1. De volta.

É preciso estabelecer a igual dignidade de homens e mulheres, a partir de sua origem no próprio plano divino. Isto tem lastro no primeiro relato de criação (Gn 1, 27), quando se narra que Deus os criou “homem e mulher”. A sexualidade, assim como a diferença sexual, estavam nos planos originais de Deus. A sexualidade é uma marca da abertura para a complementariedade, não por outra coisa, mas por outra pessoa. Sou eu, único e diferente, que preciso me doar ao outro para ser pleno, e isto se dá pelo corpo. Anjos não precisam de corpos para interagir, mas nós, humanos, precisamos. Há um abismo, uma impossibilidade de ser o outro, de deixar de ser quem sou para ser aquilo que é diferente de mim. E esse abismo foi querido por Deus mesmo. A sexualidade é a marca da incompletude em mim, e ao mesmo tempo é a marca da doação. Tudo isto saiu das mãos de Deus. Não é marca de queda nem de pecado, não é produto de seleção natural ou de acaso evolutivo: é significado impresso por Deus, marca trinitária em mim.

Vamos examinar agora as respostas de Tomás às sérias interpelações colocadas neste artigo.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás lembra que, quando falamos de geração natural de seres vivos, sempre há algum início material que dá origem ao novo espécime. Toda espécie de ser vivo tem sua própria forma natural de reprodução, que sempre envolve alguma transmissão de matéria: sementes, esporos, gametas, pólen, pedaços do corpo, enfim, sempre há algo, uma porção de matéria que transmite a vida aos descendentes.

No caso do ser humano, Tomás lembra que a geração natural de um novo ser humano sempre envolve o encontro do gameta masculino com o feminino. Qualquer geração diversa dessa não é natural, portanto. Se algum ser humano foi gerado de alguma matéria inicial que não envolve o encontro desses dois gametas, não estamos mais no campo da geração natural, do simples resultado das forças naturais ou angélicas (como se pensava no tempo de Tomás).

Note-se que Tomás não estava discutindo, aqui, nenhuma hipótese de geração artificial de um ser humano, como a fertilização in vitro e mesmo a clonagem. Ainda nestes casos existe a produção artificial de uma fecundação, ou seja, há o induzimento, por meios artificiais, ao processo natural de geração de um novo ser humano.

Ora, qualquer coisa que venha a existir fora da ordem natural, como um ser humano plasmado a partir de uma costela de outro ser humano, envolve a narração de algo que somente Deus mesmo poderia fazer. Assim, quando as Escrituras narram a formação da mulher a partir da costela do homem, o que se está descrevendo é um processo de criação que se dá por ação de Deus, não algum processo natural, ou mesmo artificial (no sentido de tecnológico)de geração humana.

Portanto, a mulher, como o homem, ou seja, a diferença sexual mesma, é resultado de ação direta e deliberada de Deus, e não a consequência da atuação casual ou evolutiva de forças naturais. Somos, homens e mulheres, em nossa diferença, resultado da ação criadora de Deus. A diferença sexual é, portanto, um dom de Deus a ser acolhido e vivido com alegria por nós, e não, repita-se sempre, algum resultado de acaso ou do próprio pecado.

