1. Introdução.
Se a inteligência é o atributo que marca a imagem de Deus nas criaturas, ela se apresenta muito mais evidente nos anjos do que em nós. De fato, os anjos, como já tivemos oportunidade de estudar, são mentes que pensam em si mesmas: existem no próprio pensamento. São pura inteligência, e neste sentido têm esse atributo de maneira muito mais pura, muito mais completa, sem manifestar nenhuma materialidade, nenhuma corporeidade; Deus não é corporal, como sabemos. Nós somos. Restaria, então, reconhecer que os anjos são muito mais semelhantes a Deus do que nós. Então serão eles as verdadeiras “imagens de Deus” no mundo criatural? Examinemos.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial propõe que os anjos não são muito mais “à imagens de Deus” do que os seres humanos. Parece que, ao defender que a imagem de Deus se concentra na natureza intelectual, não haveria saída senão admitir que os anjos representam-no muito melhor neste aspecto, e que, quanto mais nos assemelharmos aos anjos, tão mais nos assemelharemos a Deus. Existem três argumentos objetores iniciais que querem comprovar esta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor resgata uma meditação de Santo Agostinho sobre o tema da imagem de Deus, no qual ele afirma expressamente que “Deus não concedeu a nenhuma criatura, senão ao ser humano, ser à sua imagem. Assim, diz o argumento, não é possível admitir nenhum sentido no qual a imagem de Deus esteja mais no anjo do que no ser humano, conclui.
O segundo argumento objetor.
Ainda bebendo nas fontes de Santo Agostinho, o segundo argumento objetor cita uma passagem de uma das suas obras de reflexão, na qual ele diz que o ser humano é de tal modo feito à imagem de Deus que não há nenhuma criatura que possa estar à sua frente neste aspecto; ele está unido a Deus de tal modo que nada poderia estar mais unido a Deus do que ele. Assim, o anjo não pode ser considerado como mais à imagem de Deus do que o ser humano, sob nenhum ponto de vista, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O critério para dizer que uma criatura é feita à imagem de Deus é o fato de que ela seja naturalmente inteligente. Ora, a inteligência é uma dimensão substancial, e não se pode dizer que ela exista de forma graduada nas criaturas: não existe “mais inteligência” ou “menos inteligência”, porque a inteligência é definida justamente como uma essência aberta à apreensão do infinito. A inteligência não é um acidente acrescido a uma natureza, não é quantificável, mas é um modo de ser. Logo ninguém poderia dizer que uma criatura é feita mais à imagem de Deus do que outra, se ambas são inteligentes. Assim, o anjo não é, sob nenhum aspecto, mais à imagem de Deus do que o ser humano, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita São Gregório, que, numa homilia, afirmou que os anjos são chamados de carimbos de semelhança, porque neles a semelhança de Deus mostra-se melhor estampada”. Logo, deve haver algum sentido em que os anjos sejam mais propriamente à imagem de Deus do que os seres humanos, conclui o argumento.
5. A resposta de Tomás.
Aqui, Tomás vai fazer mais uma de suas maravilhosas distinções. De fato, ele lembra que a expressão “feito à imagem de Deus” pode ter dois sentidos:
1) Ela pode se referir à natureza intelectual de uma criatura. Assim, uma criatura que é, por essência, inteligente, pode ser considerada como feita à imagem de Deus. Se tomamos a expressão neste sentido, então a imagem de Deus está mais nos anjos do que nos seres humanos, porque eles são intelectualmente muito mais poderosos do que nós. São puro intelecto existente.
2) Pode-se considerar a noção de feito a imagem de Deus como expressão de uma semelhança que torna visível certa presença, certa similaridade que revela o retratado. Assim, o homem é inteligência mergulhada no mundo material, e capaz de fazer proceder de si outro ser humano, como Deus procede de Deus na Trindade. Além disso, nossa alma espiritual anima nosso corpo material, estando presente nele em toda parte, como o Espírito de Deus anima a criação material, estando presente ao mundo, e o mundo presente a ele, como a nossa alma está presente ao nosso corpo e nosso corpo presente a ela.
Segundo este segundo sentido, a imagem de Deus está mais propriamente no ser humano do que no anjo. O ser humano faz-se marca de Deus na criação material, com a qual é solidário pela corporeidade, embora, é claro, sua semelhança venha daquele primeiro sentido, ou seja, do fato de ser criatura inteligente. Porque, se a semelhança viesse apenas da criaturalidade, ou seja, de ser expressão do poder criador de Deus, teríamos que afirmar que toda a criação é à imagem de Deus; e isso, como já vimos nos artigos anteriores, não é verdade.
Assim, num sentido absoluto, de semelhança por causa da capacidade intelectual, temos que admitir que os anjos o são de modo muito mais perfeito do que nós. Mas se consideramos a dimensão da presença, da visibilidade da semelhança de Deus na criação material, nós o somos num sentido mais próprio do que os anjos; estes não participam da criação material, nem são marcos visíveis dessa comunhão com Deus pela inteligência, pelo logos, como nós, humanos. Neste sentido, por esta dimensão de sinal, somos mais propriamente imagens de Deus do que os anjos.
6. Encerrando.
No próximo texto, veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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