Deus no ser humano não está concretamente localizada no intelecto, ou seja, naquela capacidade humana que está localizada na sua alma espiritual. Essa condição de retratar Deus estaria, portanto, também em outros atributos ou capacidades humanas além da alma intelectual. Há quatro argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que as Escrituras descrevem o ser humano como feito à imagem de Deus. Ora, prossegue o argumento, o ser humano não é apenas intelecto: também tem corpo, sensibilidade, funções vegetativas e memória, por exemplo. Uma vez que as Escrituras não especificam que apenas a alma intelectual retrata a semelhança de Deus no ser humano, então devemos concluir que a imagem de Deus também se encontra em suas outras capacidades e dimensões, especificamente também naquelas relacionadas à sua corporeidade, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Segundo a Bíblia (Gn 1, 27), Deus criou o ser humano à sua imagem, tendo-o criado homem e mulher. Ora, prossegue o argumento, a diferença entre homem e mulher está inscrita no corpo, não no intelecto. Se a Bíblia declara que essa diferença faz parte da condição de ser imagem de Deus, isto significa que a semelhança que determina a condição de ser à imagem de Deus encontra-se também no corpo, e não somente na alma intelectual humana, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor, retomando aquela ideia de que a figura do rei, na moeda, determina o fato de que a moeda é imagem do rei, afirma que é a figura, ou seja, a efígie do retratado, que determina que alguma coisa seja imagem de outra. Assim, é a figura ou efígie de Napoleão que determina que esta estátua seja uma imagem de Napoleão, e assim por diante.
Ora, prossegue o argumento, essa aparência, ou figura, ou efígie, é uma característica material; diz respeito a um formato colocado em algum suporte material. Ora, no caso do ser humano, é claro que a dimensão material é o corpo e não a alma. Logo, o corpo está incluído na razão de imagem de Deus que define o ser humano, e não apenas a alma, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Santo Agostinho, falando sobre a noção de visão, diz que podemos falar de três níveis de visão no ser humano: a visão corporal ou física, a visão da imaginação ou memória, e por fim a visão intelectual. Ver, em nós, se realiza por um modo que, de certo modo, é trinitário: envolve alguém que vê, alguém que é visto e a própria imagem que é a visão.
Ora, se na dimensão intelectual existe a visão e existe uma imagem de Deus Trindade em nós, não podemos excluir o fato de que há outras dimensões de visão, que, portanto, determinam alguma semelhança com a Trindade em nós em outras dimensões (a física e a psicológica) que também são capazes de ver. Logo, a imagem de Deus em nós não está apenas na alma intelectual, mas nessas outras dimensões também, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra parte da ideia de que a nossa finalidade, o objetivo de nossa vida, conforme as Escrituras, é aperfeiçoar a imagem de Deus em nós. Mas, sempre que trata desse assunto, a Bíblia aponta a nossa renovação espiritual como o caminho para parecer mais com Deus. Assim, por exemplo, em Efésios 4, 23-24, São Paulo nos diz: “Renovai-vos sem cessar pela transformação espiritual de vossa mente e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade”; e, em Colossenses 3, 10, ele diz: “e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu Criador”. Assim, renovar-se para aprimorar a imagem de Deus em nós é algo que as Escrituras sempre relacionam diretamente ao crescimento espiritual, ou seja, àquela dimensão da alma na qual se encontram o intelecto humano e a vontade. Portanto, é na alma espiritual, com sua dimensão intelectual, que está a imagem de Deus em nós de modo próprio, conclui o argumento, contrariando a hipótese inicial.
5. Encerrando.
Uma vida a ser vivida de modo inteligente, razoável, no qual a dimensão espiritual domine sobre as outras. Esta é a proposta aqui. Não se trata de algum intelectualismo, porque a dimensão espiritual é muito mais densa, muito mais profunda do que simplesmente aquilo que, hoje em dia, consideramos como “intelectual”: o frio domínio das ciências e o acúmulo das informações. Não é isso. Trata-se de levar uma vida virtuosa, nos termos definidos por Aristóteles no Livro 1 da Ética a Nicômaco, e que será analisado na segunda parte desta Suma, em sua primeira metade. Em breve, com fé em Deus, chegaremos lá.
Deixe um comentário