1. De volta.
Como dissemos no texto anterior, o debate, aqui, toca no centro da ferida: ser imagem de Deus é algo que está em todos os seres humanos, independentemente de sexo, idade, nascimento, pertença religiosa, ou é algo que está reservado a poucos? A tendência para excluir da condição humana aqueles que não apresentam esta ou aquela qualidade é recorrente na história da humanidade, e a resposta foi um dia dada pela revelação em Cristo. Não digo isto senão com aquele orgulho da cruz de Cristo, do qual São Paulo fala em Gálatas 6, 14. Saudado ainda no útero (Lc 1, 42), nascendo num estábulo (Lc 2, 7), vivendo uma vida de operário humilde de um lugar remoto (Mt 13, 55), morrendo a morte de um renegado desprezível, ele ressuscita e se revela como o próprio Deus entre nós. E coroa sua ressurreição com a coroação da mulher que o levou no ventre (Ap 12, 1-5), aquela que é a única a pronunciar o “faça-se” criador além de Deus (Lc 1, 38).
A imagem está na nossa natureza intelectual. Esta é uma capacidade espiritual em nós, está em todos e acada um, desde a concepção até a morte, mesmo quando atualmente já não está acessível. Veremos, agora, a resposta de Tomás, tão bela.
2. A resposta de Tomás.
Já vimos que, no ser humano, a imagem de Deus se evidencia pela alma intelectual. Ora, ela está presente no ser humano naturalmente, como capacidade e como ato. E está presente em sua estrutura espiritual, em sua alma, de tal modo que o eventual impedimento físico ou corporal, ou as patologias que impedem, por debilidade corporal ou por má formação, o uso pleno dessa capacidade, não diminuem essa imagem. A imagem de Deus pela estrutura espiritual intelectual está presente, portanto, de modo natural, em todos os seres humanos.
É certo que a natureza intelectual tanto mais se assemelha a Deus quanto mais ela funcionar da maneira que Deus mesmo se compreende e se ama. A capacidade de amor a Deus, portanto, marca a dignidade intrínseca do ser humano: ele é à imagem de Deus, porque tem a capacidade de imitar Deus naquilo que é mais próprio de Deus; no caso de Deus, é conhecer-se como ser infinitamente perfeito e amar-se infinitamente.
Isto não significa que o ser humano que não ama a Deus não é digno: estamos tratando, aqui, de capacidades, não de atos. Se o ser humano pode conhecer e amar a Deus naturalmente, ainda que de modo limitado, mas, por mau uso de sua liberdade, eventualmente não o faz, isso não diminui suas capacidades. Ele continua preservado em sua dignidade humana. Continua a ser à imagem de Deus.
Natureza, graça e glória.
Mas não há apenas a capacidade natural de conhecer e amar a Deus (que se expressa, nas diversas culturas e civilizações, pela virtude natural da religião que conduz à piedade das religiões naturais). Essa capacidade existe, como sabemos pela antropologia cultural: não há sociedade que não tenha desenvolvido algum tipo de religião para cultuar a divindade que foi reconhecida. Mesmo aqueles governos recentes que se declaram oficialmente “ateus” cultuam alguma realidade (a economia, o “homem novo”, o governante, o estado, etc.) como absoluta, prestando-lhe culto. A capacidade natural de amar a Deus é indiscutível. Mas há outros graus de amor a Deus; estes envolvem uma concessão divina recebida e livremente vivida pelo ser humano.
De fato, Deus pode conceder a graça sobrenatural para que um ser humano possa amá-lo, ainda nesta vida, de um modo mais intenso, conhecendo, em algum grau, quem ele é: a Trindade Santa revelada em Jesus encarnado, morto e ressuscitado. Assim, pela graça, o ser humano pode ter um conhecimento mais completo, mais adequado e profundo de Deus, e pode amá-lo ainda mais do que aquele amor natural que já mencionamos antes. Assim, aquele ser humano que recebe a graça e cresce no conhecimento e no amor de Deus pela incorporação à Igreja e por uma vida sacramental e de busca da santidade tem, sem dúvida nenhuma, um grau ainda maior de semelhança com Deus; isto não é, porém, um privilégio, senão um convite ao serviço e à doação, inclusive até o martírio, como foi o caminho do próprio Jesus. Assim, a graça recebida e vivida torna alguém, de modo especial, ainda mais semelhante a Deus: eleva-o a uma imagem ainda mais reluzente.
