1. Introdução.

Como já vimos, Tomás não faz leituras fundamentalistas e literais da Bíblia. Conhece profundamente as Escrituras, mas sabe que seus modos de falar devem ser muito cuidadosamente assimilados. Também assim com a questão da “costela do homem”. O que exatamente as Escrituras querem dizer quando descrevem assim a criação da mulher?

Por um lado, um grande respeito pelas Escrituras: não se pode deixar de recebê-la como palavra revelada e verdadeira. Por outro, a constatação de que seu simples sentido literal não se ajusta ao dado filosófico e biológico. Não faz sentido, nem filosoficamente, nem biologicamente, dizer que a mulher foi literalmente criada a partir da costela do homem. Mas as escrituras não podem ser desprezadas. O que ela nos quer dizer, então?

Este é o debate aqui. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial aqui é muito simples: o texto bíblico não faz sentido, propõe esta primeira hipótese, para suscitar o debate. A mulher simplesmente não pode ter se originado da costela do homem. O relato bíblico é desprezível, portanto, propõe a hipótese. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese, e que tentam confirmá-la.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor é físico mesmo, e mostra que a interpretação textual da passagem do Gn 2, 22, leva a absurdos científicos: não haveria matéria suficiente, na costela do homem, para gerar uma mulher inteira. Assim, seria necessário tomar matéria de outro lugar (talvez da argila, quem sabe) para formar o resto do corpo da mulher que a matéria da costela não fosse suficiente. Mas, nesse caso, com certeza essa matéria adicional seria em muito maior quantidade do que a própria costela; assim, teríamos que dizer que a mulher veio principalmente dessa matéria adicional, e não da costela.

Ou então teríamos que admitir que Deus foi diluindo a matéria da costela, de modo a fazer a mulher bem menos densa em seu corpo do que o homem. Como alguém que toma um pedaço de borracha e o estica até deixá-lo estreito e comprido, ou como alguém que dilui algo até torná-lo ralo e diáfano; em todo caso, sabemos que o corpo da mulher não é menos denso do que o do homem.

Assim, seria fisicamente impossível que a mulher tenha sido formada a partir de uma costela masculina.

O segundo argumento objetor.

Deus é perfeito. Onipotente. Onisciente. Portanto, ele jamais faria algo defeituoso ou supérfluo, nem interviria na criação para reduzir a perfeição de alguma coisa. Assim, dada a perfeição divina, temos que admitir que: ou o corpo do primeiro homem tinha exatamente a quantidade de costelas que deveria ter (e nesse caso, retirar uma costela diminuiria sua perfeição, o que seria inadmissível para uma ação de Deus), ou ele tinha costelas de sobra, de tal modo que retirar uma não lhe faria falta; mas, nesse caso, Deus o teria criado originalmente com excessos desnecessários, o que não seria digno de Deus. Logo, não faz sentido imaginar que a mulher foi criada a partir da costela do homem, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

A dor foi uma consequência do pecado, como vemos no capítulo 3 do Livro do Gênesis. Ora, não seria possível extrair uma costela do primeiro homem sem atingir sua integridade física, e, portanto, causar-lhe dor. Mas a mulher foi criada no Paraíso, onde não havia a possibilidade de sentir dor. Logo, não faz sentido propor que a mulher foi criada a partir de uma costela retirada do homem, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra simplesmente recorda que a Bíblia ensina explicitamente que a mulher foi feita a partir de uma costela do homem, em Gn 2, 22. Ora, a Palavra Revelada na Bíblia não erra, naquilo que diz respeito à nossa salvação. Assim, deve haver um significado profundo nesse ensinamento bíblico, que não podemos simplesmente desprezar com a ideia de que uma leitura literal disso não corresponderia à biologia ou à filosofia. Logo, deve haver um modo adequado de compreender esse ensinamento bíblico, conclui o argumento.

5. Encerrando.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás nesta questão tão peculiar e bela, que envolve basicamente interpretação bíblica.