1. Voltando.

Somos marcos de Deus no mundo material. Somos como que a moeda com o rosto do rei, que torna visível seu governo naquele território; os anjos seriam mais como a soberania do rei, abstratos, mas reais. Nós somos as estátuas que o imperador coloca nos limites do seu território, os anjos são mais como a justiça que ele exerce, as ordens que ele emite: intangíveis, mas efetivos. Assim, do ponto de vista da expressão do poderio do rei, as estátuas são imagens num sentido mais linguístico, porque são simbólicas, unem o rei ao seu povo, mesmo que ele não esteja fisicamente ali.

Poderíamos dizer que, neste sentido, os seres humanos são verdadeiros símbolos de Deus, tomando a noção de símbolo no seu sentido clássico, grego, daquilo que, ao juntar duas metades, expressa uma identidade. Sabemos que os velhos comerciantes da Grécia antiga quebravam uma medalha em duas partes, dando metade dela àquele com quem negociava, de tal maneira que o portador de cada metade seria capaz de reconhecer o portador da outra metade como o detentor do crédito, mesmo que não o conhecesse pessoalmente. O símbolo, reunido, identifica as duas partes como relacionadas entre si. Assim, como criaturas que são, a um só tempo, materiais e inteligentes, os seres humanos realizam melhor esse sentido de imagem como símbolo.

Os anjos, no entanto, pela agudeza e pela profundidade de sua inteligência, realizam o sentido de imagem de uma forma muito mais perfeita, se tomamos esta noção no seu sentido absoluto de criatura inteligente. Sua inteligência é muito mais semelhante à inteligência de Deus. Mas não é tanto disso que estamos tratando aqui, senão da imagem como símbolo mesmo; neste sentido, nós o somos mais completamente do que eles.

Mas voltemos ao exame das respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, numa velha homilia, Santo Agostinho afirma que somente o ser humano, e a nenhuma outra criatura, Deus concedeu ser feito à sua imagem. Logo, não há nenhum sentido em que possamos dizer que os anjos sejam mais à semelhança de Deus do que os seres humanos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O que Agostinho nos ensina, nessa homilia, é que nenhuma criatura sem inteligência pode ser considerada como tendo sido feita à imagem de Deus em sentido próprio; ou seja, ele exclui todas as outras criaturas corporais. Mas não exclui os anjos, e nem poderia.

O segundo argumento objetor.

Num outro escrito seu, Santo Agostinho nos ensina que o ser humano é de tal modo imagem de Deus que não há nenhuma criatura entre ele e Deus, isto é, nenhuma criatura estaria mais próxima dessa noção de imagem do que o ser humano, nenhuma expressaria melhor essa realidade de ser imagem do que o ser humano. Logo, os anjos não podem ser considerados como sendo feitos mais à imagem de Deus do que os seres humanos em nenhum sentido, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás responderá aqui com uma analogia: a ciência nos diz que o calor é próprio do fogo; isto é, não há nenhum fenômeno que possa ser considerado mais quente, mais rico em calor, do que o fogo. No entanto, há vários tipos de fogo, e eles diferem na intensidade do calor. A queima de uma folha de papel, por exemplo, libera menos calor do que a queima de carvão mineral.

De um modo similar, diz-se que nada é mais próximo de Deus do que a mente criatural, por sua inteligência. D e fato, todas as criaturas inteligentes são, por sua inteligência, imediatamente próximas de Deus. Não há criatura que, não sendo inteligente, possa ser mais próxima de Deus do que uma criatura inteligente. Mas isso não significa que não haja graus de inteligência, e que, portanto, quanto ao grau de sua inteligência, o anjo seja, absolutamente falando, mais semelhante a Deus do que o ser humano. E, neste sentido, seja feito, de maneira mais intensa, à sua imagem.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento admite que a imagem de Deus está justamente na semelhança intelectual. Ora, prossegue o argumento, a inteligência é justamente a abertura ao conhecimento de tudo; logo, ela não pode ser classificada em graus, não pode ser hierarquizada, não pode ser comparada. Um ser inteligente é inteligente substancialmente, não é inteligente por acidente. Assim, não se poderia quantificar a inteligência: ou uma substância é inteligente ou não é. Portanto, não se poderia dizer que o anjo é mais semelhante a Deus pela inteligência do que o ser humano, e, nesse sentido, ele não pode ser considerado como feito mais à semelhança de Deus do que nós, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que uma substância não pode ser classificada em graus, ou mesmo hierarquizada em si mesmo, porque ela é o que ela é. Mas isto não significa que não haja graus de perfeição entre as substâncias, quando digo, por exemplo, que uma substância viva possui um grau de perfeição no ser que é maior do que aquele de uma substância inanimada. Também posso reconhecer que um indivíduo de uma espécie pode apresentar de modo mais completo as características de sua espécie do que outro, como uma mosca que perdeu a asa apresenta um aspecto que não esgota as características de sua espécie: não pode voar, como é próprio das moscas. Neste sentido, uma mosca sem asas participa de modo menos intenso das propriedades de sua espécie do que outra que tenha as asas íntegras.

Não é, portanto, equivocado dizer que os anjos possuem aptidões de inteligência mais perfeitas, mais agudas, do que as aptidões humanas. Anjos não precisam estudar, pesquisar, aprender: sua inteligência já contém em si todo o conhecimento intelectual que os caracteriza. Os anjos têm inteligência atual. Nós, humanos, ao contrário, temos uma inteligência marcada sempre pela potencialidade, mesmo após uma vida intensa de estudos e pesquisas. Assim, neste sentido absoluto, quanto ao aspecto da semelhança, podemos admitir que eles são mais à imagem de Deus do que nós. Como símbolos da presença de Deus na criação, no entanto, ou seja, relativamente ao conjunto da criação, nós somos mais à imagem do que eles.

3. Concluindo.

Nada mais a acrescentar. Eis a beleza do que somos, eis o cuidado com que Deus colocou em nós a sua imagem: fez os anjos mais inteligentes, para que não pudéssemos sequer nos vangloriar da nossa semelhança com Deus.

Há um último sentido em que o ser humano é imagem mais perfeita de Deus: Jesus. O Filho encarnou-se, e essa encarnação é de uma vez por todas. A ressurreição colocou a humanidade dentro mesmo da Trindade. Jesus encarnado é a imagem. Nós e os anjos somos feitos à imagem. Não é difícil perceber a diferença.