1. Introdução.

A analogia é uma dimensão interessante; ela designa aquelas coisas que, embora não se possam descrever como “unívocas”, trazem em si algum aspecto relacionado. Não são simplesmente coisas semelhantes, no sentido de que, por exemplo, uma nuvem se assemelha a um floco de algodão, mas não é análogo a ele.

Hoje, nós temos a tendência a ver a analogia como um “jeito de falar”, como um recurso de retórica. Nós podemos, por exemplo, descrever um remo como algo “análogo” a uma nadadeira, não porque acreditemos que realmente há algo no remo que o torna proporcional a uma nadadeira, mas porque é um modo de falar sobre ele. Mas para os clássicos e para a filosofia do tempo de Tomás, não há essa fratura entre aquilo que as coisas são e aquilo que nós falamos sobre elas. Assim, há realmente algo no remo que o torna análogo a uma nadadeira, e isto não é apenas algo que falamos sobre o remo e as nadadeiras. É isto que significa a expressão analogia entis, ou analogia do ser. A analogia pode ter duas dimensões: a analogia por atribuição ou a analogia por proporção.

Falamos que as coisas são análogas por atribuição quando todas participam de uma noção comum. Assim, podemos falar que um uniforme é militar, que uma viatura é militar, ou que um prédio é militar, embora, univocamente, militares sejam apenas as pessoas que estão incorporadas às forças armadas. Analogicamente, as coisas que os militares usam são análogas por atribuição.

As coisas são análogas por proporção quando aquela noção se realiza perfeitamente num determinado ser, mas se realiza proporcionalmente nos outros. Assim, por exemplo, a noção de paternidade se realiza propriamente na Trindade Santa, mas se realiza proporcionalmente nos genitores humanos. Por isso, os genitores humanos são pais em sentido análogo àquele pelo qual, na Trindade, Deus é pai. O mesmo quanto ao fato de que nós, criaturas, existimos: somente Deus é, somente dele é que podemos declarar o ser. Nós, criaturas, somos ou existimos apenas num sentido analógico, participado e proporcional.

Portanto, se a analogia implica algum grau de semelhança (ainda que seja uma semelhança na função, na participação, na proporção) e essa semelhança não é apenas retórica (quer dizer, não é apenas um modo de falar), então é justo perguntar: todas as coisas são, em algum grau, imagem de Deus? Mesmo as inanimadas, mesmo as irracionais?

É o que debateremos agora, nos próximos textos.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial é a de que, uma vez que toda criatura, seja inanimada ou viva, seja sensorial ou racional, guarda muitas semelhanças, ainda que apenas num sentido analógico, com Deus, então toda e qualquer criatura, inclusive as inanimadas e irracionais, é à imagem de Deus. Há quatro argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor traz um argumento retirado dos escritos do Pseudo-Dionísio, que diz que todas as coisas que são causadas pro outras trazem em si, de alguma maneira, ainda que muito limitada, a imagem daquilo que as causou. Ora, todas as criaturas são causadas, apenas Deus não tem causa de modo algum. Se, portanto, elas trazem em si, ainda que de modo contingente, a marca daquilo que as causou, e se toda criatura é, em última instância, causada por Deus, então todas as criaturas, mesmo as inanimadas e irracionais, são à imagem de Deus, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que aquilo que é imagem de outra coisa se caracteriza por trazer em si uma semelhança muito intensa com aquilo que é retratado. Quanto mais uma coisa é claramente semelhante, mais ela se aproxima da razão de imagem. Ora, prossegue o argumento, segundo o Pseudo-Dionísio, o raio de sol é maximamente semelhante à bondade de Deus. Ora, se algo se torna mais capaz de ser imagem na proporção que se assemelha mais ao que é retratado, então algo que se parece maximamente com Deus deve certamente ser considerado como imagem de Deus. Ora, o sol é algo inanimado, e, no entanto, conforme o argumento, realiza a razão de imagem de Deus. Logo, mesmo as coisas inanimadas ou irracionais podem ser consideradas como imagens de Deus, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Este terceiro argumento tem um tom coletivista. Ele parte da ideia de que , quanto mais uma coisa é boa, tanto mais é semelhante a Deus. Ora, o todo da criação pode ser reconhecido como portador de uma bondade mais completa do que apenas uma das coisas individuais que compõem a criação. Tanto assim que Deus, ao contemplar toda a sua criação, declara que ela, em seu conjunto, é muito boa (Gn 1, 31). Assim, o todo do universo possui muito mais a razão de imagem de Deus do que um simples indivíduo humano, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento traz uma citação de Boécio, o grande filósofo cristão da antiguidade tardia. De fato, Boécio diz que “Deus conduz o mundo a partir de seu Espírito, e modela no mundo coisas que refletem aquilo que está em sua própria imaginação”. Ora, se é assim, todas as coisas criadas trazem em si a imagem de Deus, não apenas os seres humanos, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Como já sabemos, após os argumentos objetores iniciais, o artigo sempre apresenta um argumento contrário à hipótese controvertida, e geralmente retirado de alguma fonte com autoridade; esse argumento impede a aceitação acrítica da hipótese inicial, e dá a tensão que será resolvida pelas respostas de Tomás.

O argumento sed contra vai buscar, aqui, nada menos do que a autoridade de Santo Agostinho. No comentário ao Gênesis, Santo Agostinho diz que aquilo que o ser humano tem de mais elevado, que o faz dotado de uma dignidade excelsa, é o fato de, uma vez que somos imagem de Deus, sermos dotados espiritualmente de uma mente intelectual, que nos torna superiores aos animais. Portanto, o fato de que os outros seres não têm um espírito, um intelecto, faz com que não possam ser tidos como feitos à imagem de Deus, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Um indivíduo, diz Maritain na sua obra “Três Reformadores”, está submetido às estrelas; mas, como pessoa humana, ele as supera e domina. Isto é muito interessante: a dignidade de pessoa existe, para o ser humano, porque ele é imagem de Deus. Isto dá uma altura ao ser humana, mas não para alimentar a soberba, senão para provocar a responsabilidade.

Mais sobre isto no próximo texto.