1. Voltando.
Deus é uno e trino. Não há um Deus que, por um aspecto, seja uno e, por outro, seja trino. É um só e mesmo Deus. Já vimos isto quando estudamos as questões 27 a 43 da Suma. Não podemos nos deixar enganar pelo fato de que a Teologia estuda determinados aspectos sob o enfoque da unidade divina e outros sob o enfoque da trindade: esta é uma limitação do nosso intelecto, não é uma característica de Deus. Assim, não há maneira pela qual os seres humanos sejam à imagem de Deus sem que sejam à imagem da Trindade.
Mas isto é adiantar as coisas. Vamos examinar as próprias respostas de Tomás sobre este tema.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Deus é um. Mas as Pessoas divinas diversificam-se em suas relações, distinguindo-se quanto à origem. Esta é a única distinção entre elas: a distinção pelas relações de origem. Não há distinção quanto à própria natureza divina, nem quanto à unidade em Deus.
Ora, cada natureza tem um modo próprio de origem, que a caracteriza como aquela natureza. Assim, os seres inanimados caracterizam-se por serem gerados de um determinado modo, os vegetais de outra maneira e os animais, ainda de outra. Aquilo que cada ser é traz em si a marca de sua origem. O mesmo se dá em Deus: as relações de origem não são um acidente, algo acrescido a Deus, mas algo da própria natureza de Deus, ou seja, Trindade é aquilo que Deus é.
Portanto, se o ser humano é à imagem de Deus, não há como não admitir que ele é à imagem de Deus Trindade, porque não há outro Deus para ser retratado senão este. A natureza divina retratada no ser humano é aquela que é a única natureza divina que é Trinitária em si mesmo. Assim, os seres humanos são à imagem de Deus uno e trino. Justamente porque ser indissoluvelmente uno e trino é a única natureza de Deus.
3. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro e o segundo argumentos.
O primeiro argumento objetor, como lembramos, cita Santo Agostinho, Santo Hilário, São Gregório de Nissa e São João Damasceno para estabelecer que os atributos humanos que o tornam imagem de Deus são todos atributos de Deus Uno, e não da distinção das Pessoas Divinas; assim, os dois argumentos concluem dizendo que o ser humano é imagem da unidade divina, mas não da sua Trindade.
Tomás não achará necessário enfrentar diretamente estes argumentos. Entende que eles já estão suficientemente respondidos em sua resposta sintetizadora, que esclarece quanto à própria natureza indissoluvelmente trinitária de Deus e considera falsa a visão que divide Deus em algo uno e algo trino, como se Deus tivesse duas naturezas. Ele não tem.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que não é possível saber que Deus é Trindade em si mesmo se isto não nos for expressamente revelado por Ele. Não há caminho para conhecer, por meios naturais, a natureza trinitária de Deus. Mas toda imagem leva a algum tipo de conhecimento sobre aquilo que ela retrata. E o ser humano pode conhecer a si próprio, logo, ele pode conhecer naturalmente aquilo que ele retrata. Então, se o ser humano fosse, de algum modo, imagem da Trindade, ele poderia conhecer naturalmente a Trindade, o que não é possível. Logo, o ser humano não pode ser à imagem da Trindade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Este argumento poderia ser válido se nós fôssemos uma imagem perfeita de Deus. Mas a semelhança de Deus está em nós apenas de modo analógico, não unívoco. Como diz o IV Concílio Lateranense (1215, um pouco anterior ao nascimento de Tomás), “entre o Criador e a criatura não se pode notar tanto a semelhança, mas, principalmente, se deve notar a sua dessemelhança”. Portanto, o próprio Santo Agostinho assinala quão extrema é a distância entre os traços trinitários em nós e a Trindade divina. Ele diz, num belíssimo jogo de palavras, que “aquela trindade que está em nós, é muito mais algo que vemos do que algo em que cremos. A Trindade divina, porém, é algo em que precisamos crer para poder de algum modo ver”.
O quarto argumento objetor.
Na Trindade, chamamos de “Imagem” somente ao Filho; é um atributo seu, e não do Pai nem do Espírito, ser Imagem. Logo, ainda que disséssemos que a “imagem” da Trindade é retratada em nós, estaríamos dizendo que não somos feitos para retratar toda a trindade, mas somente o Filho. Logo, não somos à imagem da Trindade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Há uma grande tentação de dizer que o ser humano foi feito à imagem do Filho, e, de fato, muitos teólogos fizeram essa afirmação. Mas ela é equivocada, segundo Santo Agostinho.
De fato, o Filho é a imagem perfeita da Pai, inclusive na igualdade da essência divina. É o que se lê em João 14, 9. Assim, se o ser humano é à imagem do Filho, ele é necessariamente à imagem do Pai, e consequentemente, uma vez que a união de amor entre o Pai e o Filho resulta na procedência do Amor, ele também retrata o Espírito.
Isto também se prova, em segundo lugar, pela passagem de Gn 1, 26; “façamos o homem à nossa imagem”. Ora, este plural usado na criação revela que a imagem, no ser humano, reflete a distinção sem diferença que há em Deus.
Portanto, quando se diz que Deus criou o ser humano à sua imagem, não podemos entender que Deus separou a imagem do Filho para usar como modelo na criação do ser humano. Na verdade, somos à imagem da Trindade, porque somos à imagem de Deus e Deus é Trindade.
Para concluir, Tomás ressalta que há dois sentidos pelos quais se pode dizer que o ser humano é a imagem de Deus:
1. Numa primeira interpretação, pode-se dizer que o ser humano foi feito à imagem porque a imagem de Deus é o termo, o fim ao qual a nossa vida aponta. Assim, nessa interpretação, podemos dizer que somos feitos de tal modo que nossa finalidade é crescer em semelhança com Deus, em retratá-lo cada vez melhor em nossa vida, a tal ponto de se deixar elevar pea graça a viver com ele na glória. A imagem seria, assim, o dom de uma tarefa.
2. Mas há um segundo modo de interpretar: que a expressão à imagem signifique a causa exemplar, como dizemos que este livro aqui é um exemplar da Suma Teológica, ou que aquela estátua tem Napoleão como modelo. Neste caso, o modelo pelo qual fomos traçados é a essência divina, e a palavra “imagem” foi tomada um tanto forçadamente para significar modelo mesmo.
Por fim, há quem diga que é a essência divina que faz com que as Pessoas da Trindade se identifiquem; logo, ela é o fundamento da semelhança; e, neste caso, ser feito à imagem significa ser feito à moda da essência divina pela qual uma pessoa divina é imagem da outra.
Em qualquer destes casos, não podemos dividir, em Deus, a essência da Trindade. Somos imagens de Deus porque somos imagens da sua essência trinitária.
4. Concluindo.
Conhecemos naturalmente a nós mesmos. Mas isto não nos permitiria conhecer naturalmente a Trindade; ela é o analogante, nós somos o analogado, e somente sabemos que somos uma analogia da Trindade se ela se revela a nós primeiro. Mas, quando ela se revela, tudo passa a fazer completo sentido.
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