1. De volta.

Belíssimo debate, que envolve a imagem de Deus em nós. De fato, é uma imagem distante, imperfeita, mas existe. Para nós, pessoas de hoje, acostumados a pensar em termos unívocos, é muito difícil pensar analogicamente, como faziam os antigos; se o fizéssemos, seríamos capazes de entender o que foi muito belamente definido no V Concílio de Latrão, que ocorreu alguns anos antes do nascimento de Tomás de Aquino. Este Concílio, citado no Catecismo da Igreja Católica, § 43, estabeleceu que “entre o Criador e a criatura, não é possível notar uma semelhança sem que a dissemelhança seja ainda maior”. Ora, a chave da analogia consiste justamente na proporcionalidade, que se apresenta justamente na diferença: somente Deus é subsistente, somente Ele é bom, somente Deus é santo, isto tudo é certo. Mas há, em nós, uma bondade, uma santidade, uma existência que é participada, proporcionada a nossa finitude existencial, analógica, portanto, à de Deus. Não concorre com a dele, nem retira dele ou diminui seus atributos absolutos, mas existe de fato em nós. Aí está a raiz de nossa imagem imperfeita de Deus.

Este modo de pensar a imagem de Deus em nós, pela analogia, permite compreender os ensinamentos de Tomás a este respeito. Mas não vamos nos alongar mais: melhor do que falar de Tomás é examinar suas próprias respostas. Vamos a elas.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Isaías 40, 18 (“A quem poderíeis comparar Deus, e que imagem dele poderíeis oferecer?” para afirmar que, segundo a Bíblia, nenhuma imagem de Deus seria sequer possível, muito menos dizer que o ser humano é algum tipo de imagem dele, conclui.

A resposta de Tomás.

Nessa passagem bíblica, o profeta Isaías não está se referindo ao ser humano, não está negando que o ser humano seja imagem de Deus. Ele está criticando os ídolos, ou seja, estátuas e imagens feitas por mãos humanas que supostamente procurar retratar Deus. Na verdade, o ser humano não é uma imagem forjada, fabricada, de Deus, como são os ídolos. A imagem de Deus em nós foi impressa pelo próprio Deus, conclui Tomás. Por isso é verdadeira, ainda que analógica.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor cita Colossenses 1, 15: “Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a Criação”. Há, portanto, apenas uma imagem de Deus, que é o Primogênito; este, segundo a Bíblia, reflete Deus de maneira unívoca. Logo, os seres humanos não são à imagem de Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, apenas o Primogênito de toda criatura é a imagem perfeita de Deus e o reproduz de modo completo e indefectível. Dele, do Filho único de Deus, dizemos que é a “imagem”, e não que foi “feito à imagem”, como os seres humanos em geral, que de Deus trazem apenas uma pálida semelhança. O Filho é imagem, nós somos “feitos à imagem”, ou seja, a imagem de Deus é o modelo, o projeto, a perfeição da qual somos um reflexo distante e imperfeito.

E Tomás faz uma comparação, retirada de Santo Agostinho, para que possamos entender: quando um rei tem um filho, esse filho é a imagem perfeita do rei, e se destina, ele próprio, ao reinado. Traz em si a mesma natureza do seu pai. Mas quando alguém cunha uma moeda com a cara do rei impressa nela, dizemos que essa moeda traz a imagem do rei, ou seja, ela foi feita à imagem, mas não é uma imagem perfeita do rei. Ao contrário, por uma semelhança tosca e distante, ela é apenas uma imagem muito imperfeita daquele rei.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento cita Santo Hilário, que, a respeito da imagem, dizia que ela traz em si a mesma species, ou seja, a mesma forma estrutural da coisa à qual é semelhante. Além disso, ele diz que, para que algo seja imagem de outra coisa, elas compartilham, de modo indiferenciado, aquilo que as torna perfeitamente semelhantes. Ora, não existe nenhuma species, nenhuma forma estrutural, que nós possamos compartilhar de modo indiferenciado com Deus, porque Deus não é igual em nada a nenhuma de nós, ou a nenhuma coisa criada. Assim, não se pode admitir dizer que o ser humano é à imagem de Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Estamos aqui no campo filosófico. Basicamente, o que o argumento está dizendo é que toda imagem deve ser unívoca com relação àquilo de que é imagem. De fato, quando a imagem reflete a mesma species que a coisa retratada, há imagem no sentido unívoco, seja quanto à unidade da coisa, seja quanto à sua espécie, seja quanto ao seu gênero. Assim, o retrato de Napoleão é unívoco individualmente com relação a Napoleão quando tem as feições de Napoleão. Um pintor, porém, que quer retratar um cavalo qualquer, deve pintar a forma do cavalo, a species equina, em seu quadro. Um retratista que queira representar uma imagem genérica de um animal pode retratar qualquer animal, que atingirá seu objetivo. Nestes casos todos, a imagem se relaciona com o objeto do qual ela é uma imagem por uma relação de univocidade. Dizemos, da imagem e da coisa retratada, que são o mesmo em sentido unívoco.

Mas não é este o mesmo modo de se retratar as coisas. Podemos retratar algo que guarda proporção ou conveniência com outra, embora não de maneira unívoca. Esta é a relação de imagem por analogia. Para retratar, por exemplo, a soberania de um rei, um escultor poderia representá-lo como um belo e imponente leão, significando que o poder daquele rei guarda proporção com a majestade do leão. Ou poderíamos dizer que a liberdade, a beleza e a bondade, qualidades limitadas e relativas num ser humano, são imagens da liberdade plena, da beleza infinita e da bondade absoluta de Deus, analogicamente. Assim, existe a imagem perfeita (como a imagem de Deus refletida em Jesus) e existe a imagem imperfeita, em sentido analógico, como aquele reflexo proporcionado de Deus que marca todo ser humano.

3. Concluindo.

A imagem de Deus no ser humano marca, como já dissemos, um dom e uma tarefa, e persegui-la nos liberta.

Nos próximos textos, veremos mais profundamente os limites e a natureza dessa imagem.