1. Retomando.
Ser imagem de Deus. Ser as grandes imagens daquele que é o mais sagrado, o mais elevado, o mais amoroso, ou melhor, o próprio amor. É assim que surgimos, foi assim que fomos criados, é para isso que existimos, é isso que devemos perseguir. Esta é a razão de nosso ser e o objetivo de nossa jornada. Se descobrimos e aceitamos pessoalmente que ser a imagem de Deus é o que há de mais profundo, de mais necessário, de bem último para nós, passamos a conhecer nossa plenitude, nosso fim, para o qual nos encaminhamos. Tornamo-nos livres, por conhecer a verdade. Ser imagem é algo que, de certo modo, já se realiza em nós por sermos criaturas inteligentes; mas também é uma tarefa, que somente na graça realizaremos. Assim, somos livres quando conhecemos o fim, somos livres quando, com a graça, livremente nos encaminhamos a ele.
Há, neste ponto, uma diferença entre a teologia católica e os principais ramos da teologia protestante. Para nós, católicos, a imagem de Deus, como existe em nós por sermos criaturas inteligentes e livres, não se perde pela queda. Perdemos, isto sim, a graça que recebemos na criação, e que nos capacitava a entrar em relação com Deus e atingir o fim, a estatura de amigos de Deus, o reflexo límpido e consumado de sua imagem. A queda fere, portanto, a nossa natureza – que é feita para ser elevada pela graça, e fica desprovida dessa elevação – mas não a destrói, naquilo que reflete, em si mesma, a imagem de Deus. A salvação que nos é oferecida em Cristo nos devolve essa graça.
Para Lutero, porém, a queda destrói a própria imagem que há na natureza humana. Não é apenas a graça que é perdida pelo pecado original, mas a própria natureza humana está irremediavelmente destruída em qualquer tipo de imagem, de reflexo da bondade de Deus em sua natureza. Isso é irremediável. Então a salvação em Jesus não vai nos tornar pessoalmente imagem de Deus em nenhum momento: continuaremos feridos, destruídos em qualquer grau de reflexo de Deus em nós. Mas Jesus nos cobre com seu manto de graça, e é apenas por essa graça, que esconde nossa destruição aos olhos de Deus, que somos salvos. Por sob esse manto de graça, somos lastimáveis, e o seremos por toda a eternidade.
Em todo caso, essas diferenças estão sendo debatidas entre os grandes teólogos, e já existe um documento em que a Igreja Católica declara seu respeito pela discordância e, junto com autoridades luteranas, busca um caminho comum para superá-las. É a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, entre a Federação luterana mundial e a Igreja católica, assinada em 1999. Maravilhoso passo de ecumenismo.
Examinemos, em seguida, a resposta de Tomás a este debate sobre a imagem de Deus em nós, e o que isto significa.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Imagem e semelhança.
Tomás vai resgatar, agora, o ensinamento de Santo Agostinho sobre a imagem e semelhança. O que é imagem? O que é semelhança? Qual a diferença entre imagem e semelhança?
Santo Agostinho ensina que em toda imagem há semelhança. Se olho para o retrato de alguém, vejo a semelhança entre o retrato e o retratado, de modo a reconhecer que o retrato é, neste caso, imagem do retratado.
Mas nem sempre que há semelhança, há imagem. Posso olhar para uma nuvem no céu e achar que ela é semelhante a um carneirinho; mas nem por isso ela é a imagem de um carneirinho. Assim, a semelhança é da essência da imagem, mas há, na imagem, alguma coisa mais do que uma simples semelhança. Toda imagem traz semelhança, mas nem toda semelhança é uma imagem.
Então, cabe perguntar: o que é necessário para que digamos que alguma coisa semelhante é uma imagem de outra coisa? É preciso que esta coisa seja a expressão da outra coisa. A imagem aponta para a coisa retratada, exprime sua semelhança, refere-se a outra coisa. A imagem é uma semelhança com expressão de outra coisa, em suma.
Semelhança, igualdade e imagem.
As coisas podem ser semelhantes sem serem imagens umas das outras, justamente por faltar essa dimensão da expressão, da intenção de representação. Um ovo é sempre semelhante a outro, mas não podemos dizer que um ovo é imagem do outro.
Por outro lado, a igualdade não é, em si mesma, da razão da imagem. Um ovo é igual ao outro,
Por onde, por mais que um ovo seja semelhante e igual a outro, como, todavia, não é a expressão deste, não se diz que seja a imagem do mesmo. Mas um rosto humano não é igual à sua imagem no espelho: no rosto humano, há carne e osso, cabelos, órgãos, etc. No espelho há apenas metal e vidro refletindo a luz, inclusive de modo apenas bidimensional. No entanto, aquela reflexão do rosto no espelho é, de fato, imagem do rosto, porque é expressão dele. Refere-se a ele. Podemos dizer, assim, que a imagem pode ser imperfeita, conforme seja de uma natureza diversa daquilo que se expressa nela, ou pode ser tão mais perfeita, quanto mais contenha, em si, a igualdade do que expressa. Um retrato de alguém é uma imagem mais imperfeita do que, digamos, uma escultura, porque no retrato há a expressão reduzida a duas dimensões, mas na escultura a imagem reflete o retratado de maneira tridimensional. Uma imagem perfeita, portanto, contém em si todos os elementos daquilo que ela expressa ou retrata.
Imagem imperfeita e distante de Deus.
Assim, não se pode negar que há, no ser humano, semelhança de Deus; Deus, em sua infinita bondade, sabedoria, perfeição, é o modelo ao qual nos assemelhamos, por expressa determinação de Deus mesmo. Ora, a semelhança que reflete um modelo, que o expressa, é classificada como imagem. Somos imagem de Deus. Mas, dada a infinita distância entre o modelo (Deus) e o reflexo (nós), temos que reconhecer que essa imagem é imperfeita, muito imperfeita. É por isso que, na Bíblia, o ser humano é descrito como tendo sido criado “à imagem de Deus”; não que ele seja “a” imagem de Deus, porque a semelhança é imperfeita demais. Mas a contração do artigo com a preposição (à), que exprime uma aproximação (mas não uma identidade), manifesta que essa é uma imagem imperfeita, muito imperfeita. O que se aproxima é o que está longe, conclui Tomás..
3. Encerrando.
Há um homem, apenas um, que é imagem perfeitíssima de Deus. Mas estamos adiantando as coisas: no próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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