1. Introdução.
O fim ninguém escolhe, diz um ditado antigo. Qual o fim do ser humano? Esta é uma pergunta que, para nós, hoje em dia, talvez desperte dois sentimentos: a melancolia de contemplar o “fim”, uma palavra que é sempre associada à destruição, a encerramento, ao desaparecimento; e, por outro lado, um certo pessimismo antropológico que não permite que vislumbremos o bem no ser humano. Ora, para Tomás (e para todo o pensamento que lhe era anterior e contemporâneo) o fim tem necessariamente razão de bem: fim é aquilo que atrai, que dá rumo, que consuma. É a primeira causa, porque é o que dá sentido ao ente. É exatamente a busca do fim que nos move e nos identifica como humanos: no mundo material, somos a única criatura que é capaz de conhecer o seu fim e caminhar, por movimento próprio, a ele. E é este justamente o conteúdo da nossa liberdade: se não podemos ver, por nós próprios, o fim, ou não nos dirigimos a ele por nossa própria vontade, não somos livres. É assim que todas as outras coisas procuram seus próprios fins, como que levados a ele a partir de fora. Não os seres humanos: devemos caminhar para nosso fim, que é o nosso bem, a nossa plenitude, a partir da nossa própria iniciativa.
É certo que os animais podem, eventualmente, conhecer o fim que os move. Um cão identifica a comida e se move para ela. Mas ele é movido pelo instinto, não por conhecer a razão de fim que a comida tem. Não é assim com os seres humanos. Os fins desencadeiam, em nós, uma tendência, mas não algum automatismo. Somos capazes de conhecer o fim em sua razão de fim.
E qual é o nosso fim? Ser imagem de Deus, propõe esse artigo. Faremos um grande debate sobre essa plenitude a que tendemos, de ser imagem de Deus, uma tarefa grande demais para caber numa vida humana, distante demais para ser realizada sem a graça. Ainda assim, é uma tarefa que devemos perseguir com nossas próprias forças, porque o auxílio da graça sempre pressupõe a natureza. A plenitude é um dom e uma tarefa.
E o que dizer dessa ideia de que não se pode escolher o fim? Não posso simplesmente me recusar a perseguir a plenificação da imagem de Deus em mim, não posso renunciar à vida e, por exemplo, me matar? Não posso escolher ser imagem de alguma outra coisa que não Deus, alguma imagem que eu mesmo crio para mim? Como Deus poderia me impor que parecesse com ele?
]Não há nenhuma imposição. O fim é dado, não imposto. Mas é um fim verdadeiro: não há nada mais elevado que Deus pudesse nos dar, senão ele mesmo. Não há plenitude humana fora de Deus. Assim, quem resolver buscar outro fim fora de Deus, quem resolver tomar a própria vida nas suas mãos e imaginar poder cessar de existir pelo suicídio, como ato de revolta radical contra Deus, pode vir a ter uma bela surpresa: continuar a existir e vir a se encontrar com Ele, após tê-lo rejeitado radicalmente. Será surpreendido, então, pela confirmação de que não há nenhum fim a ser perseguido fora de Deus, simplesmente porque nele está todo o bem. Ficará eternamente como uma obra inacabada e inacabável: isto é, justamente, o contrário da plenitude. E é um risco que a liberdade humana sempre corre. A morte não é o fim do ser humano: é simplesmente o encerramento de sua capacidade de reconhecer o fim e de se encaminhar a ele livremente. O fim não é a morte; é Deus. Mas a liberdade sempre permite ao ser humano frustrar sua própria plenificação. Neste caso, porém, terá, por consequência, a própria incompletude eterna como resultado. Quem rejeita o fim não é simplesmente alguém que pensa diferente, ou que tem uma opinião diversa: é alguém que está equivocado.
Mas vamos ao primeiro artigo desta longa questão.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial é radical. Ela propõe, simplesmente, que a imagem de Deus não está no ser humano. Seja porque Deus é distante e inefável, completamente outro com relação ao humano, seja porque o pecado em nós teria destruído radicalmente não somente a imagem atual, mas a simples possibilidade de persegui-la como um fim, seja porque, sendo resultado de mero acaso evolutivo, o ser humano não tem um deus com o qual se assemelhar a não ser o próprio acaso e a luta radical pela sobrevivência e pela superação dos concorrentes, ou a ideia de que a felicidade humana estaria em ter a imagem de Deus como dom e meta seria simplesmente enganosa. Há três argumentos objetores iniciais, que tentam comprovar esta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Isaías 40, 18: “A quem poderíeis comparar Deus, e que imagem dele poderíeis oferecer?”. Ora, se Deus não pode ser comparado a nada, se nada é capaz de oferecer uma imagem própria dele (segundo a própria Bíblia), então mesmo nós, os seres humanos, não podemos ser propriamente chamados de “imagens de Deus”, e não devemos nos esforçar para parecer com ele, porque isto é impossível segundo as Escrituras. Assim, a imagem de Deus não se encontra no ser humano, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor também busca uma citação bíblica. Ele traz um versículo do belíssimo hino cristológico da Carta aos Colossenses. Em Cl 1, 15, pode-se ler que Jesus é “a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a Criação”. Assim, somente Jesus é imagem de Deus, e não os outros seres humanos, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor busca apoio em Santo Hilário, Padre da Igreja, que ensina que uma imagem é semelhança perfeita com a coisa retratada, de tal modo que tenham a mesma species, ou seja, a mesma estrutura abstrata. Assim, quando alguém pinta um quadro que representa um cavalo, é a species do cavalo que está no quadro, e por isso o quadro é imagem do cavalo retratado.
Na verdade, este antigo escritor eclesial chega a dizer que a imagem é aquilo que apresenta a alguém uma outra coisa, por conter em si a sua igualdade, indivisa e unida. Ora, prossegue o argumento, se eu vejo dois animais da mesma espécie, sei que um é imagem do outro, pelo compartilhamento da species.
Mas não há, nem poderia haver, nenhum compartilhamento de espécie entre o ser humano e Deus, nem sequer eles poderiam compartilhar algo que fosse comparável entre os dois, dada a alteridade radical de Deus com relação ao ser humano. Assim, é impossível falar que o ser humano é imagem de Deus, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Nós já sabemos que, nos artigos da Suma, sempre há a apresentação de vários argumentos em favor da hipótese inicial, e, em seguida, um ou alguns argumentos contrários a ela, os argumentos sed contra.
No presente caso, o argumento sed contra simplesmente cita a Bíblia (Gn 1, 2¨): “façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança”. Assim Deus o quis, assim ele o fez; somos, portanto, à imagem e semelhança de Deus, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Retomando aquela nossa bela metáfora da Suma Teológica como uma grande Catedral, poderíamos dizer que chegamos no altar: o ser humano. Ou, talvez, estamos contemplando as belas imagens que o ornamentam.
Em todo caso, veremos, no próximo texto, a bela resposta de Tomás para esse problema tão rico, que envolve a centralidade do próprio bem, do próprio sentido de existência do ser humano: parecer com Deus, e parecer com ele cada vez mais, para ser feliz.
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