Aquele que viveu a busca de santidade pela graça, na vida terrena, alcançará, após a morte, um terceiro estágio de conhecimento e amor a Deus: a vida eterna da glória. Ali, os santos podem contemplar a Deus e viver em comunhão próxima de amor com ele pela eternidade. É o grau mais elevado de conhecimento e amor de Deus para um ser humano, e, portanto, aqueles que morreram na graça e alcançaram a glória, ou seja, os santos, são a mais perfeita imagem de Deus que se pode alcançar como ser humano.
É por isso, por causa desta distinção, que, tratando do Salmo 4, 7 (“Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz de vossa face”), a chamada “Glossa interlinear” (o comentário medieval da Bíblia) fazia a seguinte distinção: a imagem de Deus está naturalmente em todos os seres humanos, como que num primeiro grau. Num segundo grau, ela está naqueles que foram justificados pela graça. E, num terceiro e mais perfeito grau, naqueles que alcançaram a bem-aventurança final em Deus.
3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita 1 Coríntios 11 (“Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem.”), para afirmar que o homem é imagem de Deus, mas a mulher é apenas imagem do homem.
A resposta de Tomás.
Tomás afirma que a imagem de Deus está plenamente no homem e na mulher, de modo essencial e substancial, o que se evidencia em Gênesis 1, 27: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher”. Ora, como diz Agostinho, há o cuidado em citar ambos, aqui, para ficar evidente que a imagem está em ambos, e a diferença sexual é originária, faz parte dos planos de Deus.
Mas, num plano secundário, diz Tomás, há a diferença sexual, que faz com que homem e mulher estejam em função um do outro. São Paulo, com a forte marca da cultura do seu tempo, aponta a mulher como “saída do homem”, e por isso tanto ele quanto o próprio Tomás parecem sinalizar que o homem é, na diferenciação sexual, mais à imagem de Deus do que a mulher, porque esta foi criada para aquele. Mas uma leitura mais atenta, como aquela que João Paulo II faz nas chamadas “catequeses de teologia do corpo”, mostra que é necessário reler com cuidado esse trecho da Primeira Carta aos Coríntios, porque o próprio Paulo, mais abaixo (versículo 12 do mesmo capítulo) afirma que “a mulher foi tirada do homem, porém o homem nasce da mulher, e ambos vêm de Deus”, sinalizando que a diferença sexual não altera a dignidade intrínseca da imagem de Deus em nós. Portanto, para além da limitação cultural de São Paulo (e do próprio Tomás) existe a condução do Espírito Santo, que aponta para a igualdade na dignidade da imagem.
O segundo e o terceiro argumentos objetores.
O segundo argumento quer defender que os eleitos, ou seja, aqueles que receberam a graça da conversão e do batismo, são os únicos a ostentar verdadeiramente a imagem de Deus. O terceiro argumento vai mais longe: somente os justos, e não os pecadores, podem ostentar essa imagem.
A resposta de Tomás.
Na verdade estes argumentos já foram respondidos, diz Tomás, na própria resposta sintetizadora: o fato de que, na glória, os bem-aventurados conformam-se a Deus tanto quanto é possível a um ser humano, e de que a vida na graça é mais semelhante à vida de Deus do que a vida simplesmente natural não apaga o fato de que todo ser humano é à imagem de Deus, e nem a falta de fé, nem a pertença a um contexto religioso estranho ao cristianismo, nem o pecado, nem a rejeição radical a Deus retiram do ser humano seu “ser à imagem” de Deus. Mas é claro que a graça e a glória, por trazerem uma assimilação sobrenatural a Deus, fazem-nos imagens ainda mais claras dele. Nos santos, Deus está retratado com admirável fidelidade, ainda que de modo analógico.
4. Concluindo.
Parecer-se com Deus cada vez mais intensamente. Eis o único fim do ser humano, seja ele o ser humano que for. A semelhança que nos torna à imagem de Deus é um dom indelével. Mas nem por isso deixa de ser uma tarefa.
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