3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que todo aquele ente vivo que é gerado por um outro ente semelhante a si não pode ser declarado como “criado imediatamente por Deus”. Mas a mulher, segundo o relato bíblico, foi gerada a partir do homem, que é da mesma espécie que ela. Portanto, ela não foi criada diretamente por Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Como vimos na resposta sintetizadora, de fato o surgimento de um novo ser, de um novo indivíduo daquela espécie, por geração, implica que aquele indivíduo não foi diretamente plasmado por Deus, mas que entra na existência por um processo decorrente de causas naturais. Mas isso não é o caso da narração bíblica: não há causas naturais capazes de explicar o surgimento de um novo ser humano a partir da costela do outro. A mensagem ali é clara: a diferenciação sexual é originada da própria intencionalidade divina, e o ser humano do sexo masculino deve considerar o ser humano do sexo feminino como algo que Deus retirou do seu próprio coração.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que o próprio Santo Agostinho, na sua obra sobre a Trindade, ensina que Deus entregou a causalidade natural no mundo material criado ao poder dos anjos (hoje em dia, diríamos, às forças naturais físicas e biológicas que são representadas pela ciência de hoje como leis da natureza). Ora, a origem da mulher, mencionada em Gn 2, 22, é a origem de um ente material que surge a partir de outro ente material, ou seja, a mulher surgindo a partir da costela do homem. Assim, esse surgimento se deve aos anjos (ou às lei naturais da física e da biologia, diríamos hoje) e não a uma atuação pessoal e direta de Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás lembra que Agostinho, na obra referida, não afirma categoricamente que a diferenciação sexual, como narrada na Bíblia, foi realizada por Deus com o auxílio dos anjos (e das forças naturais da bilogia e da física). Este não é o ponto, aliás. A questão é afirmar, como afirma a Bíblia, que o ser humano foi criado por Deus em identidade com o resto da criação material (da argila da Terra) e a diferenciação sexual foi obra direta de Deus e ocorre por sua atuação pessoal e direta, e em razão de um desígnio seu (é este o sentido da narração de que a mulher foi feita por Deus da costela do homem). Portanto, mesmo que causas segundas tenham participado do processo de criação divino, isto não diminui a verdade de que a própria diferenciação sexual é um dom de Deus mesmo aos humanos, e faz parte de seus desígnios criadores originais.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que Deus, desde o primeiro momento, já inseriu, na criação, todas as razões de tudo o que viria a existir depois; como um “código genético” de toda a criação, desde o primeiro momento. Portanto, até mesmo uma mosquinha que existe hoje em dia já estava como que “prevista” em semente no primeiro momento da criação (em suas razões seminais, como chamava Agostinho).

Assim, apenas aquilo que foi criado no primeiro instante, conforme o relato de Gn 1, 1 a 2, 4, saiu diretamente das mãos dele. Aquilo que veio depois decorre de geração natural, a partir dos próprios processos físicos e biológicos da natureza.

Ora, a criação da mulher deu-se depois de todas as coisas, como se vê em Gn 2, 22. Portanto, embora estivesse como que “programada” em suas razões seminais desde o primeiro momento pode Deus, a mulher, por ter surgido depois, foi resultado das forças naturais, e não de uma atuação pessoal e direta de Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É preciso lembrar que, conforme a melhor leitura do Relato da Criação, Tomás nunca admitiu uma leitura literal e fundamentalista do texto, mas sempre soube fazer uma bela harmonização entre os termos bíblicos e os melhores conhecimentos teológicos, filosóficos e científicos do seu tempo, preservando a cosmovisão bíblica em sua essência.

Assim, quando a Bíblia trata da criação da mulher, na verdade estamos falando em diferenciação sexual, que está presente desde o primeiro momento, como capacidade humana, como se vê em Gn 1, 27. Deus criou o ser humano como ente sexuado; no entanto, apenas em Gn 2, 22, há um relato da efetiva separação do humano em sexos, o que corresponde a uma exposição das razões divinas (já presentes desde o início) para o significado da sexualidade: a origem comum dos corpos, a posição privilegiada da mulher como retirada do coração do homem, a integração em uma só carne, tudo isso informa sobre os desígnios de Deus, muito antes do relato da queda. Assim, embora esse relato de diferenciação sexual venha a ser especificado apenas num ponto mais tardio do segundo relato da criação, ele manifesta, em todo caso, um desígnio para o ser humano que já estava presente desde o início na ordem que Deus criou para o mundo.

5. Conclusão.

Após este esforço para compreender a estrutura da diferença sexual na vontade de Deus, e as belas consequências do esforço de Tomás (limitado pela estrutura de seu tempo, à qual ele não conseguiu escapar inteiramente), podemos acompanhar (e devemos) a mais bela teologia sobre este relato, que está nas chamadas “catequeses de teologia do corpo” de São João Paulo II. Vamos redescobrir esse tesouro!