1. Introdução.

Não há mais de um Deus. Não há dois deuses. Muito menos três. Existe o “um que é três”, e este é o único Deus que há. Então não devemos ter a impressão de que há um modo “genérico” de falar de Deus como unidade e outro modo “específico” de falar de Deus como Trindade. Há apenas um Deus, e ele é trino, isto é, essencialmente uno, mas multiplicado pelas suas relações de origem em três pessoas. É o mesmo e único Deus que é relacional.

Mas em que medida nós somos a imagem de Deus em suas relações? Será que espelhamos apenas a essencialidade de Deus em sua unidade, mas não refletimos, em nossa semelhança, a riqueza de suas relações internas que o multiplicam sem dividi-lo?

O tema é muito importante. Reflete a necessidade da superação do individualismo, da autocracia, do despotismo, para incluir em Deus – e em nós – a riqueza do outro que não é senão um comigo.

Mas como poderíamos, em nossa individualidade, refletir a imagem da Trindade? Há, aqui, uma intuição de que cada indivíduo humano não esgota, sozinho, a referência a Deus, a sua semelhança; há também a intuição de que não somos monólitos despóticos, mandões, dominadores; temos uma riqueza de dimensões interiores que se manifestam como abertura ao outro, como diálogo interior que se estende à vida afetiva e social.

Estudaremos quais traços da Trindade Deus deixou em nós, para que o espelhemos assim como ele mesmo é: uno e trino, perfeitamente uniforme em sua riqueza interior, perfeitamente harmônico em suas distinções.

Mas estamos nos alongando; vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial quer introduzir uma verdadeira cisão dentro de Deus: admite que possamos ser imagem de Deus uno, ou seja, de Deus que é essencialmente um só, mas não imagem de Deus trino, isto é, de Deus que é diverso em suas relações internas. Como se houvesse, de fato, em Deus, uma unidade diferente da própria distinção das relações em três pessoas. Ou como se o Deus uno não fosse o mesmo Deus trino.

Assim, a hipótese controvertida inicial propõe que, ao que parece, a imagem de Deus que há no ser humano é apenas a imagem de Deus como essencialmente uno, mas não a imagem de Deus na sua Trindade. Há quatro argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita logo dois Padres da Igreja, Santo Agostinho e Santo Hilário. De fato, Santo Agostinho, na obra sobre a Fé de Pedro, diz que “a divindade da Trindade Santa é essencialmente única, e é à sua imagem que foi criado o ser humano”. Hilário, por sua vez, no seu estudo sobre a Trindade, diz que o ser humano é feito segundo a imagem comum da Trindade, que não pode ser senão sua divindade essencial única. Assim, a imagem de Deus no ser humano reflete a unidade essencial de Deus, mas não sua Trindade, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento cita uma antiga obra, de autoria incerta (atribuída originalmente a Santo Agostinho, mas possivelmente escrita por Genádio de Massília), chamada “Dos Dogmas Eclesiásticos”. Nesta obra, registra-se que, quando se diz que o ser humano é à imagem de Deus, isto significa que ele é dotado de inteligência, tem o livre arbítrio e tem poder de dispor de si mesmo. No mesmo sentido ensina Gregório de Nissa, que, comentando a afirmação bíblica de que o ser humano é feito à imagem de Deus, ensina que dizer isso é o mesmo que afirmar que a natureza humana foi criada como participante de todo o bem, uma vez que a plenitude da bondade está na divindade”. Ora, prossegue o argumento, todas estas coisas trazidas por estes teólogos santos dizem respeito à essência de Deus em sua unidade, e não à distinção em sua Trindade. Assim, no ser humano está a imagem da essência unitária de Deus, mas não está a imagem de sua Trindade, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Quando vemos uma imagem, somos capazes de conhecer algo daquilo que ela está retratando. Ora, se no ser humano estivesse retratada a imagem da Trindade, isto significaria que seria possível chegar a algum tipo de conhecimento natural da Trindade; ocorre que sabemos que não é possível ter conhecimento natural sobre a Trindade, já que apenas por revelação ela pode ser conhecida. Ou seja, se Deus não houvesse deliberadamente revelado, teologicamente, que Ele é Trino, nós não chegaríamos a saber disso apenas pelas forças intelectuais humanas. Por outro lado, o intelecto humano pode chegar, por forças naturais, a saber que há Deus e que ele é necessariamente uno. Portanto, é possível haver algum tipo de retrato da unidade essencial de Deus em nós, como pista para conhecê-lo. Mas não é possível haver algum meio de conhecimento que retrate naturalmente a Trindade divina, que não é passível de investigação intelectual natural. Portanto, o ser humano não é à imagem da Trindade, mas apenas da unidade essencial de Deus, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

Na Trindade, apenas ao Filho cabe chamar de Imagem; esta conceituação não pode se aplicar de nenhum modo nem ao Pai, nem ao Espírito. O próprio Santo Agostinho diz, na sua obra sobre a Trindade, que só o Filho é imagem do Pai. Ora, se o ser humano fosse imagem de Deus em sua Trindade, então ele seria imagem apenas do Filho, e não da Trindade inteira; logo, não seria imagem da Trindade. Assim, não é possível admitir que o ser humano seja imagem da Trindade, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita o próprio Santo Hilário, que, na sua obra sobre a Trindade, afirma textualmente que o fato de se dizer que o ser humano foi feito à imagem de Deus já nos mostra a pluralidade das Pessoas divinas. Assim, o ser humano é à imagem da Trindade Santa, e não simplesmente da essência unitária de Deus, conclui o argumento.

5. Encerrando.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás.