1. Retomando.

Vimos então, no texto anterior, a hipótese de que a mulher não foi feita da costela do homem, e portanto a narração bíblica não faria sentido, segundo os argumentos objetores. Nem haveria material suficiente numa simples costela para fazer uma mulher, nem seria próprio de Deus deixar o homem com uma costela a menos, ou ter criado ele com uma costela a mais, nem haveria sentido em proceder a uma verdadeira cirurgia, com todo o seu impacto na saúde, ainda no paraíso. De fato, os argumentos aduzidos coincidem em fazer uma leitura literal do texto bíblico e tentar demonstrar sua impertinência.

É bom ressaltar que o significado da ideia de que a mulher foi “tirada do homem” já foi debatida no artigo anterior. Aqui, o que se debate, especificamente, é o relato de que ela foi tirada, especificamente, da “costela” do homem.

Veremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás, que procede a uma belíssima leitura poética e literária da Bíblia, ressaltando sua verdade a um nível muito profundo, resgatando todo o poder dessas palavras. Em seguida, acompanharemos as respostas dele aos argumentos objetores iniciais.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás acha conveniente que a narração bíblica descreva a origem da mulher como advinda da costela do homem. E dá duas razões para essa conveniência, que são de beleza ímpar, e que revelam a enorme capacidade de interpretação de Tomás:

1) De fato, diz ele, a Bíblia diz que a mulher foi feita da “costela do homem” para significar a sua unidade e a sua igual dignidade. De fato, se a mulher fosse descrita como “feita da cabeça” do homem, isso levaria a imaginar que a mulher devesse dominar o homem, já que a cabeça domina o corpo. Por outro lado, se ela fosse feita de algum membro inferior, como os pés, isso poderia expressar que ela devesse ser dominada ou desprezada pelo homem, já que teria sido tirada de uma região “inferior” do corpo. Ao descrever a mulher como retirada da costela, o relato bíblico a coloca como originada da região do coração, e portanto digna do amor mais verdadeiro. E, uma vez que esta é uma região intermediária, pode-se compreender que ambos estão no mesmo nível, e nenhum pode reivindicar nenhum tipo de supremacia sobro o outro.

2) O segundo motivo é ainda mais alegórico; trata-se de uma prefiguração de Cristo na cruz, adormecido no sono da morte, quando teve as costelas traspassadas por aquela lança, e dessa ferida surgiram sangue e água: ou seja, das costelas de Cristo surgem os sacramentos da Igreja, que são o sangue e a água de Cristo para nossa vida. Portanto, se do lado do primeiro homem surge a primeira mulher, do lado de Cristo morto na cruz surge a Igreja. Belo paralelo, muito cheio de significado.

3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento diz que uma costela não seria material suficiente para fazer o corpo feminino. Assim, ou Deus teria que recorrer a um material complementar, e esse material complementar estaria numa quantidade muito maior na mulher; logo, não se poderia dizer que ela foi “feita da costela”, mas do material complementar. Ou então o material da costela seria expandido até ter uma densidade bem menor do que aquela do corpo humano, o que não se verifica na prática. Logo, a narração bíblica é inadequada, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Aqui, Tomás vai confrontar esse argumento com o que se tinha de ciência e filosofia em seu tempo. Ele admite a literalidade da ação de Deus sobre o homem, retirando-lhe a costela e fazendo dela a origem do corpo da mulher. Admitido esse fato, restariam algumas possibilidades:

– Deus simplesmente multiplicou a matéria da costela, sem adicionar a ela mais nada. Isso poderia ser feito por algum tipo de transformação, quer a) transformando a própria matéria em mais matéria, quer b) expandindo a matéria para que ela ocupasse mais espaço.

Mas a multiplicação da matéria por transformação (a) não seria logicamente possível, diz Tomás. De fato, a matéria, em si mesma considerada, é algo inteiramente potencial, indeterminado, que não tem nada de atual, nem sequer dimensões ou quantidades. Assim, Transformar a matéria-prima em mais matéria seria ilógico, porque não se pode transformar algo que não tem, em si mesmo, “quantidade”, em algo com mais quantidade. Ou Deus cria a partir do nada (e nesse caso não se poderia dizer que a mulher veio da costela, mas ela teria vindo do nada, como as outras criaturas), ou, se criar a partir de matéria preexistente, haveria contradição lógica em transformar matéria-prima em mais matéria, pelos motivos expostos.

