1. Introdução.
Seria difícil que a nossa civilização tivesse chegado à noção da dignidade intrínseca da pessoa sem as intuições cristãs. A morte brutal de Jesus abriu uma sensibilidade à justiça, entre seus seguidores, e a sua humanidade, que representou um rebaixamento infinito desde a sua divindade, nos alertou sobre a universalidade da condição humana. Aquela pertença a um povo, que, para os antigos judeus, envolvia a pertença genética e política a uma nação em especial, torna-se um chamado a quem vier a receber o batismo. Mas o batismo eleva aquilo que já existe: a imagem de Deus em nós. Não há graça ali onde não há natureza a ser elevada.
Talvez, nos dias de hoje, negássemos essa imagem aos não-nascidos, sujeitando-os ao aborto, aos idosos, deficientes e terminais, sujeitando-os à eutanásia, e aos criminosos e viciados crônicos, sujeitando-os à pena de morte; ainda não aprendemos o que significa, de fato, crer que todo e qualquer ser humano é à imagem de Deus.
Lembrar que todo e qualquer ser humano é imagem de Deus, mesmo aquele em situação de coma irreversível, ou em estado terminal, ou mesmo aquele concebido mas ainda não nascido, ou aquele intoxicado de substâncias entorpecentes ou transido de frio e fome, não é algo que a cultura pode alcançar simplesmente: de fato, nenhuma cultura, antes da revelação cristã, veio a alcançar. E mesmo depois dela, ainda vemos defesas pretensamente científicas da superioridade de raça, de gênero ou mesmo de condição de saúde, ou mesmo a eugenia escondida sob certas proposições econômicas ou biológicas.
Eis, portanto, a importância deste artigo: seus argumentos objetores iniciais querem excluir da imagem de Deus (e portanto da dignidade comum) tanto as mulheres, como os não-eleitos (não integrantes da igreja) e, por fim, os pecadores. Reafirmar a dignidade intrínseca dessas categorias é dar bases sólidas aos direitos humanos. E Tomás o faz com maestria, há cerca de 800 anos. Ou seja, declara, em termos impecáveis, aquilo que um dia Deus fez e Jesus revelou, construindo as bases para a cultura de respeito ao ser humano. Respeito cuja âncora está no céu.
Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, como já sabemos, é proposta como uma provocação para iniciar o debate. Ela manifesta uma posição rígida, que manifesta algo não meditado, não aprofundado, e normalmente equivocado, sobre o tema. No caso presente, é a posição de que nem todo ser humano tem a mesma dignidade intrínseca, isto é, a imagem de Deus não se manifesta em toda e qualquer pessoa humana, mas apenas em alguns. Assim, segundo essa hipótese, haveria seres humanos menos dignos, que estão radicalmente desprovidos da imagem de Deus em si. Como veremos, o artigo propõe que as mulheres, os não-eleitos (ou seja, os não-cristãos) e os pecadores estão desprovidos dessa imagem. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores.
O primeiro argumento objetor.
Na Primeira Carta aos Coríntios (11, 17), São Paulo diz que “Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem”. Ora, tanto os homens quanto as mulheres pertencem à espécie humana, mas os homens são imagem de Deus e as mulheres são apenas imagens dos homens, segundo o Apóstolo. Assim, nem todo ser humano é imagem de Deus, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Aqui, cita-se também um escrito paulino, especificamente a Carta aos Romanos (8, 29), que trata da predestinação. Tratando desse assunto, diz São Paulo: “Os que ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos”. Nem todos os seres humanos são predestinados; portanto, nem todos serão conformados à imagem do Filho. Logo, há seres humanos que não são à imagem de Deus, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A semelhança é o elemento central da noção de imagem. Mas o pecado é aquilo que afasta o ser humano de Deus, porque nada pode ser mais diferente de Deus, no ser humano, do que o pecado. O pecador torna-se, portanto, dessemelhante a Deus. Assim, o pecador não é à imagem de Deus, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra, ou seja, aquele argumento que apresenta uma posição de alguma autoridade contra a hipótese inicial, demonstrando sua imprecisão, insuficiência ou equívoco, traz, aqui, mais uma citação bíblica; é o salmo 39 (38), 7, que diz que o ser humano passa como uma sombra, ou seja, caminha como uma imagem refletida, mesmo que esmaecida. Isso envolve, pois, todos os seres humanos, e não apenas os de sexo masculino, eleitos ou justos, conclui o argumento.
5. Encerrando.
A hipótese controvertida, aqui, toca no centro da ferida: ser imagem de Deus é algo que está em todos os seres humanos, independentemente de sexo, idade, nascimento, pertença religiosa, ou é algo que está reservado a poucos? A tendência para excluir da condição humana aqueles que nã apresentam esta ou aquela qualidade é recorrente na história da humanidade, e deve sempre ser repelida com a maior veemência. No próximo texto, veremos como Tomás o faz, lançando as bases para a universalidade da dignidade humana.
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