1. Introdução.
Precisamos ressaltar, mais uma vez, que a discussão medieval a respeito de alguma coisa ser resultado da criação “direta” por Deus ou resultado da atuação dos anjos equivale, de certo modo, à nossa discussão, hoje, entre criação e evolução: em que medida existem substâncias, isto é, coisas queridas e criadas por Deus, ou existem apenas acidentes, formas acidentais decorrentes de forças naturais, evolutivas ou angelicais?
No caso da sexualidade, poderíamos ainda acrescentar: em que medida a sexualidade (ou, como prefere a moda atual, os gêneros) é algo querido por Deus mesmo, que nos dá, como dom de seu amor, a distinção sexual, ou essa distinção é apenas e simplesmente a expressão de uma cultura que impõe papéis arbitrários e opressores às pessoas com base apenas no fato de terem determinadas vísceras que as sociedades associam ao que é masculino ou feminino, mas que, em si mesmos, são neutras? O corpo pode ter um significado, pode nos ensinar alguma coisa, ou a nossa liberdade deve nos levar a excluir qualquer aceitação, qualquer conformidade, entre o que somos e os órgãos reprodutivos do nosso corpo? Podemos desconstruir toda a questão da sexualidade, lidando com ela apenas como uma questão de liberdade sexual, negando que o corpo possa influir de qualquer modo na nossa identidade pessoal? Será mesmo verdade o que dizem certos estudiosos radicais, que atribuir significados à distinção sexual seria apenas uma opressão da qual teremos que nos libertar, para que possamos estabelecer, apenas com base em nossa própria decisão, tudo o que queremos ser e viver?
Não é assim. Não somos deuses para nós mesmos, nem podemos ser. Não somos motores imóveis, não somos causa eficiente primeira, não somos seres que existem necessária e eternamente, não somos padrão de perfeição nem somos fim dos fins, logo não podemos ser Deuses, como Tomás já nos ensinou na questão 02 desta primeira parte da Suma. Falando sobre essas teorias radicais de gênero (ou gender, como se diz nos meios especializados), que não aceitam aquilo que em nós é dom, e que deve ser respeitado e completado pela cultura e pela liberdade, mas não desprezado, o Papa Francisco nos ensina, na Encíclica Laudato Sì: “É necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente. Assim, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus criador, e enriquecer-se mutuamente. Portanto, não é salutar um comportamento que pretenda cancelar a diferença sexual, porque já não sabe confrontar-se com ela.”
Esse apreço se expressa, neste artigo que estudaremos agora, pela reafirmação de que nossas diferenças sexuais saíram das próprias mãos de Deus, e não de algum acaso evolutivo ou de alguma força natural necessária, que os antigos atribuíam aos anjos.
Mas deixemos de digressões. Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial propõe que não foi Deus que criou diretamente a mulher, ou seja, a distinção sexual não fazia parte dos planos criadores de Deus, mas decorreu das forças naturais, culturais ou, como se dizia no tempo de Tomás, foi ação dos anjos. É, portanto, uma teoria muito próxima daquelas propostas ideológicas de hoje em dia, que defendem que a distinção sexual é apenas uma consequência cultural, histórica ou social, não um dado natural. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor afirma que quando um indivíduo de uma determinada espécie dá origem a outro indivíduo da mesma espécie, isso não é um ato divino, mas um fato estritamente da ordem natural. Ora, se Deus fez o ser humano sem a distinção sexual, como está narrado em Gn 2, 7, e somente depois (Gn 2, 22) é que a mulher foi tirada do homem, esse ato de “tirar do homem” é um ato que se caracteriza pelo surgimento de um ser a partir de outro ser da mesma espécie. Logo, essa distinção sexual não decorre de uma atuação criadora de Deus, mas de um fato biológico determinado por forças naturais. Assim, a diferenciação sexual não decorre da criação de Deus, mas de forças naturais, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Santo Agostinho diz, no Livro 3 da obra sobre a Trindade, que o surgimento de seres corporais decorre das próprias forças naturais, ou seja, da atuação dos anjos no dinamismo do universo (hoje, diríamos, do funcionamento das leis e causalidades naturais biológicas). Ora, prossegue o argumento, as mulheres são entes corporais. Logo, são formadas pelas forças naturais (dos anjos, defendiam eles; da biologia, diria a ciência de hoje), conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Santo Agostinho ensina que Deus, ao criar as primeiras coisas, inseriu na criação as razões causais (rationes seminales) de tudo aquilo que viria a existir naturalmente depois, de tal modo que, digamos, uma lesminha de jardim que existe hoje já tinha sido criada por Deus, em suas razões causais, muito antes de que as forças reprodutivas dos seus genitores e predecessores viessem a dar existência atual a ela. Ora, tudo aquilo que não existia naquelas primeiras obras criadoras de Deus surgiu mais tarde por geração natural, uma criatura originando outra, por força das razões causais inseridas por Deus no primeiro momento da criação. Tudo aquilo que não é primeira criação não é obra direta de Deus, mas se origina de outras criaturas por geração, diz o argumento.
Ora, o próprio relato bíblico atesta (Gn 2, 22) que a diferenciação sexual, com o surgimento da mulher, só veio a acontecer na criação num momento tardio, em que todos os outros seres já haviam sido criados, e surge a partir de outra criatura, o homem. Logo, a mulher surge pelo desenrolar das razões causais, produzidas por forças naturais, e ela surge não diretamente das mãos de Deus, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra também vai procurar lastro em Agostinho. De fato, Agostinho, cioso da necessidade de lastrear a dignidade feminina na própria atuação divina, nos planos originas de Deus para a Criação, afirma expressamente que somente Deus, que é a origem e fundamento da existência de toda natureza, poderia moldar ou modelar a mulher para fazê-la existir a partir de uma costela.
5. Encerrando.
Muito belo debate, verdadeira raiz de todo clamor de justiça, de dignidade, de igualdade de direitos entre homem e mulher, ambos igualmente nascidos das mãos de Deus, que se fazem ouvir no mundo contemporâneo.
No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos questionamentos colocados neste artigo.
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