No caso do (b), isto também não seria logicamente possível, porque implicaria uma perda de densidade. Como sabemos, se alguém tenta esticar, digamos, um pedaço de borracha, ele se tornará cada vez mais fino, até romper-se. Se alguém quer aumentar, digamos, a quantidade de um líquido, terá que diluir esse líquido, diminuindo sua densidade. Assim, se quiséssemos simplesmente expandir a costela até que ela adquirisse dimensões suficientes para formar o corpo feminino, ela se tornaria tão rarefeita, tão pouco densa, que o corpo feminino teria que ser muito diáfano, talvez quase gasoso. Mas não é. Logo, é claro que essas duas alternativas não podem ser consideradas, quando lemos esse texto.

A outra possibilidade seria o aumento da matéria, quer a) por assimilação (como acontece quando uma semente se torna árvore, ou, segundo Santo Agostinho, quando Jesus multiplicou os pães para a multidão) ou b) por criação da mesma matéria a partir do nada, Ambas as possibilidades poderiam explicar a ação de Deus na formação do corpo feminino a partir da costela masculina, sem nenhuma contradição lógica, mesmo considerando a literalidade da ação divina. No caso concreto, seria fácil propor, diz Tomás, que a costela funcionou como uma espécie de semente, a partir da qual o corpo feminino foi se formando por assimilação de outras fontes, como a semente cresce e vira árvore, ou como o embrião humano vira uma criança.

Em suma, se eu tenho um pouco de liberdade para propor um pouco de poesia à resposta de Tomás, diria que se pode ler este texto com a ideia de que a geração corporal humana sempre envolve a diferenciação de sexos e a geração a partir de uma semente que sai da altura do coração dos genitores. Isto resgata a beleza do texto bíblico, sem forçar a física, a biologia ou a lógica. E é neste mesmo sentido, da semente que origina, que se desenvolve, que a resposta às duas próximas objeções vai caminhar.

O segundo e o terceiro argumentos objetores.

O segundo argumento diz que Deus não pode fazer nada imperfeito. Logo, se ele retirou uma costela do homem para fazer a mulher, então essa costela não fez falta ao homem, e o fato de que o homem foi criado com algo que não lhe faria falta se fosse extraído mostra que ele não foi criado de modo perfeito. Por outro lado, se a costela extraída fez falta, então a criação da mulher deixou o homem imperfeito, o que também não seria digno de Deus. Além disso, diz o terceiro argumento, arrancar uma parte interna do corpo humano masculino é sempre um procedimento que envolve trauma, dor, mutilação, realidades que são incompatíveis com a felicidade que havia no paraíso antes da queda. Portanto, concluem os argumentos, o relato bíblico é muito inadequado.

As respostas de Tomás ao segundo e ao terceiro argumentos.

Não há dúvida de que o homem era perfeito desde o começo, como espécie humana; ocorre que a espécie humana envolve a separação em sexos, de tal modo que a costela a que se refere o relato bíblico deve ser entendida como a semente para a diferenciação sexual, e não literalmente como um pedaço de osso a ser extraído. Ora, do mesmo modo que os gametas sexuais podem ser envolvidos no processo de geração de um novo ser humano, sem diminuir a perfeição dos genitores nem causar neles dor, mas ao contrário, intenso prazer, tanto no ato sexual, quanto na própria reprodução, o fato de que o ser humano trouxe em seu próprio corpo a semente da diferenciação sexual (que a Bíblia descreve como “costela”) não envolveu nenhuma parte supérflua no princípio, nem nenhuma diminuição posterior, nem sequer qualquer tipo de dor para o ser humano. Assim, as objeções não são válidas.

4. Conclusões.

Enriquecidos assim com essa caminhada, que demonstra a beleza da sexualidade humana, examinaremos, nos próximos textos, o último artigo desta questão, que ressaltará mais uma vez a igual dignidade entre homem e mulher, ambos criaturas moldadas pelas próprias mãos de Deus.